RetroReview: Ys: The Vanished Omens


Introdução



Quando conheci Ys, lá pelo final dos anos 90, já havia arriscado outros títulos de RPG do Master System, como o petardo Phantasy Star, o obscuro Golvellius e o horrendo Heroes of the Lance (fujam desse). Mas Ys apareceu meio tímido em minha vida; ninguém me recomendou, não li em nenhuma revista e muito menos em uma análise na internet, já que no auge da discadona este tipo de material era quase inexistente – aliás, para quem viveu a época, sabe que até achar um mero arquivo de ROM era um trabalho árduo!

Bom, foi em um daqueles famosos CDs genéricos que transbordavam nas bancas de jornais da época, recheado de ROMs de 0 a Z, e provavelmente junto com alguma revista igualmente genérica (afinal, só comprávamos pelo CD mesmo), que encontrei este jogo que é tema do review. Apesar de ter estranhado o nome e a peculiaridade do mesmo, logo que dei início no joguinho, graças a minha imensa curiosidade e paciência, comecei a perceber que aquele não era um mero RPG esquecido no tempo, mas uma pérola negra.

Cheguei a um ponto que não conseguia mais progredir – acabei deixando-o de lado. Porém, alguns anos mais tarde, encontrei um rapaz que estava vendendo um lote de cartuchos de Master System por uma pechincha, e entre eles estava o cara injustiçado. Comprei sem hesitar, tirei o pó do meu Master caduco, peguei o controle “fogãozinho” e encarei-o de novo, dessa vez determinado em ir até o final.

O resultado disso? Bom, hoje posso dizer que ele, junto com seu sucessor, estão no top 10 dos melhores RPGs que já joguei. Muitos podem discordar disso, mas quem sabe consigo passar aqui um pouquinho dessa experiência tão fascinante.

Prólogo



“Uma história que transcende gerações, sempre renovando seu legado sem deixar se abater pelas inovações técnicas de ritmo vertiginoso. Com bases fortemente consolidadas no Japão desde a década de 80, aos poucos, vem atraindo novos apreciadores que não puderam desfrutá-la na época.”

Diz-se que um reino utópico de plena paz e prosperidadede outrora existiu em Esteria, seu nome era Ys. Governado pelos poderes de deusas gêmeas e seis sacerdotes, absolutamente nada parecia quebrar o equilíbrio perfeito deste reino. Porém, uma sociedade que desconhece o caos pode estar fadada a uma calamidade, que por fim aconteceu, e com ela o desvanecimento dessa civilização remota. Como a veracidade desses fatos é dúbia em Esteria, os mesmos tornaram-se uma lenda.

Os contos populares não se estendem além disso, mas comenta-se sobre a existência de 6 livros que contam toda a história desses acontecimentos. Todos os livros estariam escondidos nos lugares mais obscuros imagináveis, dessa forma, ficariam protegidos, ao menos até o dia em que as deusas precisassem ser invocadas novamente. Seria este dia iminente?

O herói entra em cena



“Jovens e jovas, antes de começar, devo explicar que, ao longo dos anos, a própria Falcom reinventou o prólogo de Ys de várias formas. Sendo assim, o prólogo que me serviu de inspiração foi o do próprio manual de instruções que acompanhava o cartucho de Master System.”

 

Naquela manhã atemporal, um pescador estava andando em direção à praia, local de seu trabalho. Foi então que ele avistou algo adiante, aparentando ser um corpo estendido na areia úmida. Ao aproximar-se, viu que tratava-se de um jovem rapaz inconsciente, de cabelos vermelhos vívidos. Presumindo que seu navio naufragou devido a fúria da tempestade, levou-o para sua casa, localizada em uma pequena vila de pescadores, onde poderia tratá-lo.

Após recuperado, o garoto contou-lhe seu nome, Adol. Em suas primeiras andanças, o nosso herói avistou uma pequena montanha com uma torre de aspecto sinistro em seu topo, da qual logo ficou sabendo tratar-se da temida Torre dos Condenados, onde diziam ter surgido todos os problemas de Ys.

