RetroReview: Castlevania II: Simon’s Quest


Na época em que o meu desaparecido Phantom System era a principal atração tecnológica do meu quarto, existiu um curto intervalo de tempo em que eu tive uma singela e respeitável coleçãozinha de jogos de Famicom, aos quais eu jogava no console fazendo uso de um adaptador que havia comprado em uma loja no centro da cidade ao custo de algumas mesadas e muitas merendas escolares. Eu tinha títulos do patamar de Gradius 2, Mega Man 2, Gunsmoke, e quase sempre eu voltava na tal loja para comprar algum jogo, pois a biblioteca de lá era algo mágico, onde eu sempre encontrava nomes conhecidos e incrivelmente baratos, como aquele tal de Castlevania II. Se eu já havia jogado o 1, e o 3 estava com nota máxima na revista Videogame, claro que o 2 tinha que estar perdido em algum lugar, e possivelmente, devia ser um baita jogo, não é mesmo?

Sim, eu sabia que se tratavam de games para o “Nintendinho Japonês”, e apesar de serem quase sempre os mesmos jogos dos enormes cartuchos americanos, aqueles cartuchinhos pequenos e coloridos eram muito mais baratos e acessíveis!! Logo, a aquisição do adaptador para jogos padrão Japa foi um investimento imprescindível não só para que meu bolso não assalariado aguentasse aquela geração, mas também para que eu pudesse montar essa tal coleçãozinha ao qual me referi. Era quase como comprar 2 pelo preço de 1, e quando vi Castlevania II no meio daquele monte de jogos que eu revirava, tive certeza de que ele seria compra certa naquele dia.

Claro que eu só fui ficar sabendo tempos depois que aquele jogo era fruto da mais pura e descarada pirataria, pois o original japonês de 1987 só foi lançado para Famicom Disk System (cartucho mesmo, só americano, e em 1990), e claro também que eu achava naquela oportunidade que estava levando pra casa um baita jogo de videogame daqueles que eu jogaria por semanas a fio sem enjoar… A primeira afirmação se explica na pouca idade e ignorância no assunto, e a segunda… Bem, a segunda foi mais ou menos o que aconteceu mesmo, só que não do jeito que eu realmente imaginava.

Simon Belmont já era parceiro. Não que minha primeira aventura no comando do herói do chicote assassino tivesse sido muito vitoriosa… Na verdade eu tinha levado um belo cacete do Dentuço Rei das Trevas após uma batalha épica contra a dona Morte, e só fui conseguir desafiá-lo novamente muitos anos depois e jogando pelo emulador (mas sem roubar!)… mas pelo menos aquele côro já havia servido de boas vindas para uma das franquias mais importantes da história dos jogos eletrônicos, e nada seria melhor do que detonar Castlevania 2 antes que eu pudesse por as mãos no terceiro título da saga, que já bombava nas revistas de games da época com reviews extremamente favoráveis.

Pensando nisso, espetei o cartuchinho verde piratex no meu Phantom System, e me deparei com uma bela tela de título que trazia o nome do jogo e a premissa para aquela aventura de Simon, algo mais ou menos da linha “não fiz o serviço direito, fui amaldiçoado, e só conseguirei quebrar a maldição se eu for capaz de juntar as partes do corpo do Drácula, evocá-lo, e chutar a bunda dele de novo, só que dessa vez, do lado certo.” O problema é que estas partes do dentuço foram espalhadas por toda a Transilvânia, e é ai que a aventura se mostrou completamente diferente do que eu esperava encontrar pela frente.

Castlevania 2: Simon’s Quest é um adventure com diversos elementos de RPG onde controlamos Simon em uma jornada pelos confins da Transilvânia atrás dos pedaços do vampirão, um caminho que se estenderá por diversas cidades e mansões, florestas, cemitérios, pântanos e cavernas cheios de seres das trevas prontos a impedir que o caçador de aberrações noturnas possa se livrar da maldição que o persegue. Imagine o Simon que estamos acostumados a ver metendo a  chicotada na galerinha do mau, subindo e descendo escadas, usando armas especiais, e todo o seu repertório de praxe, só que em um jogo onde não existem fases com chefes no final, só uma enormidade de caminhos perigosos que interligam diversas localidades cheias de itens a serem coletados e quase nenhuma informação de como usá-los ou pra quê servem, e quando eu digo quase nenhuma, é pra entender ao pé da letra mesmo. Um carinha diz ali que a Água Benta faz isso, outro diz que o Cristal faz aquilo, e só, o resto todo de qualquer informação que seja necessária para que o jogo ande é conseguida por pura intuição, repetição, desespero, ou uma singela cagada.

