Histórias Gamísticas do Sabat: O Phantom, o Mega, e os meus dois pais


Um dia, há muito tempo atrás, eu fui o semi-dono de um Atari 2600 Polyvox. Semi-dono sim senhor, pois no momento em que eu esqueci que o aparelho estava comigo por empréstimo, o verdadeiro dono apareceu e o levou embora, destruindo uma parte da infância daquele garoto que passou a noite inconformado, chorando escondido. Não, eu não considero este o meu primeiro console de videogame justamente por que ele não era verdadeiramente meu. O dono deste cargo era meu querido e desaparecido Phantom System, o primeiro que eu realmente tive como meu, dado a mim pela minha mãe alguns poucos anos antes de eu começar a trabalhar. Essa história alguns de vocês já devem conhecer, caros amigos retroaventureiros, a história do Meu Primeiro console de Videogame, que eu contei durante um Meme Especial que aconteceu entre diversos blogs e sites há uns dois anos atrás, mas esta que eu vou lhes contar agora é inédita: a história de como foi que eu adquiri aquele que para mim, foi e continua sendo o melhor e mais memorável console de videogame da minha conturbada vida, o meu saudoso e imortal Mega Drive.

É bem verdade que aqueles anos em que eu desfrutei o lado Nintendo da força foram mágicos… O Phantom System havia sido um presente lindo e inesperado, algo que eu jamais poderia imaginar ter ganho devido a realidade financeira da minha família. Eu ainda não trabalhava, e ainda assim, era o mais velho de três irmãos em uma família que sofria de um gravíssimo problema social, algo que possui até hoje, propagandas muito mais bonitas e chamativas do que os avisos e advertências daquilo que este mal pode causar a uma família, e que por isso, teima em amaldiçoar milhões de casas pelo mundo a fora, o álcool.

Caros amigos retroaventureiros, meu pai era alcoólatra.

Emocionado, eu me recordo com saudade daquele homem que, quando em sua real personalidade, fazia de tudo pelos filhos: um pai de família que trabalhava muito, que era extremamente inteligente, e que eu admirava e sentia orgulho de dizer que era meu pai. E ao mesmo tempo, sinto repulsa daquele homem que aparecia bêbado em casa quase todas as noites dizendo ser ele: uma pessoa irreconhecível, violenta, arrogante, um monstro abominável que não ia embora enquanto a noite e o sono não resolvessem impor sua vontade lá pelas 2 ou 3 horas da madrugada… Era quando finalmente, nós tínhamos sossego em casa, alívio.

O álcool destruiu meu pai, levou-o embora desta vida ainda jovem, com cinquenta e poucos anos, e quase acabou com a minha família também. Sim, este mesmo álcool que aparece nos intervalos das novelas sendo ingerido por pessoas felizes e bonitas em festas, que diz para você “continuar andando”, ou que descaradamente ainda diz que “nunca pissou na bola com ostês”… Quanta merda! Como se eles ligassem para o nível de consciência do consumidor na hora de tomar duas ou vinte latinhas de cerveja com os amigos, como se eles ligassem se o consumidor vai dirigir depois, como se eles ligassem para as vidas que podem ser perdidas depois…

Infelizmente é assim que acontece, e foi em meio a esse cenário que eu cresci. Meu pai, quando sóbrio, sempre vinha me dizer enquanto eu jogava e esbravejava por perder mais uma vida, que aquilo era algo feito por japoneses para que a gente jogasse eternamente sem nunca poder vencer, um jogo de azar, um caça níquel, e me assistia jogar só para tirar onda de mim toda vez que eu deixava aquele baixinho italiano morrer em algum buraco ou inimigo rastejante. De vez em quando ele até arriscava pegar no gamepad, mas desistia logo que percebia que a tiração de onda estava para mudar de lado. Quando bêbado, eu tinha que parar de jogar. Ele me xingava, ameaçava, e aquilo continuava por horas mesmo que eu já estivesse quieto dentro do meu quarto. As brigas dele com minha mãe, baiana guerreira que nunca deixou ele encostar um só dedo nos filhos quando naquele estado, duravam eternidades, e eu me sentia impotente e com medo de fazer qualquer coisa… Eu era muito novo, e eu não sabia o que fazer, simples assim… Eu só podia rezar todos os dias para que aquilo parasse, e aguardar a chegada do outro dia sempre torcendo para que a próxima noite não fosse igual a anterior. Só havia uma coisa que me fazia sair daquele tormento, que me fazia não prestar atenção naquilo tudo, o meu Phantom System. Era o meu escape, minha forma de sair daquela situação. Eu o ligava à noite no quarto, quando meus irmãos já estavam dormindo, com a TV quase sem volume algum, e colocava toalhas no pé da porta para não deixar aparente a claridade do outro lado. Eu jogava para esquecer, e eu esquecia.

