RetroReview: Illusion of Gaia


Uma breve introdução (podem pular):

Pessoal, antes de partir para o molho quente, fui ameaçado instruído pelo chefão da casa a fazer uma pequena introdução falando sobre mim mesmo, e como sou muito sem graça, não vai ter muito o que falar.

Talvez a maioria não se lembre, mas nos idos de 2009 até 2011, eu tinha um blog chamado Retro Fantasy, o qual criei com o intuito de falar exclusivamente sobre RPGs de videogames e PCs antigos; e olha, até que deu certo! Ele fez um sucesso razoável na época, e a amizade com o Sabat foi um dos frutos disso.

Andava há muito tempo parado, mas foi em uma das conversas que tive com esse cara que decidi voltar. Devo dizer que estou meio enferrujado e tenho medo de falhar novamente, mas eu acho melhor arriscar do que ficar criando suposições. É isso pessoal, agradeço a todos por poder roubar este espacinho, e estou aberto a críticas e sugestões… Só não me peçam para jogar futebol!

Meus amigos retroaventureiros (logo acostumo com isso). Gostaria de começar esta humilde análise com uma recordação que tenho com este grande jogo.

Como boa parte da pivetada de minha época (anos 80/90), o primeiro contato com um jogo era feito através das saudosas vídeo locadoras; e não foi diferente comigo. Ok, como eu já era um garotinho obcecado por RPGs desde aquelas décadas, e ao entrar na locadora, pegar a caixa e ver aquelas telinhas com visão aérea e personagens cabeçudos, meus olhos brilharam! Levei e joguei exaustivamente, prometendo a mim mesmo que venceria aquele jogo antes do prazo de devolução, já que se não fizesse isso teria duas opções: devolver e perder meu save, ou pagar multa e ganhar umas chineladas.

Foi então que naquele domingo fatídico, perto de finalizar epicamente o jogo, o melhor que podia acontecer na minha vida aconteceu: ganhei na loteria… só que não. Houve um apagão que durou quase 2 dias, e nesse tempo eu ficava olhando para a parede, sem acreditar na minha sorte, só sabendo que teria que devolver o jogo no dia seguinte, me arrastando até a locadora com a derrota estampada na face. A boa noticia foi que me deram mais um dia devido ao apagão. Vitória! Joguei fervorosamente e consegui finalizar, sem guias, sem truques, sem água e sem comida — só para adicionar um drama. Devolvi o cartucho com um sorrisão e um gostinho de dever cumprido.

Como este relato pessoal foi um dos momentos mais épicos da minha vida gamer, Illusion of Gaia também foi o primeiro review do meu falecido blog; e para não quebrar a tradição, vou recomeçar com ele. Bom, chega de papo furado, espero que vocês gostem. =)

Prólogo:


“Segundo jogo da cultuada trilogia da Quintet, Illusion of Gaia, assim como seu antecessor, mesclou muita ação com elementos de RPG, fazendo jus à marca registrada da série: a Terra, ou como antigamente conhecida, Gaia.”

Houve em certa civilização longínqua, tamanha revolução em conhecimento científico que tornou-se possível manipular e criar novas formas de existência, melhorando assim a vida na Terra. Porém, alguns indivíduos, movidos pela ganância e sede de destruição, utilizaram esse conhecimento para criar bestas de guerra com inteligência e poderes inimagináveis, sem calcular a consequência de tais atos.

Eventualmente, esses sábios perderam o controle de seus experimentos, e os monstros começaram a aterrorizar não apenas sua civilização criadora, mas todas as demais. Nessa guerra ancestral, duas forças lutaram até o fim: os cavaleiros da luz e da escuridão. Mas uma poderosa arma decidiu o fim da guerra: um cometa misterioso colidiu com a Terra, matando todas as pessoas e animais, para então recriá-las como novas figuras monstruosas.

Sabe-se que a cada 800 anos esse lendário cometa retorna, todas as vezes destruindo uma poderosa civilização sucumbida pela sua sede de poder. Desta forma, cada era conhecerá a ascensão e queda de um império, desde os egípcios e babilônios, até os incas e futuras civilizações. Muitas lendas passaram de geração em geração, mas só há uma certeza: de que o cometa retornará, e com ele, o fim de uma era.

 

 

O início da jornada:


O ponto de partida da aventura acontece na pacífica cidade de South Cape, em uma época de grande prosperidade. Entramos na pele de Will, um garoto incomum, filho de Olman, um respeitado líder de uma guilda de aventureiros.

Em certa ocasião, Will aventurou-se ao lado de seu pai, partindo de South Town rumo à mítica Torre de Babel, no afã de desvendarem seus segredos. Infelizmente a expedição se perdeu, sendo Will seu único sobrevivente, que, desprovido de memória sobre o ocorrido, retornou com enigmáticos poderes psíquicos — cuja origem ele desconhece.

