Crônicas Gamísticas: Se o jogo é bom? Quem sabe é você!


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Quantas vezes você não conseguiu continuar jogando um jogo especifico e definitivamente julgou o mesmo como ruim? Quantas vezes nos deparamos com jogos que dividem opiniões, jogos que são vistos como ótimos por algumas pessoas e, ao mesmo tempo, são vistos como péssimos por outras tantas? Todos nós jogamos e fazemos julgamentos pessoais sobre o que gostamos ou não, normal, faz parte do processo seletivo dos jogos. O problema acontece quando você encontra alguém que gosta daquele tal jogo ruim, daquele jogo que foi taxado, até mesmo pela mídia especializada, como sendo um jogo abaixo da média.

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Pior ainda é quando essa pessoa concorda com você sobre a qualidade de muitos outros jogos e parece ser uma pessoa sensata e, então, logo se cria uma dúvida sobre a real qualidade da obra. Seria esse jogo realmente ruim ou você definiu-o prematuramente? A dúvida deveria causar o tal momento de reflexão, mas mesmo assim você segue adiante, não reflete sobre o assunto e é por isso que eu estou aqui. Também encontrei pessoas que gostavam de jogos que eu particularmente não gostava e isso me deixava intrigado. Além de pensar sobre o assunto, eu decidi voltar a jogar os jogos em questão e para minha surpresa algo mudou. Fiquei confuso e, de inicio, confesso que me senti facilmente influenciado pela opinião de meus amigos, mas analisando um pouco melhor a situação cheguei a uma conclusão: precisamos reavaliar as avaliações!

Cedo Demais

A tecnologia trouxe muitas facilidades principalmente para os desenvolvedores de jogos que, como nunca visto antes, conseguem produzir jogos em menos tempo, ao menor custo e com elevados índices de qualidade. Isso é bom. E ruim. O lado bom é que temos MUITOS jogos para escolher. O lado ruim é que temos que ESCOLHER MUITO. Automaticamente é normal que a avaliação desses jogos, na tal “lista de jogos que pretendo jogar”, seja muito mais rápida do que era antigamente, fazendo o jogador julgar o jogo pela capa, ou pelas imagens, ou recorrendo aos famosos sites especializados. Tudo bem, quem vai jogar decide se o jogo é ou não é bom e o problema é só dele. Tudo seria perfeito se não vivêssemos na era digital, na ECOLANDIA, a terra do ECO, onde tudo é repetido, ecoando na internet, nada se filtra e quem fala mais ganha muitas curtidas ou sei lá que tipo de “medidor de status” esteja usando atualmente.

No final das contas cria-se um sentimento incorreto sobre o jogo, mas o que é realmente prejudicial é o modo como isso se espalha pela internet. Não que estamos interessados nas vendas dos jogos, não é nada disso, é só questão de sermos jogadores, gostarmos de bons jogos e percebermos que deixamos passar muitos jogos bons que foram duramente criticados sem nenhum tipo de critério relevante. A culpa é de cada um, individual, por dar ouvidos aos falsos entendedores e por ter evitado o principal ponto em uma avaliação: Jogar o jogo.

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Quem analisa as análises?

Já li muitas análises durante minha vida gamer, assim como a maioria aqui, mas sempre tive um pé atrás com a mídia especializada. Em revistas Nintendo, você encontra ótimas notas para os jogos da Nintendo, assim como acontece com revistas Playstation, SEGA e Microsoft. Não sei qual a pressão que nossos amigos escritores recebem ao trabalharem defendendo uma marca, mas certamente precisam avaliar o jogo visando beneficiar sua fonte de renda, que nesse caso é a empresa em questão, mas é certo que isso acaba por influenciar na hora de descrever o jogo. A questão é o quanto isso influencia e até onde vai essa influência? Até que ponto o escritor pode realmente colocar sua experiência com o jogo acima da marca defendida? Não estou dizendo que todos sejam assim, mas me pergunto realmente quais não são assim e quais possuem uma liberdade de criação que lhes permita falar abertamente, até criticando de forma dura e direta, mas falando verdadeiramente com o leitor. A transparência existe realmente ou o cenário está competitivo o suficiente para que cada bandeira erguida seja honrada com mentiras? Sabemos que o Jornalismo Gamer ainda tem muito que melhorar, mas é ruim encarar as coisas com essa dúvida cruel, com esse pé atrás, sabendo que verdadeiramente somos expostos a matérias duvidosas, mesmo nos dias de hoje.

No fim temos a Internet nos fornecendo lixo, temos a mídia especializada sendo tendenciosa e temos mais um monte de dúvidas sobre como encontrar os bons jogos que procuramos. A solução ainda continua a mesma: Jogar o jogo.