As vezes, eu nem me dava conta de que o silêncio já havia retornado à minha casa! Eu estava jogando, e quando isso acontecia, eu ia para outro mundo. Naquele quarto escuro eu me tornava um desbravador que não prestava atenção em mais nada, e muitas vezes, eu só desligava o aparelho quando percebia que o sol estava para nascer, antes que minha mãe viesse tirar algum desafortunado da cama para ir pra escola. Felizmente eu nunca estudei de manhã, então eu sempre tinha algumas horas de sono garantidas! Mas isso não me salvou de levar umas chineladas nas vezes em que minha mãe percebia que a TV ainda estava “estalando” de quente!

Meus dias e noites assim se repetiam. Era um período onde as game locadoras ainda estavam aparecendo, e a nossa jogatina era abastecida principalmente pela troca e empréstimo de cartuchos com os amigos. Jogar videogame não era apenas lazer, era algo importante para o meu dia a dia, mas nem sempre eu tinha o que jogar justamente pela falta de uma game locadora próxima.

Nos fins de semana, geralmente a gente até parecia uma família. Meu pai folgava, então nem sempre ele ia para o maldito bar encher a cara. Era mais tranquilo, e era também quando eu finalmente podia ir até a alguma game locadora, quase sempre na finada ProGames da Lapa, pegar algum jogo inédito ou que eu ainda não tivesse terminado. Foi num desses finais de semana que meu pai me viu pela primeira vez terminar um jogo de videogame. Lá vinha ele com a velha lábia de que aquilo era pegadinha japonesa, e blá blá blá, só que daquela vez eu estava lutando contra o último líder do game, logo, nem dei atenção e sem desgrudar os olhos da TV, continuei jogando. Venci o game, a alegria brotou em meu rosto, fechei o punho do jeito que eu sempre faço até hoje quando termino um game, olhei para ele e disse algo do tipo “eu venci os japas pai, e ai?”.

Ele olhava incrédulo para a tela da TV enquanto os créditos subiam, e depois do The End, me olhou, e estendeu a mão me cumprimentando. Ele disse apenas “parabéns”, levanto-se, e nunca mais depois daquilo me importunou enquanto eu jogava. Passou a só assistir e até dava uns pitacos às vezes.

Quando bêbado, o tormento continuava igual.

Os anos foram passando. Com 15 comecei a trabalhar, e nada mudou.

Bem, quase nada na verdade… Meu Phantom System continuava intacto, perfeitamente conservado, pois era jogar e guardar dentro da caixa, que continuava com o isopor branquinho e todos os manuais e saquinhos devidamente conservados (eu os guardava em baixo do isopor, longe da ação do tempo). Só que estávamos em 1991, e um tal de Mega Drive já ocupava um espaço tremendamente grande nas revistas de videogame da época, algo que me atiçava demais, uma vez que eu comprava todas elas.

O salário de Office Boy Interno era baixo, algo equivalente a umas 400 Lulas hoje. Mal dava pra comer um lanche na escola depois do serviço, pois me sobrava uma merreca após o pagamento do Curso de Desenho Mecânico que eu fazia aos sábados. Por sinal, foi o dinheiro mais desperdiçado da minha vida, maldita Protec! Daria para eu ter comprado muita coisa boa com aquela verba… Eu me arrependeria menos se tivesse gasto tudo em créditos da Playland! Mas enfim, definitivamente não havia como comprar um Mega. Não que eu estivesse louco de vontade para trocar de videogame, nada disso, o Phantom continuava me entretendo como nunca! Era a curiosidade que me instigava, e mesmo que não fosse, o aparelho já lançado aqui pela Tec Toy custava caro demais pra mim.

Essa situação começou a mudar no início de 1992, quando fui demitido do meu primeiro emprego e me tornei criminoso, ou mais exatamente, Office Boy Externo.