O que havia na Torre dos Condenados? O que era Ys? Mesmo sem saber, Adol pressentia que seu destino estava nesses lugares. O bondoso pescador, mesmo alertando-o, não podia impedir um espírito tão aventureiro. Dessa forma, aconselhou-o a procurar a resposta na cidade mais próxima, Minea. Então deu-lhe equipamentos e algum dinheiro, desejando-lhe boa sorte em sua jornada.

“Primeiro Passo Rumo à Guerra”



Entramos na pele de Adol Christin, o herói adolescente, afinal, todos os heróis japoneses são adolescentes. O jogo inicia a partir do momento que ele chega em Minea, literalmente. Não há aberturas, histórias, tutoriais, tudo aquilo que há alguns anos tornou-se obrigatório; em Ys, você é “tacado” no mundão sem dó nem piedade, e ai de quem reclamar! Parece estranho, não? Na verdade estranho para os padrões atuais, visto que muitas franquias clássicas de RPG começaram assim… Ora, se vocês já jogaram os primórdios da série Dragon Quest, ou mesmo Final Fantasy, sabem que não estou mentindo.

Um dos encantos do enredo de Ys é justamente não cuspir a história para o jogador, dessa forma, conforme nossa aventura progredir, montamos pedaços fundamentais dela. Já que nosso objetivo não é totalmente claro em boa parte do desenrolar da trama, só será possível desvendá-lo encaixando todas as peças desse quebra-cabeça. Inicialmente, como em todo bom RPG, conversamos com as pessoas do vilarejo para pegar algumas pistas, tomamos umas e outras na taverna (isso, ele é menor de idade, bonito não?), e claro, fazemos bicos para conseguir uma graninha — afinal, todo herói já foi um cara ordinário algum dia.

Até esse ponto, tudo parecerá vago e sem sentido, e acredito que muitos já devem ter desistido logo após tomarem a primeira sova de pau fora de Minea. Porém, a partir do momento que conseguimos o primeiro conjunto de equipamentos e retornamos a falar com a vidente Sara, tudo fica mais nítido, e a jornada começa a ganhar sentido. Em poucas palavras, ela explicará um pouco sobre o reino de Ys e a existência de 6 livros desaparecidos na escuridão que devemos recuperar. Por fim, como um pequeno regalo, Sara vai nos revelar a localização do primeiro livro, do primeiro local que devemos visitar, e nos entregará um cristal… um cristal? Hmmm.

Sistema



O sistema de Ys não trará complicações aos aventureiros iniciantes: temos disponível um menu com 6 opções básicas, mas que suprem todas as necessidades do jogo:

  • Exit: se você não quiser apertar o botão 1 para sair do menu, pode sair pelo “Exit”, bom, pode até ser útil, vai que seu botão 1 não funciona mais… ok, é inútil mesmo.
  • Status: aqui temos uma tela com os atributos base do herói, seu nível (Level), seus pontos de vida (HP), sua força (STR), sua defesa (DEF), sua experiência (EXP) e a quantidade de dinheiro (GOLD). Logo abaixo, temos o nome de todos os equipamentos utilizados no momento.
  • Equipment: nesta tela podemos equipar e retirar os equipamentos que possuímos. São eles: Sword (Espada), Shield (Escudo), Armor (Armadura), Item e Ring (Anel).
  • Read Book: este submenu só terá utilidade quando for adquirido o primeiro dos 6 livros da profecia. Após isso, podemos lê-los e entender mais sobre a obscura história de Ys.
  • Load Data: é possível carregar um jogo que foi salvo em qualquer momento. Pode parecer básico, mas muitos jogos pecam por não ter essa simples mas imensamente útil opção.
  • Save Data: pode salvar um jogo. Aparentemente também simples, mas aqui é possível salvar no local que bem entendermos, sem a necessidade dos terríveis “pontos de save”.

Geralmente uma das coisas mais esperadas para se julgar um bom jogo de RPG, claro, são as batalhas, e quando este momento chega em Ys… bom, acho que muitos desistem por aí também. Basicamente, ignore os botões, temos que literalmente bater de encontro com os inimigos: se Adol for mais forte, matará, se for mais fraco, tomará. Porém, assim que levarmos umas boas surras, é possível entender que existe uma tática sutil para as batalhas, ou seja, dependendo do ângulo que esbarramos nos bonequinhos, temos uma margem diferente de sucesso. Desta forma, percebe-se que, desferir um golpe sorrateiro pelos cantos ou pelas costas é muito mais vantajoso do que simplesmente bater de frente. Resumo da história? Sejam covardes e ataquem pelas costas!

