RetroReview Especial: The Dark Side of the SNES #02- Legend


Há muito tempo atrás, joguei no meu Mega Drive o clássico da pancadaria medieval Golden Axe, o Beat em’ Up original dos arcades que dispensa apresentações e é sempre muito bem vindo em qualquer local onde vá rolar aquela jogatina multiplayer.  Ai depois de alguns anos, joguei Knights of the Round, pérola da Capcom que colocava a turminha do Rei Arthur pra esquartejar bandidos, monstros e dragões em um dos melhores games do gênero para o 16bits da Nintendo. Agora eu me pergunto, caros amigos retroaventureiros: pode uma softhouse se basear nestes dois clássicos para criar um jogo do mesmo estilo e fazer uma cagada daquelas monumentais? Bem, perguntem para o pessoal da Arcade Zone… Eles conseguiram, e com louvores.

O 16 Bits da Nintendo nunca foi o meu forte, e nem escondo isso de ninguém. Na época em que muitos estavam jogando seus jogos cheios de exploração e histórias longas, eu estava na outra parcela de público que detonava os games mais Arcades e cheios de ação do Mega Drive, e poucas foram as oportunidades em que eu pude ter um SNES em casa para desfrutar de seus títulos… Quando tive, aproveitei para jogar o que o console tinha de melhor, como A Link to the Past e Metroid III. Em outras palavras, este Retro Especial vai ser aquele empurrãozinho maroto que faltava para que eu finalmente pudesse me aprofundar na biblioteca de games desse aparelho.

Aí os meus bondosos amigos retroaventureiros elegem entre os pré-selecionados, um jogo de pancadaria medieval baseado em dois grandes clássicos do estilo… Claro que como fã ardoroso que sou, me prontifiquei rapidinho a terminar o tal título, afinal, o que poderia dar errado? Beat em’ Up é um estilo de jogo virtualmente blindado! Por mais genérico, antigo e arcaico que seja o game, ainda assim é impossível não se divertir dando porrada em alguém. Bem, pelo menos, assim eu acreditava.

Caros amigos desgraçados que votaram neste game: muito obrigado pela “tortura” que vocês me proporcionaram, que Deus lhes proporcione o mesmo em dobro! Jogar Legend até o seu final foi um verdadeiro teste de paciência em todos os sentidos da expressão, é tanta coisa ruim junta em um só lugar que o pessoal que criou esse game deveria ter sido fichado e preso sem fiança.

Produzido em 1993 por uma softhouse europeia chamada Arcade Zone Ltd e publicado por uma tal de Seika, Legend apareceu e sumiu com a mesma velocidade, e eu nesses dois dias de jogatina pude entender os motivos que levaram este título a vagar no limbo da obscuridade tão precocemente. Sim, foram dois dias para terminar um Beat em’ Up, tipo de jogo que eu geralmente finalizo em horas, e a demora não foi por dificuldade não… Foi por tédio mesmo. Por várias vezes eu parei de jogar simplesmente por que não aguentava mais, e só continuava quando a minha paciência se regenerava.

O game é absolutamente genérico, a começar por sua história clichê que, além de não ter a menor surpresa ou originalidade, ainda por cima é contada de maneira tão simples e sem graça que dá dó. É o velho papo do vilão tirano que merece apanhar e do cavaleiro honrado que parte no encalço dele, representado naquele tipo de texto que o jogador nem se dá ao trabalho de ler e prefere criar a sua própria versão dos fatos tipo “guerreiro musculoso mau humorado resolve sair quebrando a cara de todo mundo sem motivo só por que é legal”. Geralmente em Beat em’ Ups a história só serve para dar um plano de fundo e um motivo para a pancadaria, não chegando a ter uma importância muito notável, mas o problema aqui é que ela é tão besta e mau introduzida que acaba afetando negativamente até o herói brutamontes, que entra desconhecido e sai nômade assim como o vilão final, que me foi apresentado de maneira tão tosca que eu achei se tratar de um sub chefe.

O game tenta ser de tudo um pouco, e falha em tudo. Tenta imitar o capa e espada de primeira de Knights of the Round, mas falha miseravelmente na tarefa por que não basta para isso ter um personagem musculoso balançando uma espada na mão, é preciso uma mecânica que funcione misturada a ambientes que convençam, coisas que Legend não tem de jeito nenhum. Tenta imitar o mundo fantástico e mítico de Golden Axe e falha de novo, pois para isso seria preciso boas ideias sendo bem executadas, e Legend não tem nem uma coisa nem outra. O que se vê é um game linear ao extremo, sem qualquer elemento que nos faça dar um sorriso de satisfação, de jogabilidade lenta e travada, e sem heróis que nos cativem pelo menos o mínimo suficiente para que a gente tenha vontade de jogar até o final.