Logo que começamos a jogar Illusion of Gaia, percebemos uma semelhança inevitável com o estilo e jogabilidade da série The Legend of Zelda. Porém, aos poucos uma linha de separação vai se delineando entre os jogos, pois enquanto o segundo título propõe uma aventura mais aberta, o primeiro apresenta um roteiro mais linear, mesclando elementos de ação com RPG.

  

Começamos o jogo em uma sala de aula, dentro de uma igreja. O sino toca, e após alguns conselhos do padre mentor, é possível explorar a pequena e pacífica cidade de South Cape. Logo de início, subindo no telhado da igreja, encontramos uma porta dimensional que nos teleporta ao soberano e onipresente Gaia, que sem enrolação revela que Will é “O escolhido”, cujo destino não é ainda totalmente claro.

Logo algumas pistas começam a aparecer, e Will acaba encontrando com alguns de seus amigos — Lance, Seth e Erik — em um lugar que eles denominam de “o esconderijo”. Até então, não havia uma motivação clara sobre o destino dos quatro; pelo menos não até o aparecimento da princesa fugitiva Kara. Pois é, já sabemos o que acontece quando tentamos resgatar donzelas fugitivas: cadeia! E assim começa nossa aventura.

As transformações:


Opa, então vamos ao destaque de Illusion of Gaia: as transformações. Toda vez que nos depararmos com um portal dimensional, Gaia estará nos esperando. Com seus poderes é possível salvar nosso progresso no jogo, restaurar o herói, e o melhor: metamorfosear! Eis as formas possíveis:

Will: garotinho com poderes telecinéticos cuja arma é uma flauta… sim, uma flauta, qual o problema? Apesar de ser a arma mais fraca e de curto alcance, com ela será possível executar as melodias secretas para solucionar quebra-cabeças. Will também possui o maior quadro de habilidades do jogo.

Freedan: o cavaleiro negro. Na minha opinião, é o mais legal, mais forte, tem uma espada bastarda de longo alcance, magias devastadoras, uma capa esvoaçante e longos cabelos dourados que dariam inveja até no Legolas. Resumindo, os momentos mais épicos da jornada ficam por conta deste cara.

Shadow: a sombra antropomórfica. Não muito carismático, aparece somente nos momentos finais do jogo. Com ele é possível liquidificar-se e atingir os locais mais remotos. No entanto, apesar de ser o mais poderoso dos três personagens jogáveis, particularmente, sua limitação de habilidades não torna-o tão cativante.

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Análise técnica:


O sistema do jogo é simples, e logo nos primeiros passos da aventura é possível dominá-lo com tranquilidade. Na tela principal, temos indicadores como o medidor de energia, a quantidade de Corações (Renew) e de Dark Gems, que quando coletadas na quantidade de 100, somos presenteados com um novo Renew. Também contamos com a Tela de Radar, muito útil ao longo da jornada, onde é possível visualizar o número de inimigos e itens na sala, além da posição de cada um deles; e o mais importante, o Indicador de Força, em que sabemos se restou alguma Power Jewel. Como funciona isso? Bom, quando derrotamos todos os inimigos de uma sala, ganhamos uma Power Jewel, ela aumentará algum atributo do status: se for um coração, aumentará nossa Vida (HP), um escudo, nossa Defesa (DEF), já uma espada, nossa Força (STR). Na tela de Itens, podem-se ver todos os artefatos coletados, dos quais podemos carregar até o limite de 16, além de equipá-los, ordená-los e removê-los. Por fim, temos o menu de Condições, no qual podemos ver o status atual e todas as habilidades adquiridas.

  

A trilha sonora é bem composta, com um ar de cinema clássico, fazendo bom uso dos recursos de áudio do Super Nintendo. Bons exemplos são as excelentes músicas de South Cape, Itory Village, Larai Cliff e Sky Garden, que ainda hoje dão replay na minha playlist mental. De modo a torná-la singular, boa parte da trilha é carregada de sentimentalismo e melancolia; fato que harmoniza muito bem com os eventos dramáticos do jogo. O maior problema mesmo fica por conta do curto repertório, já que várias cidades e calabouços possuem a mesma música.

Visualmente falando, Illusion of Gaia possui gráficos relativamente bons para a época, com texturas bem coloridas, sprites e cenários grandes, boas animações; mas nenhum efeito descomunal, afinal, era um jogo de 16 Mega sem recursos avançados de chips de aprimoramento. No mapa, temos um efeito básico do famigerado Mode 7, mas não vai além disso. Eu acredito que contrapondo com jogos da mesma época, ele cumpre bem o seu papel.

