RetroReview: Gargoyle’s Quest

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Ah, minhas crianças! Saudades de escrever algo novo, mesmo que sucinto. O que trago desta vez é um texto breve e humilde, mas feito com grande entusiasmo — assim como o jogo que é tema do próprio.

Fogo na palma da mão



Não sei exatamente em que momento, mas tempos atrás, tomei um belo soco consumista: cogitei comprar um videogame novo. Na minha indecisão tremenda, revisitei minha lista de desejos, no que vejo tantos títulos que gostaria de jogar dando as caras no 3DS, ao invés dos tradicionais consoles de mesa. Pensei em também me tornar um afortunado dono do último portátil da Nintendo… Então que o desejo teve que ser sacrificado novamente, para ser colocado em uma fila de prioridades da vida adulta (você já passou dos 3.0? Éééé rapaz).

Fato é que minha paixão por portáteis já vem de looonge. Hoje, ainda tenho um GBA e um PSP (do qual me decepcionei por vários motivos); mas andava com aquela vontade de um flashback nesse maravilhoso mundinho — nanico em tamanho, imenso em espírito. Foi então que relembrei o começo de tudo isso, com o mais que saudoso Game Boy clássico, e quando digo clássico, me refiro àquele adorável tijolo cinza com tela verde musgo, quanta glória!

Um jogo muito querido da época em que me fascinei por este aparelhinho, foi o notável Gargoyle’s Quest. Fruto de uma série genial cujo fardo foi ter caído na semi-obscuridade, é considerado uma pérola cult do portátil do qual foi concebido. Lançado em 1990 pelas mãos da Capcom em toda a sua honra monocromática, Gargoyle’s Quest brotou em uma época em que os anti-heróis não eram tão populares, e RPGs para consoles ainda eram vistos com preconceito pelos olhos ocidentais. Poderia ser um tiro no escuro, mas estamos falando da Capcom.

A gárgula vermelha



Lembra da primeira aparição de um Red Arremer em Ghosts ‘n Goblins?

— “Como esqueceria daquele $%#&@ voador!!”

Acho que deu pra entender… Caso negativo, eram aquelas gárgulas vermelhas que te esperavam meditando pacientemente em vários pontos do jogo, quando começavam a voar aleatoriamente enquanto tentavam te atingir com malditas bolas de fogo, até o momento que… ah, quantos controles foram despedaçados. Ora adivinhe, em Gargoyle’s Quest você está no controle de uma delas, mas não qualquer uma: estamos falando de Firebrand, o predestinado da Tribo Red Arremer, o único que ostenta o potencial de ser o lendário herói Red Blaze.

É chegada a hora de deixar suas frustrações de lado, entender que ele também tem um patrão e também precisa trabalhar duro meu filho, ou você pensa que é moleza viver no inferno?

Prólogo



“Título de estreia da Capcom no promissor aparelhinho da Nintendo. Gargoyle’s Quest fugiu da mesmice dos jogos lançados para portáteis até então. A fórmula? Ser ousado e combinar — de forma sutil —, elementos chave de títulos já consagrados.”

Eras passadas, o “amigável” Reino Ghoul foi invadido por uma força alienígena conhecida como Destruidores. Os Destruidores quase conseguiram capturar o Reino Ghoul, quando uma incrível chama desceu dos céus, aniquilando-os. O segredo desse fogo poderoso foi perdido através dos tempos, e os Destruidores retornaram para a retaliação. A única pista para a sobrevivência do Reino Ghoul, está na crença de que somente o herdeiro da “Gárgula Vermelha” poderá trazer novamente a chama mágica. Na pele de Firebrand, o guardião Gárgula do Reino, você deve descobrir se esta crença possui fundamento, e então trazer paz ao reino novamente.

O herói dentro do vilão



Eis que surge o morcegão do Batman, só que não: é a nossa Gárgula Vermelha, Firebrand ou Tição, no bom português. A partir de agora, é melhor deixar de lado todas as suas frustrações com Ghosts ‘n Goblins, ou nem comece a jogar meu amigo.

Já dentro da aventura, sem explicação nenhuma, você encontra-se numa sala em formato de cruz (opa, referência religiosa?). Ghouls correm em sua direção para lhe avisar que o Reino Ghoul está sendo invadido por uma poderosa força desconhecida, e que você deve retornar ao reino imediatamente, antes que o portão dimensional seja fechado. Bom, eu acho que contei três ghouls que falam algo e desaparecem, como se estivessem em seus últimos suspiros e morressem dramaticamente, nos braços de nosso herói Firebrand. Só é uma pena que tive que usar muito da minha imaginação para concluir isso, já que o prazo da Capcom devia ser muito curto para se aprofundar em melodramas.