Clones e mais clones por todo lugar… (clique para ampliar)

Nada disso, em Legend a gente só tem um cara pra se escolher, que é o tal protagonista da “história” do game, e quando jogamos em multiplayer, um clone dele aparece com uma cor de roupa diferente, idêntico nos atributos e nos golpes, só que com um machado em mãos. Qualé, qualquer Beat em’ Up  que se preze tem pelo menos uns três personagens diferentes para serem escolhidos (e sempre uma garota no meio), com atributos, golpes e motivações diferentes, e principalmente, tem que ter aquela jogabilidade rápida e precisa que permita a estes personagens mostrarem estas diferenças por meio daquela gama enorme de golpes e magias que eles possuem. Isso não existe em Legend, aqui o herói (ou seu clone) solta espadadas em modo turbo inúteis, desfere projéteis que Deus sabe lá de que são feitos mas gastam um pedação da energia, se defende com um escudo mais inútil ainda, e aplica voadoras.

Trocar porrada com os inimigos é uma grande besteira devido ao alcance tosco e a lentidão da movimentação, o que sempre permite que os inimigos nos acertem. E quando digo lentidão, eu quero dizer é que o nosso personagem anda igual uma pedra. Ele parece estar com duas bolas de aço daquelas de presídio nas pernas enquanto os inimigos correm incessantemente pela tela tentando nos rodear de um jeito tão artificial que até irrita. A IA é a pior que eu já vi em um Beat em’ Up, os meliantes ficam indo pra lá e pra cá e geralmente só tem UM ÚNICO TIPO DE ATAQUE cada um! São um bando de idiotas que se repetem à exaustão por cenários imensos e que só complicam por que a jogabilidade do game é uma porcaria, com respostas lentas e comandos falhos. Usar a defesa como item estratégico não funciona por que o personagem demora uma eternidade para puxar o escudo, bater de frente é inútil por que é impossível não ter um inimigo atrás de você pra te cutucar com algo, usar o projétil gasta muita energia (quatro deles deixam o herói no zero), então o jogador acaba sendo obrigado a aplicar voadoras pra lá e pra cá incessantemente pela tela aproveitando a burrice dos inimigos que não tem defesa contra esse golpe. Ou melhor, os safados até se defendem, na verdade alguns se defendem DEMAIS, mas eles nunca contra atacam esse golpe, tanto que é possível as vezes passar a fase inteira sem tomar uma única porrada só fazendo isso.

Magias e projéteis a gente acaba guardando para usar nos chefes, que são a grande dificuldade do game. É mais ou menos assim: as fases são longas, tediosas e irritantes, os chefes são difíceis e apelões. Geralmente são MUITO maiores que o personagem, mas correm pela tela como se estivessem com o capeta atrás deles. Seus golpes tem um alcance monstruoso, e não param de atacar em momento algum… Junte isso à lerdeza do “herói”, e temos um massacre que só pode ser evitado pelo uso dos potes de magia acumulados durante a fase (cópia descarada e mal feita de Golden Axe) combinados aos projéteis que a gente deve atirar a torto e à direito. Simples, melhor perder energia jogando algo poderoso no chefe do que apanhando…

Essa é a magia mais comum, é só juntar potes e apertar um botão para usar (clique para ampliar)

Já disse que os cenários são longos e tediosos, e de início eles até agradam, apresentando logo de cara alguns efeitos de transparência e planos de fundo bonitos que deixam a impressão de que o game será surpreendente. Mas isso não acontece, e o que se vê no restante da peleja são ambientes fraquíssimos, mau desenhados, repetitivos, e com interação quase nula. Em suma, derrubamos algumas portas que bloqueiam o caminho, subimos um elevador de corda aqui e acolá, e só. Momentos interessantes como a casa em baixo da árvore no início do game simplesmente deixam de acontecer, e o resto do game todo é simplesmente um caminho reto sem qualquer variação ou surpresa. Veja bem, em 1989 eu cavalgava em bestas cuspidoras de fogo pelas costas de uma tartaruga gigante… O que eu deveria esperar de um game quatro anos mais novo com a mesma temática?