Falando nisso, uma pergunta aos veteranos do gênero: já perceberam a inevitável semelhança de Ys com Hydlide? Pois é, é fato declarado pela Falcom que o jogo da T&E Soft contribuiu com algumas ideias, principalmente com a invenção da famosa mecânica da barra de vida recarregável. O curioso é que, a principal fonte de inspiração de ambos os jogos (e até de The Legend of Zelda) foi um jogo bem desconhecido por aqui: Dragon Slayer – jogo revolucionário desenvolvido pela própria Falcom, que deu origem ao gênero “Action RPG”. Em Ys, é nítido que outras características como o sistema de batalhas, menus, vendas, diálogos e até avatares, tiveram suas origens nos jogos da série Dragon Slayer, e não em Hydlide. Portanto, enquanto a Falcom “roubou” uma boa ideia da T&E, a mesma já havia feito o mesmo bem antes.

Análise técnica



Muito se compara sobre a diferença gráfica entre as várias adaptações de Ys lançadas para PCs e consoles, e gosto não se discute, não é mesmo? Mas na prática, a versão de Master System é a adaptação de console mais fiel à original do computador japonês da NEC, o PC-8801. Nas outras versões para consoles, como Ys I & II para PC Engine CD-ROM² (japonês)/Ys Book I & II para TurboGrafx-CD (americano), o Ys incluso na coletânea japonesa “Falcom Classics” para Sega Saturn, além do Ys I & II Eternal Story para PlayStation 2; decidiram por dar um retoque gráfico digno de seus hospedeiros. Também vale um adendo para a excêntrica versão de NES, onde descaracterizaram os gráficos de tal forma, que o jogo ficou bem mais parecido com o estilo visual da série Final Fantasy. No geral, para o potencial gráfico do console, Ys pode não ser considerado o pináculo do aparelhinho, mas a seleção de cores e o nível de detalhe dos avatares são caprichados e superiores ao título original de PC-88, lançado 1 ano antes.

Quanto à experiência sonora, só tenho duas palavras para descrevê-la: Yuzo Koshiro. Hoje, entendedores entenderão, mas na época, a primeira vez que vi o nome desse cara foi nos créditos do jogo. Koshiro compôs quase toda a trilha sonora, com exceção das músicas “Fountain of Love”, de Mieko Ishikawa, e “Temple del Sol”, de Takahito Abe. Na versão de Master System, as músicas foram arranjadas pela competente equipe “Falcom Sound Team J.D.K.”. As músicas de Ys, sem exageros, são absolutamente épicas, com um nível de maturidade técnica e emocional bem à frente de seu tempo. Algumas das minhas prediletas, como “Feena” e “Fountain of Love”, são músicas tenras e que ficam gravadas na memória; já “First Step Toward Wars” e “Palace of Destruction” são músicas tipicamente heróicas; temos também as músicas de chefes, que sempre foram o ponto forte de Koshiro, como as enérgicas “Holders of Power” e “Final Battle”; e tenho certeza que vocês não esquecerão quando Reah tocar sua harmônica, com a belíssima “Temple del Sol”. Rapaz, é tão difícil descrever um clássico musical em palavras, então só posso fazer um apelo: ouçam essa obra-prima sem moderação, faz bem para os ouvidos.

O enredo? Posso dizer que originalidade é a palavra, afinal, Ys foi o pioneiro dos RPGs que focam na narrativa. O fato de desvendarmos a história ao longo dos eventos do jogo torna tudo mais instigante. Muitos fatos são deixados encobertos e exigem imaginação, já que os segredos estão por toda parte e exploram a sede por aventura. Eu costumo comparar jogos com enredos interessantes a bons livros, onde não conseguimos parar sem ler a próxima página, e com Ys é assim, cada novo passo da aventura terá boas surpresas. Claro, confesso que clichês existem, mas todos são perdoáveis se analisarmos o contexto e idade do jogo, portanto, acredito que um possível preconceito seria equivocado.