Após a “ópera” da abertura, a visão aérea típica dos RPGs clássicos é bruscamente alternada para uma visão de perfil, assim como é de lei nos jogos da série Ghosts ‘n Goblins; e então a ação é cuspida violentamente em nossas caras desavisadas. Temos o primeiro contato com este mundinho paralelo, e puxa vida! Que gameplay: a gárgula pula, cospe bolas de fogo, agarra-se nas paredes e ainda consegue voar por um curto período de tempo. Neste ponto, você já começa a perceber que o joguinho tem potencial.

“Se você está atravessando o inferno… não pare.” — Winston Churchill



Em poucos minutos de jogo todas as impressões são carimbadas. Para os jogos de Game Boy de 1990, os gráficos são realmente caprichados e polidos; principalmente nas etapas de plataforma achei-os bem simpáticos, com belos cenários, sprites grandes e aquele típico estilo caricatural da Capcom; idem para as etapas de exploração estilo RPG, ainda mais contrapondo com Final Fantasy Legend (SaGa no Japão), lançado meses antes.

Já os efeitos sonoros — ai meus tímpanos —, chegam a ser um tanto irritantes, com alguns ruídos estridentes que me obrigaram a diminuir o volume; a salvação ficam com as músicas… uau, essas impressionam! São muito bem compostas e possuem uma dramaticidade que encaixa muito bem no clima do jogo. Gosta de música clássica? Então é garantia de deleite aos ouvidos, graças ao trabalho de Harumi Fujita (Bionic Commando, Strider, Chip ‘n Dale, Tomba! etc) em conjunto com a então novata Yoko Shimomura (Street Fighter II, Breath of Fire, Super Mario RPG, Legend of Mana etc).

Voltando ao jogo. Depois de derrotar facilmente o primeiro chefe e atravessar o portal dimensional, você entra no Reino Ghoul, e é então que o joguinho começa pra valer. Para os fãs nostálgicos de RPG, a paixão é instantânea, já que um mapinha mundi é apresentado em todo o esplendor 8-bit. A sede para explorar vem de imediato, e em poucos passos presenciamos outro momento clássico, tão amado e odiado em RPGs de todos os tempos: as famigeradas batalhas randômicas. Basicamente, a fórmula é a mesma que fora utilizada em Zelda II — derrotar todos os inimigos da tela —, com o diferencial de adquirir vials (frascos), a moeda do jogo, ao invés de experiência. O fator evolutivo é obtido de outras formas, como encontrar certos itens e conversar com determinados NPCs espalhados pelo mundo; e com o tempo Firebrand vai ficando mais poderoso, podendo pular mais alto, voar por mais tempo, ficar mais resistente e lançar projéteis mais fortes. Aliás, essa questão da evolução lembra muito Metroid, e tem coisa mais divertida e motivacional do que evoluções no nosso personagem?

Em miúdos



Apesar da interessante mistura de Plataforma com RPG, temos alguns pontos fracos. Por exemplo, o joguinho é muito linear, e as dicas adquiridas nos vilarejos tornam-se muitas vezes desnecessárias, já que não há muitos segredos; além disso, o mapa é bem básico e não oferece muito a ser explorado. As batalhas aleatórias frequentes e as lentidões constantes chegam a ficar um tanto irritantes em alguns pontos. A baixa dificuldade também é um tanto frustrante, já que as fases não oferecem muitos desafios; para ajudar, os chefes são terrivelmente fáceis e pouco resistentes. Outro fator que não ajuda muito é a duração, sendo que infelizmente o jogo é extremamente curto (o recorde mundial é de 30 minutos), e ao terminar, ficam aquelas divagações no ar: “Mas já?!”. “Poxa, acabei de começar!”. “Peraí, deve ter mais coisa…”.

No geral, temos um jogo divertido, satisfatório e ambicioso, que foi a porta de entrada para esta pequena mas notável franquia, da qual afirmo: é bem mais do que apenas um spin-off de Ghosts ‘n Goblins esquecido pelo Capcom. Os jogos que seguiram tiveram uma repercussão e aceitação maior, vide Gargoyle’s Quest II para NES e o petardo Demon’s Crest para SNES. Por ser um jogo acessível, acredito que Gargoyle’s Quest pode facilmente agradar a todos, já que mesmo as pitadas de RPG não afastam-no dos jogadores que não possuem afinidade com o gênero. Até hoje, o joguinho sempre pinta nas listas dos melhores jogos de Game Boy de todos os tempos, e não é por menos.

Curiosidades



  • Makaimura é o nome da série Ghost ‘n Goblins no Japão. De acordo com a mitologia japonesa, Makai é um mundo habitado por espíritos conhecidos como youkais. Na série, o Reino Ghoul é uma parte de Makai habitada somente pelos seres malignos.
  • Na cronologia oficial, Gargoyle’s Quest II é o primeiro jogo, seguido por Gargoyle’s Quest e Demon’s Crest.
  • Firebrand faz uma aparição em SNK vs. Capcom: SVC Chaos como um chefe secreto, e também como um personagem jogável em Ultimate Marvel vs. Capcom 3.

