Retro Review: Gunstar Super Heroes – GBA


Não sei se a Treasure tem ou algum dia teve o reconhecimento que merece. Ao meu modo de ver, esta é uma empresa que optou por ser pequena, pois se ela quisesse ser grande, qualidade para isso ela teria de sobra, sempre teve. Seu primeiro jogo foi só um tal de Gunstar Heroes, aquele mesmo que desbancou Contra III do posto de melhor Run n’ Gun da época, e de lá pra cá, geração após geração, seu nome vem sempre figurando à frente de jogos inesquecíveis como Radiant Silvergun, Sin and Punshment, Guardian Heroes e Ikaruga. Gunstar Heroes foi o game que de cara, me fez respeitar demais o nome Treasure, e por mais de 10 anos eu aguardei por uma continuação que teimava em não aparecer, e quando apareceu, eu não tinha como jogar!

Pois é, a vida não é tão justa assim a ponto de nos permitir fazer tudo que queremos, e as vezes a oportunidade demora tanto a aparecer que a vontade já passou, ou estamos encanados com outras coisas, ou mesmo não possuímos meios para jogar. Bem, eu sou um pobre coitado que se encaixa nas três  opções: a continuação do jogo só foi surgir, pasmem, 13 anos depois do original, o que destruiu minha paciência; apareceu em um período em que eu estava completamente encantado com visual 3D do Nintendo Game Cube e do PS2, o que me impediu de se quer dar atenção às notícias que faziam menção a jogos 2D; e por último, foi lançado em um portátil, coisa que eu nunca tive, e pra piorar, apareceu sem a menor badalação e impacto do primeiro jogo, tanto que não me instigou o suficiente nem para que eu procurasse um emulador.

O impacto conta muito para que um game seja considerado épico. Mesmo que no futuro um outro game ou continuação seja considerado tecnicamente superior, é difícil ele superar o primeiro pois… ele foi o primeiro, horas bolas! Ele mostrou como fazia, ele inventou a fórmula, ele possivelmente foi IMPACTANTE DEMAIS, e essa regra quase sempre se repete por esses e outros vários motivos como a pura incompetência de quem desenvolve, que muitas vezes é incapaz de criar uma continuação que ao menos passe perto da qualidade do primeiro jogo. Ai pensando em tudo isso, 20 anos depois eu resolvo aproveitar que ganhei um Game Boy Advance para, com muita dúvida e até um certo receio, finalmente me aventurar na continuação deste que foi um dos melhores games que já tive o prazer de jogar em minha vida, e com muita satisfação, percebo que realmente posso confiar no nome Treasure: Gunstar Super Heroes é tão bom que se ele tivesse sido lançado nos anos 90, hoje ele seria considerado o mais cult e fenomenal Run and Gun já criado.

Continuação direta de Heroes, Super Heroes apresenta uma futura geração de soldados e inimigos com nomes de cores, alguns deles sendo descendentes diretos, outros apenas homenagens à gloriosa história dos heróis do passado. No primeiro game, Red e Blue destruíram Golden Silver junto do império que planejou sua ressurreição por meio das Treasure Gems, e a explosão causada pelo evento acabou por gerar quatro luas ao redor do planeta, que foram com o tempo colonizadas. A história se tornou lenda, e de acordo com ela, em cada uma das quatro luas estava escondida uma das gemas, e foi no intuito de reunir o poder dos artefatos para novamente ressuscitar Golden Silver que o império do passado ressurge em uma quinta lua. O pânico se instala no planeta, e os novos Blue e Red são convocados para proteger mais uma vez o universo.

Passadas as apresentações, o restante é puro deslumbre do início ao fim do jogo. As referências são muitas, as semelhanças também, do logo rotacionando na tela de apresentação ao final épico, mas só isso não seria suficiente para justificar o que eu disse a alguns parágrafos atrás: Super Heroes tem mais, muito mais.

