RetroReview: Radiant Historia – NDS


Saudações, retrojogadores! Como nem só de plataforma e beat ‘em up vive o homem, fui convocado pelo Sabat pra trazer um pouco de RPG pro Retroplayers. Não só games antigos, mas também RPGs que tenham uma “pegada retrô”, como este que voz trago nesta minha primeira aparição na nova casa. Pra quem não me conhece, sou o fundador do Bitando, blog que agora jaz em descanso indeterminado e provavelmente eterno, e agora estarei por aqui detonando alguns dos nossos queridos Role Playing Games.

Pois bem, o que faz de um jogo um retrogame? Logicamente a idade dele é a primeira coisa que nos vêm à cabeça, mas muito mais importante do que isso é o “espírito”, a identidade, e esse conceito complicado de definir, mas fácil de perceber, vale muito mais do que saber de quando é o jogo ou para que console ele foi lançado pra quem busca uma experiência próxima da dos games de antigamente, ou de alguma forma inspirada neles.

Acorrentados pelas limitações técnicas, muitos desenvolvedores fizeram verdadeiros milagres usando a criatividade; milagres como contar sagas “cinematográficas” e cheias de diálogos em cartuchos de videogame com espaço e tecnologia mirrados. E é por isso que eu amo RPGs; eles nos proporcionam uma centena de horas acompanhando uma jornada e se apegando aos personagens enquanto acompanhamos a evolução – matematicamente e narrativamente falando – deles, mesmo com suas limitações – limitações que se transformaram em fórmula e charme dos RPGs.

Talvez por suas incapacidades de hardware, o Nintendo DS é dono de uma maravilhosa galeria de jogos que, acidental ou propositalmente, tem uma atmosfera retrô, um oásis para quem gosta de adventures, jogos de plataforma, puzzle, e RPG.

Radiant Historia é um destes “novos retrôs”. Como o próprio gerente de vendas e relações públicas da ATLUS nos EUA, Aram Jabbari, comentou antes do lançamento, Radiant Historia é “o tipo de experiência de jogo que é mesmo uma máquina do tempo em si, transportando os jogadores de volta para a era dos 16-bits, a era de ouro dos RPGs”. O nome e a temática do jogo não são à toa, RH é um jogo sobre o tempo, dentro e fora de si.

Um RPG tradicional, uma homenagem aos clássicos do gênero em estética e em fórmula e sistema de jogo, Radiant Historia é mais uma soma à gorda biblioteca de RPGs “tradicionais” do Nintendo DS, um acervo bem servido de jogos para quem acha que RPG que se preze tem que ter batalhas de turnos, jornadas épicas, caixas e caixas de menus e diálogos, e uma duração de jogo de no mínimo 20 horas.

O enredo se passa no continente desertificado de Vanqueur, onde os reinos de Alistel e Granorg batalham pela supremacia e pelo pouco território fértil que resta; além disso, o líder máximo e messias de Alistel, Noah (o nome cristão não é á toa), intercedido pelo suspeito General Hugo, prega uma espécie de guerra santa contra a outra nação. Além de conflitos entre os exércitos, a guerra se desenrola com espionagem e sabotagem, e o principal agente secreto de Alistel é Stocke, um prodigioso espadachim com olhos frios e temperamento pragmático. Antes de uma importante missão, Stocke recebe um misterioso livro com páginas em branco chamado White Chronicle do chefe da Inteligência, Heiss. Durante a missão, os companheiros de Stocke são mortos e ele é gravemente ferido, mas é transportado para um local chamado Historia dentro do livro. Em Historia, uma espécie de escadaria temporal, duas figuras chamadas Teo e Lippti o recepcionam e informam que o livro confere a Stocke o poder de viajar no tempo para pontos chaves chamados de nodos. Stocke também fica sabendo que um irrefreável processo que transformará o mundo todo em areia já está em marcha e que ele, por um motivo ainda desconhecido, é o único que pode impedir isso.

A partir daí cada evento importante da história se torna um nodo, e cada momento de alguma forma decisivo se torna um ponto viajável. O mais interessante é que um evento crucial na trama divide a linha do tempo em duas: em uma delas Stocke continua trabalhando como agente secreto, na outra ele ingressa no exército (“História verdadeira” e “História alternativa”), e eventos importantes de uma linha do tempo influenciam na outra. Com o decorrer da história você precisa viajar entre as duas linhas do tempo, e as ramificações geradas por suas diferentes decisões, para chegar a um final feliz para o mundo, o verdadeiro final.