Epílogo



É fato que os labirintos de Ys são um tanto quanto desafiadores. Aos não adeptos de guias como quem vos fala, preparem-se para quebrar um pouco a cabeça, pois boa parte dos tesouros do jogo estão escondidos nas entranhas de cada local. Apesar dos labirintos não serem tão complexos como em Phantasy Star, segredos e passagens secretas são uma constante, e em algumas partes, acho que perdi os poucos fios de cabelo que tinha. No total, são 3 labirintos: O Palácio, que de tranquilo só tem a cara, já que na realidade esconde alguns segredos além do óbvio; a Mina Abandonada, completamente escura e abarrotada de perigos e tesouros; e por fim, a Torre dos Condenados, que ocupa metade do jogo com seus 25 andares repletos de quebra-cabeças e monstrengos. E aí, vai ser macho (ou fêmea) o suficiente?.

Apesar de nunca ter ostentando o mesmo patamar gráfico e a complexidade dos sistemas de RPGs dos quais rivalizou, se pararmos para analisar, realmente nunca foi o foco da Falcom, sendo que o joguinho tem muito mais profundidade do que meras aparências. Pessoalmente, minha paixão pelo 1° Ys é muito maior do que pelo 1° Phantasy Star (que atirem a primeira pedra), mas isso senhores, não pode ser discutido, pois tem caráter fortemente nostálgico. Com uma temática original, enredo digno de um livro e personagens bem elaborados, Ys é a a fina arte do RPG, daqueles que só podem ser apreciados por jogadores que não se retém a um olhar superficial, e tenho dito.

Curiosidades



  • Esta é para os cinéfilos: a primeira vez que você viu Goban Tovah, o líder da guilda dos ladrões, não teve a ligeira impressão de que já o viu antes? Clique aqui e tire suas conclusões.
  • Ys para Master System foi a 2° versão para um console, lançada poucos meses após a versão de NES, porém, foi o 7° relançamento do jogo desde a sua primeira aparição no PC-8801. Todos esses relançamentos ocorreram no curto período entre 1987 a 1988. Haja trabalho, não?
  • O título da versão original japonesa foi grafado como “Ys”, mas por um erro de interpretação típico da época, um apóstrofo desnecessário foi inserido nas conversões. Com isso, as caixas e manuais das versões ocidentais contém a grafia “Y’s”, inclusive na versão da Tec Toy.
  • A versão de Master System é a primeira tradução em inglês do jogo, por isso, muitos nomes de personagens, locais e itens foram traduzidos de forma diferente do que vemos nas versões atuais. Por exemplo, no SMS temos nomes como Aron (Adol), Jeba Tova (Jevah Tovah), Luther Jema (Luther Gema), Dulk Dekt (Dark Fact), e locais como Zepik Village (Zeptic Village), Palace (Shrine) e Tower of the Doomed (Darm Tower).
  • Se você achou bem familiar a música tocada por Reah“Temple Del Sol” – existe muita chance de não ser um ledo engano. Originalmente composta por Takahito Abe, trata-se da música-tema de outro jogo da Falcom, um adventure chamado “Asteka II: Templo del Sol”, lançado em 1986 para o PC-88. No entanto, já em meados de 1991, o jogo também teve sua versão em inglês para o NES, que foi rebatizada como “Tombs & Treasure”.
  • Ys foi um dos títulos compatíveis com o famoso add-on do Sega Mark III, o FM Sound Unit. Inicialmente vendido separadamente e depois embutido de fábrica somente no Master System japonês, este módulo adicionava 9 canais de som monofônico ao aparelho. No caso de Ys, este hardware foi bem aproveitado, tornando as músicas vastamente superiores.
  • Em 2009, um romhacker do grupo SSTranslations lançou um patch que habilita a emulação do jogo ocidental com a trilha sonora do módulo FM. Em adição, este patch também altera os nomes de personagens e locais para suas versões originais, além de modificar a grafia dos mesmos de acordo com a gramática correta, ou seja, somente a inicial maiúscula. Obs.: o patch deve ser aplicado na ROM de versão “US/EURO (UE)”.

Isso é tudo por hoje, caros amigos. Até a próxima!

Fim


Sobre Sir Kao - Ex Membro

Veterano da Terceira Guerra Mundial de Consoles, enlouqueceu e passou a viver recluso em um abrigo subterrâneo, de onde faz análises de RPGs remotos utilizados em treinamentos militares.
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