A empresa era longe! Duas horas de ônibus toda manhã para chegar até a região da Chácara Santo Antônio, na Zona Sul de SP, mas o trabalho era dos melhores que eu poderia desejar! A profissão de Office Boy Externo, quando bem aproveitada pelo marginalzinho assalariado, podia até mesmo triplicar o salário corrente do meliante, e eu aprendi a arte com perfeição… Tive bons mestres! O relógio também passou a ser um grande aliado, pois a profissão me permitia matar hora como nunca! Eu quase sempre acordava tarde e chegava cedo em casa, pois o planejamento prévio das entregas me permitia isso. Com mais tempo, comecei a me recuperar na escola (havia perdido o ano anterior por simples cansaço), pois passou a ser possível ir pra casa descansar, sair antes de meu pai chegar bêbado, e só voltar quando ele já estava capengando de sono. Era um ótimo emprego, onde o importante era simplesmente que eu finalizasse o serviço todo, coisa que eu fazia com o pé nas costas.

Foi quando eu descobri algo genial, inédito para mim até aquele presente momento: aconteceu em um dia em que eu resolvi fazer um caminho diferente para ir ao serviço de modo a evitar um cachorro chato que já havia tentado me morder duas vezes, e acabei encontrando a primeira game locadora da minha vida que permitia jogar por tempo, e não poderia ser melhor: o videogame “a ser alugado” era um Mega Drive.

Bendito cachorro enviado por Deus, aquele local era um sonho! Até aquele momento, eu só havia jogado Mega Drive pouquíssimas vezes na casa de um amigo que só tinha Rambo III e Altered Beast, e agora eu via uma prateleira lotada de cartuchos que ou eu só conhecia por meio das revistas, ou eu nunca havia sequer ouvido falar a respeito. Era barato e relativamente sem movimento, dava pra jogar a qualquer hora do dia sem problemas, e o dono do local ainda reservava a hora se você quisesse e, obviamente, pagasse antecipado.

Neste dia, tive que arrumar uma desculpa esfarrapadíssima para o atraso monstruoso no serviço, pois eu olhei a prateleira inteira caixinha por caixinha, abri ficha no local, e ainda paguei meia hora de Sonic! Foi a primeira vez que eu joguei o game do ouriço, foi lá que eu o terminei pela primeira vez, e foi lá também que mais tarde, eu finalmente venci o game recolhendo todas as esmeraldas.

E que saudade daquela meia horinha de jogatina que se tornou diária! Era terminar o serviço da manhã, e lá estava eu gastando aqueles trocados que haviam sobrado do ônibus que, obviamente, eu havia conseguido ao descer por trás, pela porta de entrada, sem pagar a condução… Err… Caro amigo retroaventureiro paulistano, sabia que um dia, as portas de entrada dos ônibus de São Paulo já foram as de trás? Pois é, e isso para os office boys era uma festa só: a quase extinta classe trabalhadora era extremamente beneficiada pelas frequentes descidas ilegais pela porta de entrada, algo que era tão descaradamente comum que os cobradores e motoristas já nem ligavam mais, e que em contrapartida, garantiam aquela grana extra no bolso dos jovens infratores que, mais tarde, retornavam às suas respectivas empresas e alegavam terem pego várias conduções no dia para realizar o serviço todo.

No meu caso, o negócio era mais lucrativo ainda: garotão, 16 anos de idade e cheio de energia pra gastar, eu quase todo dia saía da empresa com uns 15 envelopes lotados de projetos arquitetônicos para serem entregues, uma pilha que eu ia equilibrando pela região da Av. Paulista em São Paulo por quilômetros só para embolsar o dinheiro que deveria ser gasto com o táxi. Isso e as decidas por trás nos ônibus me rendiam muito dinheiro, chegava a duplicar o meu salário, que já era bem maior do que o do meu último emprego, e quando me deparei com o término da porcaria do meu curso de desenho mecânico, percebi que me sobrava grana o suficiente para outras coisas… Não, caro amigo retroaventureiro, eu não saí comprando videogames adoidado: o que aconteceu foi que eu me tornei um cara consumista, a moda e as tendências adolescentes começaram a ter mais importância do que deveriam em minha vida. Eu queria os melhores tênis, as melhores marcas de roupa, o relógio do momento, o discman da Sony, o boné do São Francisco 49ers, e principalmente, queria ficar atraente para as garotas da escola e do bairro! Era a adolescência fazendo das suas com meus hormônios.

Mas ainda assim, é claro que eu queria um Mega Drive, só que este ainda era um sonho difícil de se realizar devido ao preço e às condições da época para se fazer um crediário… nossa! Existe isso ainda?