Tecnicamente o tal do Game Boy Advance é um aparelhinho robusto. Aguenta rodar perfeitamente qualquer jogo lançado na geração 16 bits com sobras, e receber ports ou continuações do que se via naquela época não é tarefa complicada para o portátil (por isso que ele recebeu tantos portes!). Então, duplicar ou até mesmo triplicar os efeitos de rotação de sprite, luzes, explosões e tudo mais que o original Gunstar Heroes possuía é o mínimo que se nota quando se começa a jogar Super Heroes. Graficamente o jogo é excepcional, lindo mesmo, os efeitos especiais simplesmente estão presentes em todos os momentos, e logo o primeiro chefe já é algo impressionante de se ver. Os inimigos entopem a tela e não existe lentidão, tudo flui com um dinamismo exemplar que se transforma em uma ação tão frenética que mal conseguimos prestar atenção nos detalhes que estão lá esperando para serem notados. Sim, os cenários são ricos, coloridos, e abusam de efeitos de profundidade, rotação e simulação de 3D que enchem os olhos. O próprio design dos vilões e heróis do jogo recebeu um tratamento diferenciado: seus sprites são bem maiores que os do original, coisa que aconteceu devido ao tamanho diminuto da telinha do GBA, e isso permitiu que eles fossem criados com uma riqueza de detalhes bem mais significativa. A movimentação deles e as animações de combate são muito bem feitas e distintas, também pudera, Red agora é uma garota e, como não poderia deixar de ser, suas animações são bem diferentes das de Blue, o “carinha” que possui aquele ar mais arrojado e despojado.

A jogabilidade de ambos é quase a mesma, e não existe mais aquela opção de tiro fixo ou em movimento que, pra ser sincero, ninguém usava no primeiro jogo: em Super Heroes a combinação de movimentos de ataque é grande como no original, e ambos os personagens fazem tudo só que com animações diferentes.  Interessante demais é a maneira como as variações de cenário alteram a jogabilidade: as Luas são divididas em sub fases (geralmente 4) sendo a última, a luta contra um chefe mecânico enorme que quase sempre faz referência a um monstrengo do primeiro jogo, e essas sub fases são tão variadas quanto poderíamos esperar de uma continuação de um game da Treasure. Hora estamos correndo e atirando, hora estamos agarrados às costas de um animal cibernético a toda velocidade, hora estamos voando enquanto a tela rotaciona pra todo lado… Fazem literalmente cair o queixo de quem joga, acabam com nossa energia antes que percebamos que tudo mudou para um plano diferente e que precisamos nos adaptar rapidamente, e ai é Game Over e recomeçamos do último local salvo. Sim, nesta parte o game é generoso, nos permite salvar a cada fase ultrapassada, mas este save grava também a quantidade de energia que o personagem estava no momento e se você gravar a penúltima sub fase com aquela merreca, terá que enfrentar o chefe só com aquela merreca, o que ou o fará desistir e jogar a fase inteira de novo, ou lhe garantirá batalhas épicas de superação e muito suor nas mãos.