A trama e a ambientação não fogem do padrão de JRPGs: cenário de fantasia medieval com espadas e magias coexistindo, guerra entre nações ou raças opostas – argumento usado à exaustão no gênero – e design de personagens estilo anime; porém, de genérico Radiant Historia não tem nada. A premissa simples surpreende com muitas reviravoltas (com poucas horas de jogo já não dá mais pra contar nos dedos de uma mão quantos plot twists rolaram) e personagens sólidos, que fogem do clichê: Stocke é superconfiante, mas não carrega a imaturidade ou rudeza da maioria dos protagonistas – e a sua evolução emocional demonstra o cuidado que tiveram na criação dos personagens –; Rosche é um guerreiro imenso, capitão do exército, mas além de forte e racional também é emotivo, amigo, e tem seus momentos de fraqueza e crise; a angelical princesa Eruca de frágil não tem nada,  quebramos a cara ao ver que ela usa um rifle ao invés de um cetro e magias brancas de cura.

A competente localização americana do jogo adaptou bem o jargão militar e, de modo geral, o vocabulário rico usado nos diálogos, que estão longe de serem poucos mas que pela inteligência não se tornam enfadonhos.

Radiant Historia também se destaca pelo sistema de batalha, unindo o tradicional esquema por turnos – onde a ordem das ações é determinada pela velocidade dos participantes, em uma linha de tempo parecida com a implementada em Final Fantasy X – a um original método de movimentar os inimigos dentro de uma zona formada por nove quadrados. Seu grupo não se movimenta, mas os inimigos podem chegar mais perto de você (o que lhes causará mais dano, mas também fará com que eles causem mais dano) ou se distanciarem (causando efeito contrário); você pode ainda com golpes e magias, empurrar ou puxar os inimigos de um quadradinho para outro, fazendo combos e acertando vários inimigos de uma só vez. Esse recurso adiciona mais estratégia à batalha, e a administração do uso dos turnos e de golpes que movimentam o inimigo se provam decisivos em certos momentos, considerando que RH possui alguns chefes bem difíceis.

Outra característica simples mas que soma ao interessante sistema de batalha são as chains, uma contagem numérica que cresce à medida que vários personagens atacam em sequência. O poder e o tipo de ataque influenciam em quantos números a corrente aumenta. Ao fim de cada combate, além da quantidade de experiência merecida pelo grupo por conta de cada inimigo derrotado, o jogo lhe presenteia com um bônus de acordo com a magnitude das chains alcançadas em batalha.

A parte gráfica evoca à lembrança RPGs de SNES e PSX, lembrando bastante jogos como Breath of Fire IV com personagens em sprites 2D e cenários em 3D. A simplicidade dos sprites é auxiliada nos diálogos por belíssimas artes estáticas dos personagens que aparecem junto com as caixas de texto. As animações dentro e fora das batalhas são bem reduzidas, apesar de oportunidades não faltarem; e essa escolha pela simplicidade parece proposital. Mas se há muita simplicidade nas animações dos sprites não se pode dizer o mesmo da grandiloquente trilha sonora. Assinada pela mestra Yoko Shimomura – que tem no currículo Street Fighter II, Super Mario RPG, Legend of Mana, Parasite Eve e Kingdom Hearts, só pra citar alguns exemplos – a trilha sonora de Radiant Historia é verdadeiramente épica, cheia de faixas melancólicas e imersivas guiadas por violinos, tambores e instrumentos de sopro. É uma trilha poderosa que necessita ser ouvida a pleno volume com fones de ouvido, já que o fraco som do portátil não transmite com potência o brilho das músicas. Talvez sabendo que a trilha de RH é gigântica demais para ser reproduzida em um portátil franzino, quem compra o jogo leva um CD com a trilha sonora completa, composta por 25 músicas.

Apesar da trilha executada de maneira “moderna” e dos ambientes 3D, Radiant Historia continua transparecendo uma aura retrô, não lhe falta o espírito de um clássico. Retrô e ao mesmo tempo original, sabendo casar o que um jogador “tradicional” de RPG quer ver em um jogo com várias novidades criativas e muito bem-vindas – como o uso OPCIONAL da stylus na tela de toque, o sistema em “diagrama” de viagem do tempo, etc.