E não adianta, pode até mesmo ser erro de tradução, mas falta de exploração, isso nunca: é o jogo que não nos dá as dicas mesmo, os habitantes não falam nada com nada, alguns livros achados em paredes falsas parecem estar falando de outros jogo, e o pior é que alguns segredos são tão absurdos que não consigo imaginar como alguém conseguiu descobri-los por conta própria!

E foi assim que eu joguei Castlevania 2 durante uns dois meses: password após password, dicionário inglês/português no colo, e andando para os lados a partir de uma cidade inicial procurando algum lugar que eu ainda não tivesse ido, pois tudo que é visitável, coletável, ou passível de ser descoberto sem qualquer ajuda interna ou externa nos permite ir até mais ou menos a metade do jogo apenas, e isso tudo eu já havia feito.

Castlevania 2 passou a ser aquele game que eu jogava as vezes, quando não tinha outra coisa pra detonar, e é verdade que graficamente ele é bem atraente! Possui planos de fundo muito bonitos e cenários muito bem acabados que mostram uma boa evolução desde o primeiro jogo da franquia. A variedade de inimigos espalhados pelos diversos mapas do game, sendo muitos deles inéditos, é bem satisfatória, e Simon está de visual diferente e mais definido, mas a principal e mais interessante característica gráfica da peleja é a mudança de tempo que acontece mais ou menos a cada 5 minutos: revezamento entre dia e noite, onde no primeiro os habitantes estão todos perambulando pelas cidades e os inimigos são mais fracos, e no segundo existem fantasmas andando pelas vilas e os monstros são bem mais parrudos. A paleta de cores muda de forma escurecer os cenários e os backgrounds, o que causa aquela bem vinda sensação de “Putz, trevas!”, mas a riqueza de detalhes para por aí: cidades e seus interiores, mansões e afins são pobres ao extremo, repetitivos, e nos dão a impressão de que estamos no mesmo lugar mas em um andar diferente.

Claro que em um determinado momento eu desisti do jogo, pois não tinha mais o que traduzir, o caderninho estava cheio de teóricos enigmas sem solução e uma ou outra passagem que eu havia descoberto na pura sorte já me mostrava que qualquer caminho secreto ainda existente no jogo estava longe de ser encontrado por meios naturais, seria necessário uma sessão espírita para achar alguma coisa a mais naquele vai e vem. Uma destas passagens secretas que eu descobri na pura sorte envolvia a troca de itens entre uns habitantes cinzentos em determinadas cidades, onde depois do troca troca, a gente tinha que deixar o Simon ajoelhado um tempo na frente de um rio… Gente… Acontece que sem ter absolutamente mais nada para tentar, no desespero eu lembrei que em Castlevania 1 existiam aqueles determinados locais onde a gente ajoelhava e um tesouro brotava do chão, então eu simplesmente comecei a ajoelhar em tudo que era lugar suspeito, até que quando ajoelhei na frente daquele beco sem saída, a tela subiu e revelou uma passagem por debaixo do rio… NÃO EXISTE ABSOLUTAMENTE NADA NO JOGO INTEIRO DIZENDO QUALQUER COISA A RESPEITO DISSO! FOI NA CAGADA, A DITA CAGADA QUE ACONTECE DEPOIS DE MESES JOGANDO! Foi uma descoberta tão inesperada que eu juro que ouvi a música do Link achando coisa boa no baú… Outra parte foi quando o barqueiro me levou para um lugar diferente do de sempre, e eu só me toquei depois que a causa disso foi o item que estava equipado no Simon naquele momento OUTRA CAGADA, NÃO EXISTE NADA NO JOGO FALANDO QUE O BARQUEIRO CONHECE UNS ATALHOS!

Mas o enigma derradeiro que me venceu e me fez cair fora de uma vez do jogo, atendia pelo nome de Deborah Cliff, um desfiladeiro ao oeste que só tinha uma dica dada por uma mulher na cidade mais próxima: “Bata sua cabeça em Deborah Cliff para fazer um buraco”… Guarde estas palavras caro amigo retroaventureiro… Ali, após tentar todas as minhas técnicas jedis, jutsos e feitiçarias,  eu desisti de Castlevania 2, e pouco tempo depois, passei meu Phantom System pra frente como moeda de troca no meu Megão.

