O primeiro console a gente nunca esquece: Round 1 – O Phantom System do Sabat


Phantom System

Qual foi o seu primeiro console de vídeo game? Esta é a pergunta que fizeram há alguns dias atrás para um seleto grupo de blogueiros via e-mail, e felizmente eu estava incluso. Verdade é que eu estava louco para contar pra vocês, caros amigos retroaventureiros, como foram os dias que antecederam o momento em que eu finalmente adquiri uma dessas belezinhas aí em cima, o meu real Primeiro Videogame, e me aparece gente no Gagá Games dizendo que está bolando um Meme com este tema… P}o, era só tudo que eu e mais metade da blogsfera retrô queríamos: um álibi pra botar essas histórias pra fora, e é isso que nós vamos fazer agora!

Eu não sei se estarei seguindo muito à risca o tema proposto para este meme ao escrever o texto que vocês lerão, tanto por que, tecnicamente falando, o console ali em cima não foi o primeiro a aterrissar na sala lá de casa, e para explicar este fato, terei que dar alguns passos a mais na direção contrária até uma data imprecisa na segunda metade da década de 80, quando tive o meu primeiro contato com o mundo maravilhoso dos videogames.

Eu devia ter algo próximo da casa dos 8 anos de idade, o Atari se popularizava no Brasil mais rápido que banda de música brega, e eu sabia da existência do aparelho por meio da turma que todo mundo teve quando criança, aquela grupinho de amigos que sempre seguia o padrão de ter um integrante abençoado com um pai em melhores condições financeiras que os restantes.

Pois bem, foi na casa deste camaradinha, vizinho de longa data, que eu conheci o console negro da Atari, original importado com frente de madeira, detalhes que eu nem dava importância e mal sabia o significado na época. Eu jogava pouco lá, nossos horários não eram muito compatíveis e graças a Deus, eu tinha muita opção de diversão para amenizar a vontade de invadir o quarto do camaradinha e sumir com o aparelho dele, e no ano seguinte, meu primo, que já era bem adulto e morava na casa ao lado (que hoje está vazia com a morte da minha tia a alguns meses atrás, que Deus a tenha), me chamou pra ir lá ver o que foi que ele tinha comprado. Óbvio que era um Atari, Polyvox inteirinho preto, brilhante, com os cartuchos Jungle  Hunt, Subterranea e Tênis!

Dali pra frente minhas visitas à casa da tia aumentaram drasticamente, mas meu primo muquirana custava a retirar o aparelho de dentro da estante para jogá-lo, mas quando isso acontecia, eu me acabava de jogar!

Só que nós sabemos que o Atari era um videogame muito mais chamativo para crianças do que para adultos, e este fator foi crucial para que um dia ele enjoasse do aparelho.

O que meu primo fez então? A coisa que eu menos esperava: ele deixou o bichão lá em casa. Lembro deste dia como se fosse ontem: a irmã do meu amiguinho endinheirado, saindo do portão da minha casa berrando pra mim “TEM UM ATARI AQUI NA SUA CASA!“. Eu me encontrava a uns 50 metros dali e sei lá o que estava fazendo, mas saí numa disparada tão fenomenal que mal lembro de como entrei na sala de casa! O Atari do meu primo, ele vai deixar em casa, meu Deus, EU TENHO UM VIDEOGAME!!

Pera lá Sabat, se o Atari foi o seu primeiro Vídeo Game? Por que diabos você quer falar de Phantom System?

Simples caro amigo retroaventureiro: um dia eu descobri, e da pior e mais traumática maneira possível, que aquele Atari Polyvox de frente Black Piano que eu tratei com tanto carinho, que me permitiu jogar Pitfall como ninguém que eu tivesse conhecido, que me transformou no campeão de Seaquest do bairro, e que ficou em meu poder por uns 4 ou 5 anos, não era meu. Talvez eu soubesse disso, mas me negava a acreditar que aquilo pudesse acontecer depois de tantos anos de diversão. Eu cheguei da escola com uma vontade enorme de ligar o aparelho para dar aquela jogadinha básica, e antes que eu pudesse sentar no sofá, meu primo entrou em casa, e pediu o aparelho de volta.

Lembro que minha mãe ainda perguntou algo como “Ah, você vai pegar de volta pra jogar?” assim como quem quer apenas puxar assunto, e meu primo respondeu dizendo que iria vendê-lo para um amigo. Aquele foi um dos dias mais tristes da minha vida. Eu guardei o aparelho em sua caixa parte por parte, enrolando cuidadosamente os cabos daqueles controles que eu cuidava tão bem que nunca se quer haviam ameaçado funcionar mal, o console sem risco nenhum, a caixinha preta presa atrás da TV… Fechei a caixa de papelão do console, meu primo a pegou e a colocou em baixo dos braços, e eu, em minha pré-adolescência, chorei sozinho e quietinho no quintal dos fundos por horas. Um choro de tristeza, de revolta, de desolação.

Não, caros amigos, o Atari não foi o meu primeiro vídeo game. A palavra MEU significa algo mais, como por exemplo, não ter que passar por um momento tão nefasto.