Além do mais, para os RPGistas hardcore, boas notícias: apesar de ser um game de portátil, RH exige no mínimo de 25 a 30 horas pra ser terminado, isso sem considerar as sidequests e o fato de o jogo ter múltiplos finais – como seu “primo mais velho e mais famoso” Chrono Trigger –, que devem dar ao jogo uma duração total de 35-40 horas de jogo.

Não há dúvidas de que na geração atual o Nintendo DS é o sistema certo para os jogadores amantes de RPGs mais ortodoxos; e, dentre as centenas de opções, Radiant Historia se destaca pela fusão de tradição e originalidade. Um jogo que com certeza ficará gravado fundo na lembrança daqueles que se aventurarem pelas linhas temporais de Historia, e por que não, na  história do Nintendo DS e de seus RPGs clássicos.

Obrigado a todos!

Fim


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  • Anônimo

    Bem vindo à equipe! não li ainda, mas irei ler! hehehehe

    • Filipi Cloud

      Valeu pelas boas vindas!

  • Bem vindo à equipe! não li ainda, mas irei ler! hehehehe [2]
    vou ler daqui a pouco e vou fazer comentário construtivo hehe’

    • Filipi Cloud

      Obrigado pelas boas vindas 🙂

  • Bem vindo à equipe! não li ainda, mas irei ler! hehehehe [3]Não sou da equipe, mas to sempre aqui lendo tudo, rsrs

  • Bem vindo à equipe! não li ainda, mas irei ler! hehehehe [4]
    vou ler daqui a pouco e vou fazer comentário construtivo 
    KKKK jaja comento! Esse aí ainda nao joguei, como ja falei, andei passando longe dos rpgs japas.

    Bem vindo (de novo) cara!

  • Seja bem bem vindo xD
    Me pareceu ser um ótimo jogo e com certeza vai pra lista de RPGs á serem jogados.
    Incrível a quantidade de jogos nesse estilo RPG “clássico”(batalhas por turno, converseiro quase sem fim e etc)que há tanto no PSP quanto no DS, fora os que nunca serão lançados fora do Japão.
    Bom post, já começou bem a sua carreira!

    • Filipi Cloud

      Obrigado! Sem dúvidas é um ótimo jogo, enredo muito bom e músicas majestosas nessa roupagem de RPG “era 16 bits”. O PSP e o DS são realmente os videogames pra quem gosta do estilo, James, uma vez que os consoles de mesa atuais parecem não aceitar muito bem o gênero.

  • Ótimo post! gostei da história e sou fã da compositora da trilha sonora, esse jogo com certeza  vai pra lista dos rpgs que devem ser jogados nessa vida! 

    • Filipi Cloud

      Ah, a Yoko Shimomura é diva. Minha “deusa” musical! Pois pode pôr na lista que não se arrependerá 🙂

  • Agora sim posso comentar, já li tudo o/
    Pô, show de post hein, muito bom mesmo, começou com o pé direito. Já deixei marcado esse para testar.
    Abração!

  • Acabei de ler também.
    Parece ser um jogão.. mas ultimamente não tenho tido mais gosto ´pelos jrpgs com raras(MUITO RARAS) exceções.Só os antigoes que tenho boas lembranças. No ds é única plataforma qual ainda dou chance ao estilo. No momento estou com Disgaea graças a indicação de um amigo, e o que tá me segurando nele é o EXCELENTE texto. TALVEZ de uma chance ao radiant…mas duvido.. perto do lançamento de SKYRIM, minha vida gamer vai se resumir a ele por um bom tempo, kkkkk.
    Excelente texto, e salvo gostos pessoais, excelente  game!

    • Filipi Cloud

      Pois é Nigaz, parece que muita gente já ‘saturou’ desses jogos, e acho que todo mundo tem sua fase de aversão a RPGs de turnos, hehehe, mas eu garanto que é um jogaço, independente de qualquer coisa, pra quem curte uma boa história. Sobre Disgaea, é muito engraçado, e o estilo de jogo é massa também, é uma série muito boa — digo isso sem ter terminado nenhum mas já tendo jogado um pouco.

      • Leonardo Soler

        Eu estou aberto para muitos e muitos RPG’s HAhaha manolada é só indicar que eu to jogando… =D

  • Kleber

    Me parece ser bom esse jogo viu ja tinha ouvido falar dele em outro blog que acessava, mas lendo o enredo me cativou muito e também a trilha feita pela Yoko deve ser fantastica viu e parabens por se juntar a equipe Filipi .Vou dar uma olhada la no seu blog cara blz .