Enredo:


A parte bem interessante está na quantidade de referências históricas, míticas e bíblicas espalhadas por todo o jogo. Só para citar algumas, temos as ruínas Incas; as Linhas de Nazca; os Jardins Suspensos da Babilônia; o continente perdido de Mu; a Muralha da China; o templo de Angkor Wat; as pirâmides do Egito e a Torre de Babel. Prestando atenção em cada cenário do jogo — e conhecendo um pouquinho de história –, é possível identificar todas estas referências facilmente.

Um fator diferencial que me fascina até hoje em Illusion of Gaia — destacando-o dos jogos de console de sua época — é a sua abordagem madura. Ao longo da jornada, podemos presenciar momentos carregados de dramaticidade e tragédia, tocando em assuntos de moralidade, fome, morte e até mesmo suicídio. Pessoalmente, considero estes elementos extremamente aditivos no contexto do jogo. Posso dizer que realmente me marcaram na época, e apesar de hoje saber que o jogo foi censurado no lançamento ocidental, ainda me surpreende o fato de terem relevado estes trechos.

   

Como nem tudo são flores, a parte pecaminosa está na duração dos eventos e do jogo em si, pois apesar da temática ser caprichada, acredito que vários assuntos tratados na jornada poderiam ser expandidos. Com isto, um dos pontos mais prejudicados são os próprios personagens, que não são explorados devidamente e acabam tornando-se superficiais na trama geral, o que é realmente uma pena para um jogo com tanto potencial.

Epílogo:


Bom, logicamente as influências da série The Legend of Zelda estão por toda parte, concordam? Mesmo assim, com uma jogabilidade suave, dinâmica e descomplicada, Illusion of Gaia mantém sua postura e consegue proporcionar novos desafios, não sendo um jogo difícil, muito menos entediante. A simplicidade, como a ausência de um arsenal bélico e customizações, é compensada pelas transformações e habilidades.

As referências históricas e a temática adulta também considero pontos marcantes, valorizando imensamente o gameplay. Apesar de acreditar que alguns deslizes no enredo acabam sendo determinantes para tirar de foco várias questões interessantes do jogo. Rapaz, será que com a idade estou ficando muito exigente?

  

No geral, Illusion of Gaia vale muito a pena ser jogado sem compromisso, pois apesar de possuir elementos de RPG, não se apresenta como um jogo longo e árduo, podendo ser considerado até um RPG casual. Já ouvi alguns comentários preconceituosos sobre ele, mas o que posso dizer? Bom, realmente não podemos considerá-lo um clássico da nata, mas sim um jogo divertido para começar e vencer sem problemas, altamente recomendando para jogadores fortuitos, que não querem aprofundar-se em um sistema intrincado, com dias e dias de gameplay. Inicialmente pode parecer pouco original, mas garanto: joguem um pouco mais e terão boas horas de diversão e pouca preocupação. Aos que ainda vão se aventurar, boa sorte para coletar todas as Red Jewels.

Curiosidades:


  • Em Diamond Coast, é possível encontrar um cãozinho chamado Turbo. Para quem não sabe ou não lembra, era o cãozinho de estimação de Lisa em Soul Blazer (1º jogo da trilogia), e o fundador da cidade de Greenwood.
  • Existe um estágio secreto no jogo, no qual podemos enfrentar um chefe de Soul Blazer. Como chegar lá? Segredo!
  • O jogo foi lançado na Europa com traduções oficiais em alemão, espanhol e francês — além do inglês. As versões europeias levaram o nome de Illusion of Time.
  • Nos EUA, a Nintendo promoveu uma versão limitada do jogo, que continha uma camiseta temática. Na frente, tinha estampada o logo de Illusion of Gaia, assim como a capa americana; atrás, os personagens Freedan e Shadow, como a capa original japonesa.
  • Moto Hagio, japonesa considerada a mãe do mangá shoujo moderno (mangás voltados para o público feminino), foi contratada pela Quintet para fazer o desenho dos personagens do jogo. Seus traços também podem ser conferidos na versão japonesa do manual de instruções.
  • A história original foi escrita por Mariko Ohara, uma célebre escritora de ficção científica no Japão. Motivo pelo qual o jogo possui um enredo de alta qualidade e maturidade.
  • Para adequar o jogo à política de censura e localização da Nintendo of America, foram modificados vários textos e alguns gráficos, como referências religiosas em diálogos e imagens (como a cruz cristã). Também houve censura em um trecho notável em que ocorre um evento de canibalismo. Contudo, alguns diálogos foram modificados sem motivo claro.
  • Em 2006, a revista Nintendo Power avaliou Illusion of Gaia na 186ª posição da lista dos 200 melhores jogos lançados para consoles da Nintendo. É possível conferir a lista completa no seguinte link: Nintendo Power’s Top 200 Games

Fim


Sobre Sir Kao - Ex Membro

Veterano da Terceira Guerra Mundial de Consoles, enlouqueceu e passou a viver recluso em um abrigo subterrâneo, de onde faz análises de RPGs remotos utilizados em treinamentos militares.
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