Uma coisa é certa: após jogar Mega Drive por meses seguidos naquela locadora, eu comecei a perder a vontade de jogar no meu Phantom. Como eu me ocupava e de certa forma conseguia evitar o lado alcoolizado do meu pai quase todo dia, eu fui parando de jogar à noite, e o coitado começou a sobrar em cima do guarda roupas. Lembro-me de uma vez que me deu vontade de jogar, e eu me assustei com a grossura da camada de poeira que havia em cima dele! O meu Phantom System havia se tornado “obsoleto”, e inconscientemente eu sabia disso. Quando pintou então a oportunidade de comprar um Mega Drive novinho e por um preço bem abaixo das lojas locais, ele acabou entrando na dança, e isso aconteceu muito tempo antes de eu adquirir o tipo de pensamento sobre videogames que me faria ficar arrependido com o que fizera.

Cheguei na locadora para jogar aquela meia hora sagrada, e ao final da jogatina, o dono me pergunta: estou trazendo alguns Mega Drives do japão, você quer comprar um? Foi como perguntar se o leão queria carne! O preço estava realmente ótimo, quase a metade do que os estabelecimentos nacionais pediam, mas o cara não parcelava. Assim, eu não hesitei em fazer a merda de oferecer o meu Phantom System como parte do pagamento… Claro que o dono da locadora quis ver o console antes, e é claro que ele não exitou em aceitá-lo como moeda de troca pois ele estava LINDO, e é claro que mesmo assim, o valor pelo qual eu acabei passando o aparelho foi mínimo, muito menos do que ele valia, mas a minha ânsia em ter um Mega Drive era tamanha que eu nem pensei nesses “detalhes”… Juntei dinheiro, fechei negócio, e um mês depois, chegava meu aparelho, novinho, lindo, com o cartucho Altered Beast, e eu o levava para casa com um sorriso que nem que eu sofresse um acidente sairia da minha cara!

Meu Deus, como eu joguei naquele videogame!

A princípio, eu alugava os cartuchos na própria locadora onde eu havia comprado o console, mas logo, novas game locadoras abriram no meu bairro e eu passei a frequentá-las assiduamente, só indo até a outra perto do serviço para jogar a meia horinha sagrada, pois o vício era tanto que eu não parei de jogar lá por tempo não! Era tipo o “período de testes” antes de alugar algo, prática que perdurou até que eu fui demitido de novo! Uma grande pena… Meu setor fora extinto, todos os office boys foram desligados de suas funções… se iniciava a Era dos Motoboys em São Paulo, começava o caos

Meu pai estranhou ao ver o aparelho novo… Lembro de ter dito a ele “esse é novo pai, é mais potente!” e ele continuou assistindo minhas jogatinas do mesmo jeito que ele assistia antes. E lembro que com a idade avançando, eu aprendi a ignorar e não ter medo da faceta alcoolizada dele. Passei a defender minha mãe, meus irmãos, passei a ajudar com dinheiro em casa, depois minha irmã começou a trabalhar também, e apesar das constantes brigas e irritações que assolavam as noites na minha família, começamos a enxergar uma luz, ainda bem fraca, mas ela existia. A vida estava mudando.

O Mega Drive presenciou essa mudança, esteve presente sempre, e aquela foi a minha maior fase de jogador. Eu alugava 3 ou 4 jogos por final de semana, finalizava quase sempre todos, pouquíssimos jogos me venciam. Me tornei conhecido no bairro, fui até chamado para participar de equipes amadoras de jogadores que desafiavam os bairros vizinhos, e isso era bem legal por que eu adorava me exibir jogando! Por centenas de vezes eu fui até a locadora do bairro pra jogar lá mesmo algum jogo difícil só para mostrar a minha habilidade àquela plateia que se formava atrás de mim, e depois eu ainda dava dicas para o pessoal! O povo que ia alugar cartuchos de Mega Drive me perguntava antes se o jogo era bom por que eles sabiam que eu entendia do assunto, e eu adorava quando alguém duvidava que eu terminasse determinado jogo, principalmente se rolasse uma aposta! Eu só parava de jogar quando alguém me berrava no portão com uma bola em baixo do braço (isso é irresistível até hoje, vixe Maria), ou quando sentava pra assistir o resumão de 2 horas de Cavaleiros do Zodíaco aos sábados na Manchete… Meu pai sempre assistia comigo e até hoje eu me pergunto se ele gostava, ou se era por que ele começava a me respeitar como homem, e sabia que aquele horário era meu… Bem, ele não teve tempo de mostrar a resposta, pois a bebida o levou no ano em que eu completava 18 anos, pertinho do Natal. Curiosamente, aconteceu um dia antes dele ter me dito, após ter sofrido um ataque de convulsões fortíssimo, que não beberia mais.