A temática das etapas é genérica demais, não chama a atenção em momento algum. Ao contrário disso, o jogador torce o nariz para algumas passagens como a “caverna cheia de homens pré-históricos”… Quem teve essa ideia genial?? E por muitas vezes “algo qualquer e enorme” como uma árvore ou uma pilastra, propositalmente entra no plano de frente bloqueando a visão da tela e… Deus, quem teve essa outra ideia genial??? Deve ter sido o mesmo cretino que teve a anterior… Nem o design de personagens e inimigos se salva.  Toda e qualquer movimentação é escrota, do herói ao chefe final, e os inimigos são mais deformados e desproporcionais do que mau encarados. É sofrível, se salva um ou outro chefe ou animação de magia, o resto é trabalho amador. O mesmo eu digo da trilha sonora: se o jogo tiver umas 4 músicas é muito, e elas se repetem a torto e a direito ao longo do game. A da primeira fase está martelando meus neurônios até agora de tanto que ela tocou ao longo do game, e nem preciso dizer que só é legal ficar com uma música pregada na cabeça quando isso acontece devido a qualidade exemplar da melodia, e não por que algo me obrigou a escutar a mesma tralha por horas seguidas.

Momentos como este poderiam fazer parte da aventura inteira, mas não é o que acontece  (Clique para ampliar)

Inimigos quando derrotados derrubam itens, que podem ser chaves, tesouros ou comida, e estas chaves são utilizadas para se abrir baús ao término de algumas etapas que podem conter vidas extras, o item mais raro e cobiçado do jogo. É como eu disse anteriormente: um bom jogo é feito de boas ideias bem executadas, e nesse caso, só a ideia foi boa, a execução dela foi desastrosa. A grana não serve pra nada, só para pontuação, e a gente vai abrindo os baús e vão surgindo trocentos tesouros inúteis e um monte de comida que só vai causar indigestão no herói, pois ele já está de life cheio faz tempo… Então pra que isso tudo existe? Poderia haver uma loja de itens no game acessível no meio das fases para o herói gastar a grana em vidas extras, energia, magias diferentes, uma espada melhor… Mas não, em Legend você está fadado a atravessar o mundo dando voadoras em gente tonta, viva com isso.

E quando a gente termina Legend depois de vencer aquele mongol gordo enorme com cara de sub chefe e assiste a um final que simplesmente acaba de coroar a ruindade do título, ainda somos abençoados com a carinha bonita dos  imbecis por traz do jogo, olhem só:

Descobri quem foram os cretinos por trás desta aberração!

E o game é tão mau feito e mau programado que, se você tenta em seguida começar uma nova partida, em vez do jogo iniciar ele dá um bug, a imagem aparece novamente e o fica em looping infinito até que o jogador canse e meta o dedo no botão POWER… O mais certo após isso é retirar o cartucho e jogar pela janela.

Cá entre nós, se eu fizesse um jogo tão ruim como Legend, eu ficaria é com vergonha de mim mesmo, jamais colocaria minha cara nem perto do game para evitar que os jogadores soubessem quem foi o autor da façanha. Mas os figuras ai em cima aparentemente estavam convictos de que haviam realizado um trabalho exemplar… Bem… Espero que eles estejam com saúde.

Sim, eu sou exigente pra caramba, chego a ser até chato, e definitivamente não me surpreendo e muito menos me contento com pouco. Beat em’ Up maiomeno pra mim é a série Final Fight no SNES, e nem por isso eu deixo de me divertir horrores quando jogo aqueles games, incluindo a tranqueira sem multiplayer que é o primeiro… Imaginem então como eu fiquei contente de jogar esse Legend… É tanta coisa ruim junta, tanta coisa mau aproveitada, mau idealizada, mau explorada, mau executada, que não sei como a Nintendo pode deixar essa tralha passar em seu teste de qualidade… Se é que existiu algum teste de qualidade na hora de aprovar isso.

Legend é uma tralha, um Beat em’ Up medíocre que faz os mais toscos games do estilo parecerem obras de arte. É um dos piores games que eu já joguei em minha vida ao lado de The Ooze e Superman 64, vale até um RetroScore do ódio:

Não me divertiu, não me desafiou, não chamou minimamente minha atenção em nada… Só me irritou. Enquanto eu jogava, só me vinha uma coisa na cabeça: terminar logo para que eu pudesse escrever e esquecer aquele tormento, pois consertar Legend é impossível… O Remake pra PSx que o diga! Procure por sua conta e risco, por que eu? Eu vou é jogar uma partidinha de Streets of Rage 2 por que EU MEREÇO! Por favor, limpe minha mente, mestre Yuzo Koshiro!

Mais imagens dessa tralha (clique para ampliar):

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Confira as partes anteriores:

#01 – Metal Warriors

Continua…


Sobre Sabat

Dono, Chefe, Gerente, Cara da Xérox e Tia do Café do RetroPlayers! Meu negócio? Falar sobre games. Como? Escrevendo meus trabalhos, gravando minha voz horrível, ou filmando minhas humildes proezas! Onde? Aqui, ali, ou onde quer que me chamem!
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