RetroEspecial: Desmistificando o SNES e o MEGA Parte 1 – Resolução e Gráficos


Caros amigos retroaventureiros sobreviventes dos anos 90: as últimas semanas foram bem conflitantes aqui no seu site predileto de velharias gamers, não é mesmo? O aniversário do Retroplayers, que por sinal, ainda tem material para ser lançado, contou com dois RetroFasts que abalaram as estruturas amistosas entre as duas facções de jogadores mais xiitas que já existiram, e o pau comeu novamente como se a disputa pela preferência dos gamers da época ainda estivesse em jogo. E verdade seja dita: foi legal pra caramba! Sim, falar disso é algo muito nostálgico, da pra ficar horas e horas discutindo, e é por isso que eu vou continuar batendo nessa tecla, só que dessa vez, deixando o assunto bem mais informativo.

O fato é: adorávamos discutir sobre qual console era melhor, adorávamos comparar jogos, e acima de tudo, adorávamos aquela época propícia a isso tudo. É bem verdade que os fatos estão consumados, e não há mais o que ser discutido quanto ao vencedor daquela épica batalha: o SNES se saiu melhor, foi o console que vendeu mais (apesar da diferença não ser nada gritante), foi o aparelho mais aclamado, com mais vendagem de games, e por aí vai. Se ele possuía os melhores jogos? É possível que sim, principalmente em gêneros distintos e populares até hoje, como os RPGs e os Adventures, mas sabe-se que isso é mais questão de gosto do que de qualquer outra coisa, tanto por que no final das contas, ambos são excepcionalmente queridos e idolatrados pelos saudosos de hoje em dia, e considerados 2 dos maiores consoles de videogame de todos os tempos.

Diferenças entre eles existiam muitas, mas algo eles tinham em comum: não eram perfeitos, e posso dizer até mesmo que eles se completavam em suas fraquezas. Duvida, caro amigo retroaventureiro? Então relaxe em sua cadeira, sofá, ou qualquer local propício a um bom assentamento glúteo, e boa leitura!

Desmistificando o SNES e o MEGA parte 1: Resolução e Gráficos

Muito do que a maioria sabe sobre estes dois grandes consoles não passa de informações baseadas naquilo que víamos em especificações técnicas vomitadas pelas próprias empresas fabricantes, coisa de praxe até mesmo hoje em dia. Números e mais números que mostravam como tal função era potente ou superior à do concorrente, e que tinham obviamente, a função de seduzir você na hora da compra. Por exemplo, a Nintendo se vangloriava por seu aparelho possuir uma paleta de cor com dezenas de milhares de tons enquanto o concorrente tinha pouco mais de míseras 500 cores para usar, e da mesma forma, a SEGA se gabava por seu aparelho possuir mais que o dobro de velocidade de processamento que o aparelho da concorrente, números com diferenças significativamente grandes se forem comparados diretamente, mas que não retratam a realidade dos consoles quando colocados lado lado: as cores apresentadas nos games de SNES eram milhares de vezes melhores que as apresentadas nos games do MEGA? De maneira alguma!

A diferença na prática era pequena e as vezes até imperceptível, assim como o processador do MEGA não deixava seus games várias vezes mais rápidos do que os do SNES. Quando olhávamos os games de um e outro console, tínhamos normalmente a nítida sensação de que os gráficos eram superiores no SNES e que os games soavam mais rápidos e ágeis no Mega, mas nada era gritante como os números apontavam: era apenas perceptível, algo que muitas vezes nem era levado em consideração pelos jogadores.

Então, se os números apontavam diferenças tão drásticas, por que é que na prática a coisa não era bem assim? Tinha gente mentindo? Não necessariamente, mas podemos dizer que a história dos videogames é regada de omissão de fatos que hoje são bem difíceis de continuarem ocultos, e alguns destes fatos diziam relação justamente ao SNES, sua paleta de cores, e sua resolução.

Caros amigos retroaventureiros, começaremos então desta maneira: vocês sabiam que no geral, a resolução dos games no MEGA DRIVE eram maiores que no SNES?