ÓBVIO que a fama de impossibru de Castlevania: 2 Simon’s Quest sobreviveu ao tempo, e isso me fez nos dias atuais, procurar saber qual era o tal segredo de Deborah Cliff, e quando vi, me deu vontade de chorar rindo de raiva. A dica in game diz pra gente bater a cabeça no penhasco, confere? Bem, imagine que depois disso, o Simon tem que se ajoelhar e por a mão na testa dizendo “puta queu pariu, doeu!”, aí isso vai levar uns 5 segundos de agonia e tontura, tempo suficiente para que um maldito tufãozinho apareça e leve o herói para outro lugar… É isso… Mas o pior é que eu tentei ajoelhar lá, lembro com toda certeza, e não havia acontecido nada…

O jeito qual foi? Jogar de novo, é claro, e nada como um bom emulador no celular para facilitar a nossa vida e… bem, na verdade não existe emulador que facilite a vida em celular algum… Se não tiver um Gamepad, esquece! Mas mesmo assim, foi no meu celular, no toutch mesmo (sou guerreiro), e jogando só nos meus momentos livres que eu cheguei novamente em Deborah Cliff, ajoelhei, e a porra do tufão veio. Vai entender… Defeito na fita? Programação bugada no cartucho? Fases faltando? Não sei, mas o certo é que desta vez, pude ver alguns cenários diferentes daqueles repetitivos iniciais, acabei enfrentando inimigos que devido a isso, eu havia deixado para traz da primeira vez, e finalmente, terminei o jogo.

Existem alguns detalhes importantes a ser levados em conta: no jogo inteiro, só enfrentaremos 3 chefes, sendo que em dois, a Morte e a Máscara, é possível passar direto por baixo simplesmente ignorando a cara feia deles. Muitos chamam isso de defeito do jogo, glitch, troço mal feito, aff, etc e tal, mas a verdade é que essas possibilidades foram feitas de propósito. Se o jogador preferir lutar contra os inimigos e vencê-los, ganhará dois itens muito bons no jogo, uma faca dourada de arremesso poderosíssima, e uma cruz que aumenta a resistência de Simon. Ignorando os chefes, simplesmente o jogo continua sem estes itens, o que o torna mais difícil. Uma escolha diferente dos programadores, que no caso, fazia jus à proposta do jogo. O 3º chefe obviamente é o Drácula, que só aparece nas ruínas do seu castelo quando o jogador obtiver todas as partes de seu corpo, e antes disso nem adianta ir até lá. Sim, tem muito vai e volta, e se o jogador não seguir um tutorial ou coisa do tipo, acontecerá com ele igual aconteceu comigo: o cara vai jogar por meses até descobrir tudo… ou quase tudo. E essa demora pela primeira vez influencia diretamente no final do game: Castlevania 2 tem três finais possíveis, e dizem que cada um deles depende do tempo que o jogador leva para terminar a aventura. Não testei tão a fundo assim para ter certeza disso, e nem vou!

A trilha sonora do jogo é excelente, tão memorável quanto no primeiro título. Apesar de jogar no celular naquele toutch horrível e morrer toda hora por causa disso, era sempre um prazer ouvir as poucas melodias do game. Sim, se o game tem 5 ou 6 músicas no total é muito, mas todas são muito bem feitas e a maioria bem conhecidas, inclusive a música Blood Tears nasceu neste jogo e foi remixada à exaustão no decorrer da franquia. Confira, ou melhor, curta as diversas versões deste clássico sonoro dos games:

A pouca variedade musical pode enjoar um pouco, principalmente quando nos mantemos muito tempo em locais comuns revezando dia e noite, mas eu sempre parei de jogar antes que isso acontecesse então pra mim, tá ótimo!

CASTLEVANIA-2-simons-quest-sabat-review-retroplayersCastlevania 2: Simon’s Quest veio com uma proposta diferente e que não deu muito certo. Muitas boas ideias poderiam ser melhor lapidadas, as rotas poderiam ser mais específicas, e os segredos poderiam ser mais decifráveis aos olhos dos mais observadores, mas a falta de experiência na hora de criar algo com tantos elementos incomuns falou mais alto. A aventura ficou indecifrável, inconsistente, e isso afugentou o público, tanto que fez com que a Konami voltasse às suas raízes no próximo jogo da franquia. Ainda assim, este segundo episódio tem seus bons momentos, mesmo que aos olhos dos mais críticos, esses momentos se resumam à sua exemplar trilha sonora. Aos meus olhos, posso dizer que muitos jogos subsequentes se basearam em elementos deste jogo em suas concepções, como a existência de caminhos alternativos, rotas secretas, e enigmas sequenciais.

É possível se divertir jogando Castlevania 2?  Claro que sim, só que isso é uma tarefa um pouco difícil. Não tão difícil quanto juntar todas as partes do corpo do Drácula só pra poder desmembrá-lo de novo, mas é difícil. Eu consegui as duas coisas, só demorei uns 22 anos pra isso ^^.

Galeria:

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Sobre Sabat

Dono, Chefe, Gerente, Cara da Xérox e Tia do Café do RetroPlayers! Meu negócio? Falar sobre games. Como? Escrevendo meus trabalhos, gravando minha voz horrível, ou filmando minhas humildes proezas! Onde? Aqui, ali, ou onde quer que me chamem!
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