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Sobre Sir Kao - Ex Membro

Veterano da Terceira Guerra Mundial de Consoles, enlouqueceu e passou a viver recluso em um abrigo subterrâneo, de onde faz análises de RPGs remotos utilizados em treinamentos militares.
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  • Primeiro: Seus textos são sempre gostosos de ler. Parabéns mais uma vez Kao.
    Segundo: essa franquia é fantástica e tá passando da hora de receber um novo game, estilo o que fizeram com o Castlevania Mirrors of Fate HD.
    Eu cheguei a jogar um pouco da continuação no emulador do NES e me surpreendeu. Que tal escrever sobre o Gargyle’s Quest II ???

    • Ivo

      Vou seguir o comentário do Jeff. Parabéns Kao! É o típico texto que envolve a gente e faz a gente jogar o game e reviver jogando ele.

      Nunca joguei nenhum desses jogos dessa série, apesar de ouvir 1000 maravilhas sobre Demon’s Crest.

      Você deveria fazer review de Gargoyle’s Quest II com certeza.
      E a mesma dúvida que o Jeff falou eu tive, o gárgula saiu verde? Eita!

      Parabéns Kao. Ps: adorei as frases clássica no meio dos seus textos, faça mais vezes.

      • Sir Kao

        Opa Ivo, muy agradecido!
        Cara perdi todo meu comentário anterior… o esperto sem querer atualizou a página. =X
        O Demon’s Crest é uma pérola negra mesmo. Ele acabou ficando meio de canto na época por ter sido lançado nos últimos suspiros do SNES, além das baixas tiragens.
        Pois é, além de verde botaram uma roupa de romano no coitado. O que a falta de internet fazia!

    • Sir Kao

      Olha o Jeff aí, o cara dos indies!
      Realmente viu, eu não sei como uma série que só teve jogos bons foi engavetada assim. Ah, se a Capcom desse mais importância para as pequenas franquias. Mas o desafio do review está aceito sim, quero cobrir a trilogia se conseguir.
      Então rapaz, o cara não sabia a cor do bicho, e como a tela do Game Boy era verde mesmo, deve ter achado que não ia fazer diferença, daí virou esse Gremlin aí. =)

  • aki é rock

    Está ai um jogo que eu vi num site de games a muito tempo e achei bem interessante viu li a respeito e acabei curtindo mas não imaginava que era curto essa versão de Game Boy.

    • Sir Kao

      Fala meu amigo aki é rock ‘n’ roll!
      É curto sim, mas comparado aos jogos do aparelhinho na época, posso dizer que é totalmente perdoável.
      Valeu pelo retorno. 😉

  • Visionnaire

    Cara, você manja muito mesmo! Cada artigo é uma aula de história gamística! Adorei o artigo, nunca joguei o jogo, apesar de ter jogado muitos jogos de GB.
    Se for testar, quero ver como fica no GBC.
    Parabéns Kao! Muito bom!!!!

    • Sir Kao

      Grande Visio, grato pela estima!
      O GB é uma caixinha de surpresas mesmo, sempre me surpreendo com a biblioteca tão vasta que ele deixou. Gargoyle’s Quest é um desses que muita gente passou batido na época; vai entender, talvez por ser meio esquisitão.
      Se jogar deixe suas impressões. 😉

  • Olha só, uma opção de jogo Game Boy que parece ótima e eu não conhecia! o/

    RPG com Plataforma? Parece uma mistura bem legal!

    Ainda mais que ele é curtinho, pra quem tem pouco tempo disponível isso é de certa forma boa notícia!

    Vou encarar com certeza, mas não colocarei fones de ouvido para ouvir os barulhos irritantes. Apesar que a trilha sonora é boa. E agora? Fone ou não fone? Eis a questão!

    Muito bom o texto, sempre me divirto com a forma que vc escreve, é bem empolgante! E eu rolei de rir com as descrições das imagens, foram muito bem humoradas! kkkkk

    Parabéns, Sir Kao!

    • Sir Kao

      Cadu meu filho, seus comentários fazem falta!

      Olha, eu acho que Gargoyle’s Quest dá pra ser encarado por qualquer um sem compromisso. É bem gostoso de jogar e por ser curtinho, não fica cansativo.

      Hahaha… o seu dilema “fone ou não fone” resumiu a minha frustração, se desse pra diminuir o volume dos barulhos e aumentar o das músicas, resolveria viu. Mas é pedir muito de um joguinho daquela época.

      Valeueueueu! =)