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Test Drive

Vamos imaginar que você pretende comprar um carro zero e durante esse processo você já fez tudo o que é indicado nesse caso: consultou amigos, especialistas, procurou e leu artigos relacionados ao carro em questão, pediu ajuda aos universitários e usou as cartas. Mesmo assim, quando você chega à concessionária, a empresa te oferece o famoso Test Drive, mesmo sabendo que eles estão custeando gasolina, pneu, manutenção do carro que testará. É assim na maioria dos casos e não pense que é um custo baixo, basta olhar o preço da gasolina para ter uma noção. Como se explica ou qual o motivo de, em épocas onde cortamos custos em todos os setores, as concessionárias ainda não extinguirem essa prática e simplesmente lhe entregarem uma revista com a análise completa do carro? O motivo está mais do que claro, pois ela sabe que você precisa testar para perceber realmente a qualidade do carro, mesmo correndo o risco de perceber também os defeitos, mesmo tendo altos custos com essa prática, não há nada mais convincente do que um teste pessoal do carro que se pretende comprar.

arcadeEssa analogia se encaixa como uma luva para os nossos queridos games, afinal, mesmo não sendo comparado ao preço de um carro, comprar um jogo no Brasil ainda continua caro e dificilmente alguém não dá valor ao seu dinheiro hoje em dia. Mas que se dane o dinheiro pense na diversão, pense no que te move, no real objetivo que o Vídeo Game tem na sua vida, que seja jogar para aliviar o stress, para se divertir com amigos ou qual motivo for, pois você deixa passar uma ótima oportunidade quando se influencia por leituras prejudicialmente tendenciosas ou por comentários de pessoas que não possuem real conhecimento algum sobre o jogo, que falam sem propriedade. Não vou nem entrar no mérito da indústria de games ou nos seus “parceiros” em sites especializados que possivelmente são influenciados por uma boa quantia em dinheiro. Sendo por dinheiro, sendo por gostar da marca, sendo por adorar o personagem, seja o motivo que for, uma analise tendenciosa nunca deveria ser lançada! Você pode até lançar um artigo do seu personagem favorito, mas precisa ter conhecimento de causa, precisa estar a par do assunto, ter jogado os jogos que se propôs a analisar e principalmente precisa ser neutro o suficiente para enxergar também os defeitos, sem precisar usar a matéria para defender suas preferências.

Tem que ser você

Não tem jeito, não vejo alternativa mais eficaz para saudavelmente escolhermos nossos jogos. Você precisa jogar, fazer o seu test play, tirar suas próprias conclusões e escolher o jogo baseando-se na sua estrutura emocional. Existem jogos que recebem títulos exagerados e que são de senso comum como The Legend of Zelda: Ocarina of Time. Para mim é um excelente jogo, mesmo, do tipo atemporal, mas eu me baseio na experiência que tive com o jogo, sem levar em consideração todo o endeusamento que qualquer um pode encontrar pela internet. Também não julgo se a pessoa teve a melhor experiência da vida gamer jogando Ocarina of Time, pois pode acontecer, pode ser realmente o jogo da vida da pessoa, mas tenho em mente que isso é apenas opinião daquela pessoa em especifico, analisando o jogo pela perspectiva dela, levando em conta sua construção pessoal até o momento.

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No fim o que conta mesmo é o que você procura e em que fase da sua vida você testará o jogo. Isso é importante também, pois o jogo pode passar de ótimo para péssimo dependendo da sua receptividade momentânea, dependendo de qual sua expectativa para com o jogo. Muitas sequências de ótimos jogos são avaliadas cruelmente pelo simples fato de serem vistas apenas como sequencias e não como um jogo individual, como algo que deva ser avaliado sozinho. Existe uma diferença entre avaliar uma trilogia e avaliar um jogo individualmente, sendo que pode ser até pior do que o primeiro, mas ainda assim pode ser um ótimo jogo se avaliado corretamente.

O problema  hoje é o famoso attetion whore, muito comum em redes sociais e uma das desvantagens da internet. As pessoas assistem a um vídeo conceitual sobre o jogo e já o julgam, só para deixar claro que possuem opinião pessoal, só para chamar a atenção. Assim os jogos acabam sofrendo um pré-conceito prejudicial, mesmo que o marketing tenha errado na hora de idealizar o vídeo conceitual, pois ainda é muito cedo para julgar. Só jogando mesmo, jogando por um tempo considerável, jogando sem preconceito, só assim pra avaliar um jogo imparcialmente.”

Apesar de todas essas observações, válidas ou não, a sua lista de jogos deve ser construída por você, pra você e usando sua experiência para isso. Não precisa parar de ler análises não, eu seria demitido se afirmasse isso, eu sei que o Sabat leu o artigo até aqui, então quero deixar isso bem claro: Continue lendo análises. Daí você me pergunta: “Ler análises depois de tudo o que você disse sobre elas?” Sim, leia, preferencialmente no Retroplayers, mas leia para perceber coisas que você sozinho não conseguiria. Leia para receber referências que somente a pessoa que escreve a análise em questão poderia citar, pois ela é única, vivenciou exclusividades, jogou jogos diferentes, leu artigos diferentes e pensa diferente. É por isso que você continuará lendo, pois essa é a magia da internet, esse é o ponto positivo. É por isso também que você comentará esses artigos, pois sua visão, sua opinião, certamente fará a diferença, será vista como algo pessoal e certamente chegará para somar.