Não se assustem, mas é verdade. Sabemos que nas especificações, a resolução máxima do SNES é de 512 x 448 pixels enquanto a do Mega é de  320×448. Só que verdadeiramente, nenhum dos dois consoles jamais conseguiu alcançar estas marcas em resolução, e com a inserção dos emuladores em nossas vidas, pudemos, além de nos deliciar eternamente com toda a gigantesca biblioteca de games do passado, constatar que a maioria esmagadora dos games de SNES rodam a 256 x 224 pixels, curiosamente a mesma do NES, enquanto as resoluções dos games no MEGA nunca são inferiores a 320 x 224 pixels.

Isso quer dizer que os gráficos do MEGA são ou deveriam ser melhores que os de SNES? Definitivamente não: isso quer dizer apenas que a tela de jogo do SNES é mais parecida com um quadrado enquanto a do MEGA é mais retangular. Comparem:

As TVs da época possuíam padrão de imagem 4:3, um retângulo que se adaptava perfeitamente à resolução do MEGA. Já o SNES com sua resolução nativa mais quadrada, precisava esticar a imagem para que ela preenchesse toda a extensão do tubo, e às vezes, isso deixava alguns personagens com aquela aparência achatada, porém, só perceptível em comparações de imagens entre os aparelhos. A perda de área útil nos games do SNES é bem perceptível, e geralmente causa um impacto negativo na jogabilidade principalmente em games multi-plataforma. Só que em contrapartida, outros fatores mais importantes conspiram a favor do console da Nintendo, e para adentrar neste mérito, precisamos então desmistificar outro assunto:

Caros amigos retroaventureiros: vocês sabiam que jamais um game de SNES atingiu o máximo de cores simultâneas na tela que o console era teoricamente capaz de utilizar?

O aparelho da Nintendo podia utilizar, de uma paleta de mais de 36mil cores, 256 simultaneamente na tela, enquanto no MEGA o limite era de apenas 64 simultâneas selecionadas dentre uma paleta de apenas 512 cores, mas na prática, o que acontecia era que na média, os games no SNES acabavam utilizando algo entre 60 e 70 cores simultâneas, enquanto no MEGA a média ficava entre 30 e 40. Agora a pergunta: por quê?

Primeiramente por que não era mesmo necessário o uso de tantas cores simultâneas para se colorir um game e isto vale para ambos os consoles. Só que ainda assim, existe uma boa vantagem no uso de cores a favor do SNES… Continua a pergunta: por quê?

Neste ponto, a questão principal era nada mais, nada menos que o nível de dificuldade de programação nos hardwares: era bem mais difícil programar no SNES do que no MEGA, e esse problema era agravado pela baixa performance do processador do console, que trabalhava a uma velocidade máxima de apenas 3.58 MHz contra os 7.67 MHz do concorrente. Quanto mais cores, mais processamento é exigido no gerenciamento, e sem uma boa programação, as quedas de frames se tornariam constantes nos jogos, uma vez que todo o restante das funções, dentre elas, gerenciamento de efeitos especiais e áudio, também seriam processadas ao mesmo tempo. Peguemos como exemplo o game Super Ghouls’n Ghosts: possuía gráficos lindos, trilha sonora magnífica, mas a enorme quantidade de cores simultâneas na tela, sprites e efeitos especiais fizeram com que o game apresentasse quedas de frame tão constantes que quase mataram o título. Assim, dentre outras regras, os games de SNES eram desenvolvidos dentro de um número médio de cores que ajudasse a não sobrecarregar o processador do aparelho. E esse número era muito variável, mas geralmente ficava abaixo do número de cores simultâneas nativo do console concorrente. Para que vocês tenham uma ideia, Donkey Kong Country, que é um dos poucos jogos que realmente utilizavam-se de muitas cores no SNES, chegava a pouco mais de 120 cores na tela, enquanto a versão para o mesmo console de Rock ‘n Roll Racing, por exemplo, usava no máximo 56.