    • Filipi Cloud

      O enredo e a trilha são magníficos, com certeza Kleber. Obrigado pelo comentário!

  • Leonardo Soler

    Pronto depois de 1 milhão de anos hehhehe’ vou comentar..

    Então cara eu tenho curtido muitos RPG’s do Ds… ele está trazendo de volta o lance do 16 bits… Trazendo de volta à vida dos RPG “clássicos” e pelo que pude perceber esse daí entra para o grupo… Eu queria explorar este lance de tempos diferentes (linha temporal) mas não tenho um Ds então quem sabe um dia?? hheeheheh Muito bom esse Review =D

    Obs:. O Sabat!! Esse seu estagiário não é tão estagiário assim não mano!! Aquele blog bitando é mó dá hora!! eu já havia entrado nele antes, mas não esperava que ele acabass.. ainda tinha um pingo de esperança heheh’ mas aqui você ele está escrevendo pra tú… fez uma ótima escolha em meu caro..

    E Seja Bem-Vindo ao Retroplayers =D

    • Filipi Cloud

      Que bom, alguém que também gosta de RPGs clássicos! Hehehe, o DS é um dos melhores consoles atuais pra mim por isso, os outros pecam um pouco na falta de opções do gênero. Esse lance das linhas do tempo diferente é a grande sacada de RH. Certifique-se de jogá-lo assim que conseguir um DS! Haha.

      Respondendo sobre o Bitando, uma pena que teve de acabar. Eu também não queria isso, mas acho inviável manter um blog sozinho, e o resto da equipe agora está com problemas ou ocupada demais pra poder ajudar, então preferi entrar como colaborador aqui. Valeu pelas boas vindas! 🙂

      • Heheh sei como é meu amigo… To levando o meu blog a 1 ano nas costas sozinhos… sendo que ele só foi ganhar um “destaque” agora no inicio desse ano… Escrever em 3 blog’s e ter um só seu é bem complicado… mas não deixa de ser prazeroso =D  

        E viva aos RPG’s Clássicos! HEHEHHEHE (principalmente o FFVI xD)

  • Caralho, jogo muito massa Cloud, fiquei com vontade de abster algumas horas de Kingdom Hearts 2 e Pokémon White pra jogá-lo em minhas férias. O gráfico e demais aspectos do jogo me lembraram um game de Tactics que adoro, o Fire Emblem, por mais esse motivo fiquei mais interessado. RPGs e Tactics são sempre bons nas férias.

    A resenha ficou muito boa, me bateu até saudades do nosso velho, e tmb retrô, blog Bitando. Pena que estou sem internet fixa para continuar atuando na blogsfera gamer, até mesmo pra comentar e ler artigos – principalmente aqui do Retroplayers, viu Sabat? =P

    Bom, só espero que sempre tenha pessoas competentes como vocês para manter vivo o espírito gamer tão valioso para nós.

  • Anônimo

    Só errou no começo, Noah, Hugo, Stocke etc são de Alistel, não Granorg!
    Ainda não fechei, quantas horas tem?
    Única coisa que tenho pra reclamar é falta de variedade de inimigos e lutas repetitivas e o visual simples das cutscenes, DS pode mais sim – os personagens só tem uma “foto” pro jogo todo, nunca mudam de expressão.

    • Filipi Cloud

      Valeu pelo toque, eu me confundi na hora de escrever! E bom, eu o terminei com umas 40 horas de jogo porque fiz as sidequests quase todas, acho que leva mais ou menos este tempo para terminá-lo se fores atrás de completar os nodos de Historia, sem fazer as missões opcionais e tudo mais deve levar umas 30 horas, pouco mais do que a média de jogos do NDS.

      Sobre o visual, sim, ele poderia ser muito melhor, mas como eu disse, acho que foi feito deliberadamente mais simples do que poderia para remeter aos RPGs de SNES e Mega — é só ver o Golden Sun Dark Dawn, por exemplo, e ver a capacidade gráfica do DS.

      Ah, sobre outras imagens pra acompanhar os diálogos, também senti falta de outras expressões, mas o texto é tão bom que acabei nem ligando pra isso em certo ponto do jogo, mas bem lembrado!