Uma Matéria Empolgante

Nintendo

Era 1999, eu tinha mais ou menos 13 anos e estava muito empolgado com uma famosa série de TV: Pokemon. Assistia a todos os episódios, não perdia nada que falasse sobre o assunto e muitos amigos meus também foram atingidos por essa febre. A diferença era que eu comprava mensalmente a revista Nintendo World e queria muito comprar um Game Boy com Pokemon Blue. Como eu não tinha renda própria, apesar de trabalhar, eu precisa ter paciência e aguardar até que meus avós pudessem atender ao meu pedido, e ler a revista foi algo que me ajudou a manter a chama acessa, além de assistir a série na TV. Lia diariamente, sempre que batia a vontade de jogar Pokemon. Foi como um combustível, sendo que na época a internet não era tão popular no Brasil, seu preço era caro, então tinha que me virar como podia para não perder o Hype. Ainda consigo visualizar as imagens em minha memória de tanto que li as mesmas edições da revista. Era um detonado do jogo, nas edições 11/12/13, que eu mantinha cuidadosamente na minha coleção. Aceitei ler tudo, sabendo que estava recebendo spoilers do jogo todo, isso realmente não importava na época, pois era o meu único contato com o jogo. Meu avô entrava no quarto e lá estava eu, esticado na cama, lendo a mesma revista. Fazia questão de compartilhar com ele o meu sonho de comprar esse portátil com o jogo do Pokemon e ele sempre me ouvia com atenção, mesmo que não fizesse sentido algum para ele. Passou um bom tempo, eu ainda continuava lendo as mesmas revistas e fui até uma locadora de games para escolher um jogo de N64. Meu avô me levava de carro, pois era distante uns míseros 10km de casa, então quando não ia a pé com meus irmãos ou de bicicleta nos dias que tinha pressa, meu avô fazia essa cortesia. Enquanto eu escolhia os jogos meu avô conversava com o dono da locadora, mas eu nem prestava atenção, pois era um sacrifício à parte escolher um jogo dentre todos os jogos que estavam na prateleira. Quando levei o jogo escolhido para o dono liberar o aluguel eu fui surpreendido pela visão de meu avô segurando uma caixa com um Game Boy Color Verde! Na hora eu entendi a situação, mas não estava acreditando no que meus olhos viam. Meu avô virou-se para mim, me ofereceu a caixa do GBC e me perguntou:

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– É esse o que você lê na revista?

– Sim – Respondi prontamente acenando com a cabeça e largando o jogo do Nintendo 64 em cima da bancada. Meu avô olhou para o dono da loja e disse:

– Então vamos levar!

Quase caí pra trás! Que emoção! Nem aluguei o jogo do N64, fiquei esperando finalizarem a compra, imóvel, com toda emoção que uma criança de 13 anos pode sentir, sabendo que havia realizado um sonho. Meu avô fez isso por mim e eu não sabia como agradecer. Foi incrível. Pegamos a caixa e fomos para o carro, já com um cartucho que continha diversos jogos, inclusive Pokemon Red e Blue! Depois disso não me lembro de muita coisa, mas tem uma lembrança que sempre me arranca um sorriso e uma lágrima: Meu avô entrava no quarto e lá estava eu, esticado na cama, lendo a mesma revista, enquanto jogava meu GBC com Pokemon Blue. Ele se sentava na mesma cama e sorria. Eu sabia o que isso significava, sabia que, quando eu lia a revista para ele, compartilhávamos do mesmo sonho, com perspectivas diferentes, mas o mesmo sonho.

A mídia especializada me proporcionou esse momento que pude partilhar com meu falecido avô. Por isso eu digo e repito: Continue lendo análises, mesmo duvidando de suas origens, mesmo sabendo de tudo que pode influenciar a escrita. Hoje eu mudei de lado, estou escrevendo ao invés de ler, tentando criar o mesmo sentimento que vivi, tentando fazer esse momento especial. Espero um dia conseguir.

Obrigado a todos  ^^

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Sobre Visio

Um dia você acorda e se assusta com o reflexo no espelho. Percebe que o tempo e a força da gravidade diariamente trabalharam com tanta força e gravidade que talvez não haja mais tempo. Foi assim que a vida passou e enquanto ela passava, estando ocupada demais em me manter vivo, eu simplesmente vivia. Foi vivendo que escolhi gastar muitas horas jogando. Jogando eu refleti sobre a vida e, enfim, me tornei o que sou: Vivo
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