Foi a última coisa que ele me disse, e de certa forma, ele não mentiu. Não sei o nome disso… destino, vontade de Deus, acaso… Sei que isso age de maneira estranha na vida das pessoas, quase como que nos pregando peças enquanto sofremos.

Continuei jogando Mega Drive ainda por algum tempo, até que outro console veio e reclamou o seu lugar na minha preferência de jogatina momentânea. Só que desta vez, eu não me desfiz do aparelho… Não sei por que cargas d’água eu acabei não vendendo o console, pois apesar dele ter sido um companheiro de jogatina tão ou mais fiel que o meu finado Phantom System, eu não me recordo de já ter naquela época o sentimento de retrojogador que tenho hoje, que me faz querer conservar a minha história como jogador. Tanto por que é isso que eu faço aqui no Retroplayers: a cada frase que eu escrevo, em cada matéria, eu tento conservar estas memórias resgatando passagens importantes da minha vida, atos, fatos e peças que eu não conservei à medida que os anos foram se passando. Perdi meus consoles, perdi meu fichário de anotações, perdi meu pai, perdi tanta coisa, e eu não ligava a mínima para manter as lembranças disso. Eu só queria saber do dia de amanhã.

Hoje eu quero lembrar o passado, lembrar da besteira que eu fiz ao dar meu Phantom System como parte pífia do pagamento do Mega Drive ao invés de apenas juntar um pouco mais de dinheiro, lembrar de como era a minha vida quando eu tinha que jogar escondido, e como era quando eu jogava pra mostrar para os outros que pelo menos em uma coisa eu era realmente bom.

Após o falecimento de meu pai, nossa vida só melhorou. O baque existiu, a família sentiu a perda, eu chorei muito, minha mãe chorou muito… Afinal de contas, era meu pai. Mas as brigas terminaram, o silêncio à noite era bem vindo para nós, para nossos vizinhos, e para quem mais interessasse. Sem as enormes contas no maldito bar para pagar todo o mês, pudemos reformar a casa, comprar novamente um carro, crescer como família… Mas eu de forma alguma, de forma alguma MESMO, deixaria de trocar tudo isso por uma vida que continuasse tendo meu pai vivo e longe da bebida, assistindo minhas jogatinas no Mega Drive e vendo aos sábados o Seya semi-morto vencer mais um inimigo de Athena.

Hoje eu tenho um novo Phantom System lindíssimo, dado a mim por um senhor carioca que simplesmente não queria vendê-lo, tão pouco queria que ele ficasse nas mãos de alguém que iria simplesmente guardá-lo em um armário para a eternidade, um senhor que disse gostar do meu trabalho aqui no Retroplayers, este árduo trabalho de recuperação de memórias que eu faço de graça. Eu até mesmo sinto como se uma parte da mágoa pela cagada que fiz no passado estivesse de certa forma curada! E eu tomo minha cerveja com os amigos, com meu irmão, com meus parentes, e longe de qualquer hipocrisia, eu digo que meu pai nos mostrou o limite, mostrou o que eu não devo ser, mostrou que eu não devo deixar bebida alguma me consumir até me transformar em duas pessoas por que esta outra pessoa não será eu, e ela só causará sofrimento àqueles que me amam, me mostrou que os mesmos que colocam nas TVs a imagem de que o consumo do Álcool é legal e divertido, jamais estenderão a mão para ajudar sua família a se recompor dos problemas que ele poderá causar.

Acho que ele se orgulharia do que eu me tornei.

E o meu Megão continua aqui, firme e forte, e continuo jogando nele sempre que possível, louco para conseguir um cartucho Ever Drive pra encaixar nele e assim, jogar tudo que eu não pude detonar na época auge da minha jogatina. E eu nem poderia parar de jogar, por que quem sabe o velho, agora livre daquela sua segunda e indesejável personalidade, não continua assistindo minhas jogatinas de Mega Drive de algum lugar não catalogado nos mapas por ai?

Fim


Sobre Sabat

Dono, Chefe, Gerente, Cara da Xérox e Tia do Café do RetroPlayers! Meu negócio? Falar sobre games. Como? Escrevendo meus trabalhos, gravando minha voz horrível, ou filmando minhas humildes proezas! Onde? Aqui, ali, ou onde quer que me chamem!
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