Infelizmente o game não dá suporte a multiplayer, o que é uma pena, pois este era um dos fatores mais atraentes do primeiro jogo. Sabe-se que o GBA possui aquele cabo-link utilizado para se jogar de galera, e cá entre nós, acho que estava até certo que o game teria essa função, a final de contas, pra que diabos serviriam 2 personagens no game sendo que eles tem praticamente a mesma história e diferenças mínimas nos golpes e armas? Acho que decidiram por retirar esta função na última hora, uma vez que isso provavelmente pesaria bastante no desenrolar da ação. Mas talvez a maior diferença para o game original esteja mesmo na alteração do sistema de armas: lembram que no original, podíamos escolher com qual arma começar e ir combinando tiros no decorrer do jogo? Isso era legal pacas sim senhor, era algo ainda não testado no mundo dos Run and Gun, uma total novidade muito bem executada, e por isso deu tão certo. Só que, se de um lado o sistema deixava o game divertido e com mais possibilidades estratégicas na hora de passar uma fase difícil ou arrebentar um chefão, ele também deixava o game MUITO fácil: era só fundir o laser com o tiro teleguiado e terminar Gunstar Heroes se tornava questão de tempo. Talvez devido a isso, o sistema foi retirado da continuação: cada herói começa com 3 armas bem distintas, e estas ficarão com eles até o final do game, sem possibilidade de fusão nem de trocas. Para compensar a falta de possibilidades, acrescentaram um tiro especial bem poderoso quando se aperta R duas vezes rapidamente, e este disparo muda conforme a arma equipada e pode ser recarregado de modo ser desferido mais vezes. De imediato sentimos falta da mescla de armas e ficamos com a impressão de que a Treasure queria mesmo era ferrar com a gente, mas logo depois passamos a perceber como isso foi bom para o jogo: ficou mais difícil, mais recompensador, pois não basta agora apenas equipar um tiro teleguiado e ficar desviando a esmo enquanto ele faz o serviço sujo, agora é preciso conhecer as armas, usá-las na hora certa, e principalmente, dosar o uso dos tiros especiais, pois eles literalmente nos salvam nas piores horas.

Claro que poderiam ter mantido um certo nível de fusão, mas até que ponto isso estragaria a diversão do jogo e o fator replay? Não dá pra saber, e eu aceito do jeito que ficou. Este é aquele tipo de toque que poucas desenvolvedoras conseguem colocar em seus jogos, coisa que a Treasure faz com maestria. Uma continuação de respeito não deve apenas pegar o que existe e somente aumentar a quantidade disso e daquilo, só mudar uma arma aqui e outra ali, ou acrescentar um golpe novo aqui e acolá, como God of War por exemplo que é rigorosamente a mesma coisa desde o 1º jogo de PS2. Tudo tem que evoluir sim, gráficos, músicas, efeitos, mas toda evolução tem que ser estudada para não cair na mesmice de hoje em dia, que é uma armadilha perigosa. A originalidade fluindo é a melhor coisa que se pode esperar de uma continuação, e é isso que temos em Gunstar Super Heroes, algo novo e ao mesmo tempo nostálgico como nunca, das referências aos antigos chefes, personagens e cenários, à deliciosa trilha sonora que enche nossos ouvidos da mesma forma que faziam as músicas do primeiro game.

gunstar-super-heroes-score-sabat-treasure-retroplayersA grosso modo, posso dizer que Gunstar Super Heroes só tem um único defeito grave: não é um jogo para Mega Drive. O primeiro é de 1993, e se esta continuação tivesse sido lançada em 1994 ou 1995, abalaria as estruturas do mercado de games da época. Tudo bem, é provável que ele possua alguns efeitos que possivelmente não rodariam no Megão com a mesma performance com que são executados no GBA, mas não é nada que não pudesse ser adaptado, e isso nunca impediria o game de ser maravilhoso na época certa, época que o transformaria em uma das melhores continuações já vistas, que o tornaria um dos games mais sensacionais da década, e da história dos games. Mas infelizmente, a Treasure demorou demais para lançá-lo, e o fez onde dava, no GBA, onde ele figurou apenas como mais um game na extensa lista de títulos do console, um game magnífico, mas que veio sem causar impacto.

Ainda assim, não tenha dúvida de que você DEVE jogar Gunstar Super Heroes, principalmente se você jogou o primeiro game. É um plataforma sólido, moderadamente difícil, viciante e com muita coisa a apresentar aos nostálgicos de plantão como os três finais possíveis de acordo com o nível de dificuldade selecionado, mas fica o aviso: muito provavelmente ele deixará em você aquele gostinho amargo da frustração pelo que ele poderia ter sido.

Fim!


Sobre Sabat

Dono, Chefe, Gerente, Cara da Xérox e Tia do Café do RetroPlayers! Meu negócio? Falar sobre games. Como? Escrevendo meus trabalhos, gravando minha voz horrível, ou filmando minhas humildes proezas! Onde? Aqui, ali, ou onde quer que me chamem!
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