Até que eu pudesse finalmente ter o meu Real Primeiro Vídeo Game, alguns anos já haviam se passado, e pipocavam propagandas do Master System e do Phantom System na TV.  Alguns amigos já tinham adquirido algumas daquelas maravilhas tecnológicas, e já não era sempre que me deixavam desfrutar delas… Acho que o ciúme havia crescido um pouco desde a geração Atari.

Chegou então o fatídico dia em que eu fui com mais 3 amigos ao SESC Pompeia, espaço cultural amplamente frequentada pela molecada sem maiores afazeres da cidade, e tamanha foi a minha surpresa quando nos deparamos com dois exemplares daqueles magníficos aparelhos prontinhos ali para serem jogados. A fila pra se jogar por poucos minutos um daqueles aparelhos era enorme, então preferi por um bom tempo apenas observar a jogatina que se seguia em meio aquele mundaréu de crianças desesperadas. Eu ainda não sabia, mas ali começava uma paixão que duraria por muito tempo, e que culminaria no meu verdadeiro primeiro console de videogame.

Enquanto um dos amigos ovacionava e elogiava o Master System e os jogos ali disponíveis (obviamente que ele era dono de um) que eram trocados em espaços regulares de tempo, eu não conseguia tirar o olho daquele aparelho negro da Gradiente. Eu olhava os jogos que eram demonstrados naquela TV de 21” e os achava muito melhores, vi um carinha azul atirando em robôs enquanto corria e pulava por cenários futuristas, um cara com panca de fortão matando zumbis e morcegos com um chicote, uma Ferrari vermelha que me dava uma impressão de velocidade tão grande que eu alucinava imaginando o que viria depois daquela última bandeirada, pois os moleque sempre perdiam bem antes… Bem, voltei pra casa com o nome do aparelho pregado no cérebro, e eu não me lembro bem, na verdade eu nem tenho ideia do real motivo que levou minha mãe a ir comigo alguns dias depois naquela tarde de sábado, até a extinta Mesbla da Rua 12 na Lapa em São Paulo, onde um crediário esperto seria feito em instantes para que eu ganhasse um videogame de presente.

Phantom System

Não sei se ela ainda se ressentia do dia macabro em que meu primo levou o Atari embora me deixando arrasado, ou se eu havia era enchido muito a paciência dela naqueles dias pós-SESC Pompeia, mas o fato era que estávamos ali, e como eu tinha ciência da situação financeira de minha família, estava inclinado muito a contragosto a comprar um Dynavision, console que eu já havia jogado algumas vezes na casa de uma prima e sabia ter alguns jogos legais (apesar de nem imaginar que ele era do mesmo sistema que o outro) e que eu sabia ser mais barato que o Phantom System. Só que, diante de uma diferença de preço que até mesmo eu achava ser infinitamente maior do que era na verdade, minha querida mãe me fez a pergunta que naquela ocasião possuía a resposta mais fácil de minha vida: “qual desse dois é melhor?“.

Na mesma tarde eu desempacotei o meu brinquedinho novo, cada plastiquinho e borrachinha que segurava os cabos, liguei o aparelho na TV e joguei Ghostbusters mesmo sem entender patavinas daquilo a noite inteira.

Game locadoras viraram pontos turísticos pra mim, a jogatina era incessante, alugava 2 ou 3 jogos por semana, comprava 1 por mês e o trocava sempre nas barraquinhas de modo que nunca ficava sem um jogo novo e inédito. Passei a jogar na casa de amigos, e amigos vinham até a minha jogar. Fazíamos sessões com hora combinada, multiplayer, campeonatos, a conversa era sempre aquela, montamos equipes de detonação de jogos, coisa de adolescente da época, e tudo começou no momento em que eu fui verdadeiramente presenteado com esse fantástico aparelho da Gradiente.

Era meu Real Primeiro Vídeo Game, que me proporcionou alguns dos melhores momentos de jogatina de minha vida, que me moldou como jogador que fui e que sou hoje, e que ajudou a construir meu caráter de modo que hoje sou este grande amante de jogos antigos. Sim, o Phantom System da Gradiente, lançado em 1988, que vinha com 2 controles e com o jogo Ghostbusters (que eu troquei por Gauntlet pouco tempo depois), e que não era o melhor e nem o mais perfeito, mas era o mais bonito e estiloso clone de NES que o mundo já viu.

Infelizmente eu já não o possuo mais, me desfiz dele no momento em que comprei meu Mega Drive (ele entrou como moeda de troca), mas quero demais adquirir novamente um daqueles tijolões negros só para que o arrependimento diminua um pouco a sua carga em minhas costas. Quem sabe em breve? E graças a Deus que a Gradiente não caiu na cilada que era o Atari 7800…

Fim


Sobre Sabat

Dono, Chefe, Gerente, Cara da Xérox e Tia do Café do RetroPlayers! Meu negócio? Falar sobre games. Como? Escrevendo meus trabalhos, gravando minha voz horrível, ou filmando minhas humildes proezas! Onde? Aqui, ali, ou onde quer que me chamem!
Adicionar a favoritos link permanente.