Então por que diabos o MEGA não se aproveitou disso para ter jogos com cores e degrades tão suaves quanto o SNES? Simples, caro amigo retroaventureiro: o MEGA não tinha cores o suficiente em sua paleta para que fosse possível se criar um degradê decente. Sobrava velocidade com seus 7.67 MHz do processador principal sem contar o co-processador de 3.58 MHz que quase nunca era usado, mas faltavam cores para serem empregadas na elaboração das sprites e cenários dos games, simples assim. A suavização dos degradês eram feitas quase sempre utilizando-se uma técnica de entrelaçamento de duas cores para dar a impressão de uma terceira entre elas, um efeito de xadrez que era mascarado pelas TVs antigas e que foi amplamente utilizado no console negro, muito mais que no rival, mas por motivo de pura necessidade.

As TVs da época possuíam scanlines, que eram aquelas centenas de linhas pretas não preenchidas que os tubos apresentavam, e estas scanlines agiam como um filtro que embaçava a imagem, ajudando a mascarar os pixels na tela. Para o MEGA era ótimo, pois amenizava muito bem o entrelaçamento xadrez de cores, mas para o SNES também era ótimo, pois deixava mais suaves ainda os degradês naturalmente mais ricos que o aparelho fazia.

Confira um exemplo de scanlines aplicadas por meio de filtros disponíveis em vários emuladores que simulam a aparência de uma TV de tubo antiga e repare como as cores ficam mais suaves e os entrelaçamentos se amenizam, e aconselho que você abra a imagem em uma nova aba de seu navegador e a visualize em tamanho real para notar com perfeição a ação das scanlines:

Sim, a perda de nitidez é notável, mas era mais ou menos assim que nós víamos os games quando crianças, e era por isso que em muitos casos, a diferença gráfica entre os consoles não era notada.

Mesmo assim, o veredicto já foi dado a muito tempo e não tem segredo algum quanto a ele: com ou sem scanlines para ajudar, o SNES tem gráficos em sua maioria mais bonitos que os apresentados no MEGA. Mas de quem é a culpa? Bem, é evidente que existem casos de falta de capricho e desdém de muitas softhouses, assim como em muitas vezes, estúdios diferentes criavam as versões de cada console, o que culminava em games nada parecidos e muito divergentes em qualidade, mas isso é algo que acontecia para ambos os lados, e que devido a isso, não pode ser levado em consideração. Agora, o que é fato imutável é que se o MEGA tivesse mais cores disponíveis para suavizar seus gráficos, a diferença visual entre os dois consoles se resumiria aos efeitos que um e outro poderiam utilizar, tema este que também será abordado por aqui.  Então, caros amigos, a culpa da inferioridade gráfica do MEGA é unicamente e exclusivamente da diminuta paleta de cores do aparelho da Sega. O que deixa as imagens mais bonitas no console da Nintendo é o uso de muitos tons de cor nos degradês que suavizam os gráficos, e isso, apesar de toda a velocidade de processamento do MEGA, ele nunca poderia igualar com apenas 512 cores disponíveis. É como ter um Fórmula 1 sem combustível enquanto o concorrente tem um  Stock Car com tanque cheio.

É bem verdade que com a facilidade de programação que o console da Sega dispunha, algumas softhouses conseguiram resultados gráficos surpreendentes, muitas vezes atropelando o tal limite de 64 cores simultâneas do aparelho (como no jogo Vectorman, que usa até 78 cores na tela), mas ainda assim, neste ponto a Nintendo sempre se manteve à frente, salvo raras exceções.

Em contrapartida, a potência de sobra e o pouco uso efetivo de cores fez com que os games no MEGA rodassem em sua esmagadora maioria sem o menor slowdown possível de ser notado, e várias vezes, com muito mais detalhes visuais nos cenários e sprites animadas, enquanto no SNES, a história era um pouco diferente: tudo deveria ser muito bem estudado e dosado para não causar lentidão e estragar a jogabilidade, algo que por pouco não arruinou o console, mas que é um assunto que só vou dissecar na segunda e terceira partes deste especial, onde tratarei de VELOCIDADE E JOGABILIDADE e depois de… Bem, depois eu digo. ^^

Até lá caros amigos retroaventureiros!

Continua…


Sobre Sabat

Dono, Chefe, Gerente, Cara da Xérox e Tia do Café do RetroPlayers! Meu negócio? Falar sobre games. Como? Escrevendo meus trabalhos, gravando minha voz horrível, ou filmando minhas humildes proezas! Onde? Aqui, ali, ou onde quer que me chamem!
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