Indie review: Titan Souls (PC – PS4 – Vita)


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Dificuldade nos jogos é um tema em destaque hoje em dia, basta olhar a euforia do público e da mídia em cima de alguns dos jogos mais cobiçados do mercado atual de games, como Dark Souls 2 e BloodBorne, ambos da From Software, empresa que julgo eu, está criando um novo gênero bem masoquista que cada vez mais conquista fãs pelo mundo. E que gênero é esse? Sei lá, ele ainda não tem nome definido, mas poderia responder naturalmente por algo do tipo Hardest Apelative of Hell Adventure, onde o importante definitivamente não é sair apertando botões de qualquer jeito na fé de que aquele inimigo que tem 3 vezes o seu tamanho vá cair de joelhos sem muito trabalho ou penalidades. Não, neste novo gênero, o importante é ficar vivo, só enfrentar meliantes do seu tamanho, de preferência em decomposição e com algum membro faltando.

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Dark Souls é um grande exemplo de jogo do gênero HAHA

Esse novo gênero já conta com 5 games, sendo 4 da própria From Software, e um vindo de fora, Lords of the Fallen, desenvolvido pela CI games e publicado por um monte de outras empresas para diversas plataformas, e não acho nada fora do comum pensar que agora, com o sucesso de BloodBorne, este novo gênero cheio de ódio zipado pronto a ser descompactado esteja preparado para atingir novos horizontes, com títulos sendo desenvolvidos por cada vez mais e mais empresas. É um panorama que eu gosto muito, dificuldade é meu nome do meio!

Foi por isso que me incumbiram de fazer o teste drive de um indie game que chegou à nossa redação: estavam dizendo por aí que Titan Souls, game pixelado produzido pela novata Acid Nerve até o momento para PCs, PS4 e Vita, era tão difícil que poderia ser considerado como o representante indie do gênero HAHA (sim, Hardest Apelative of Hell Adventure). Joguei e bem, eu quase concordo.

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Quando eu disse pixelado eu não estava exagerando: Titan Souls é Pixel Art do início ao fim. A aventura acontece em um ambiente isométrico que lembra demais o visual de clássicos das antigas como o inesquecível The Legend of Zelda: A Link to the Past para Super Nintendo, uma composição muito mais artística do que técnica, e que para os padrões atuais de beleza, parece algo ultrapassado e infantil que muitos infelizmente não sabem ou não estão preparados para apreciar. É o que chamamos de jogo de nicho: um game feito para um punhado de gente que gosta e consome aquele tipo de produto o suficiente para que o nicho se mantenha vivo. Bem, se enquadrando no nicho ou não, o jogador que der uma chance a Titan Souls será então apresentado a um dos indie games mais deliciosamente desafiadores que eu já tive o prazer de jogar.

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A ambientação lembra demais o clássico A Link to the Past

Há quem diga que o jogo segue a linha do imorrível Shadow of the Colossus, e não tem como negar isso: controlamos um herói solitário com um objetivo obscuro em um mundo quase inteiramente aberto e desértico, onde devemos encontrar e destruir com uma única flechada um monte de criaturas enormes para então, sugar suas almas de modo abrir portais que permitem avançar na aventura. Pois é, não tem cavalo, e nem temos que percorrer distâncias quilométricas à procura dos inimigos, mas a mecânica de ambos é muito parecida. Os Titans são nossos únicos inimigos, e digo que eles são mais que suficientes para que fiquemos com vontade de arrancar nossos cabelos: sim, como eu disse, cada titan necessita de uma única flechada bem dada para ser destruído, mas até que o jogador descubra por conta própria o ponto fraco do monstrengo e como acertá-lo, muitas e muitas tentativas serão necessárias, em outras palavras, você vai morrer muito, mas muito mesmo, tanto por que o protagonista é destroçado com uma facilidade assustadora. Muitas vezes você vai se sentir como um pernilongo tentando vencer uma raquete elétrica.

Sem exageros, é piscou, morreu, e muitas vezes isso acontece imediatamente ao acordarmos o titan, que fica imóvel, adormecido até que acertemos uma flechada nele e a luta comece. E não pense que podemos sair distribuindo flechas a torto e a direito pelas salas, não senhor: o herói só tem uma única flecha que está magicamente ligada à sua alma, e esta é a grande sacada do jogo: quando atiramos a flecha, devemos segurar o mesmo botão para que a flecha volte, e só então podemos atirá-la novamente. É uma ação que leva tempo, nos deixa vulneráveis, mas adiciona muita estratégia às batalhas, criando situações em que o jogador tem que pensar muito no que fazer para vencer.

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Esse titan é um dos que dão muito trabalho

Cada titan encontrado pode proporcionar então uma batalha memorável, duradoura e quase sempre irritante, pois ninguém gosta de ver seu personagem sendo transformado em um rastro disforme de sangue 20 vezes seguidas antes de finalmente descobrir o jeito certo de usar a flecha ioiô no ponto fraco do sujeito, que muitas vezes, está bem protegido, e só fica visível por um minúsculo instante que geralmente acontece após o jogador adotar alguma estratégia que envolva o poder da flecha.

Definitivamente é o desafio inteligente que o game propõe que o torna tão viciante, mas ao jogar, percebemos que ele poderia ser muito mais do que é, e em vários sentidos, pois potencial não faltava. Infelizmente a exploração do cenário, que é algo que eu adoro neste tipo de jogo, praticamente não existe. Os titans normais são 17, e somando o chefe final e um secreto que só aparece após o jogador vencer todos os anteriores, temos então 19 desafios e quase todos eles estão bem ali, prontos a serem encontrados sem o menor esforço. Somente 2 ou no máximo 3 deles estão escondidos de maneira que tenhamos que interagir de alguma forma com o cenário para encontrá-los, e isso me causou uma certa decepção, pois enquanto jogava, pensei em um monte de possibilidades para se usar a flecha ioiô do herói de modo deixar a coisa mais empolgante, e por quê não, duradoura… Sim, a pesar de muito difícil, o game é extremamente curto! Como eu frisei anteriormente, existem titans que nos fazem morrer dezenas de vezes até que possamos vencê-los, mas existem aqueles também que matamos em 5 ou 6 tentativas, e somando isso ao fato de não ser preciso vencer todos eles para se terminar o jogo e ao cenário pouco vasto e sem maiores surpresas, temos então um game que dura em média 6 a 7 horas apenas, o que convenhamos, é bem pouco até para um game indie.

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Levei 6 Horas e meia para vencer os 19 titans, e confesso que queria jogar por muito mais tempo, pois cada desafio se mostrava sempre uma experiência nova, inteligente e muito original, daquelas que nos fazem querer sempre tentar mais uma vez a cada falha. E pasmem, estas poucas horas foram suficientes para que eu morresse mais de 300 vezes! Sim, o jogo conta o seu número de mortes, e o número é sempre absurdamente alto.

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O efeito ao sugar a alma do inimigo é bem legal!

Vale citar que ao se terminar Titan Souls, abrimos algumas opções, como o modo Truth, onde todos os textos no jogo deixam de ser hieróglifos sem sentido e passam a aparecer traduzidos inclusive em nossa língua, e alguns novos modos de jogo, um mais masoquista que o outro, como por exemplo, um modo onde só temos uma única vida, e outro em que o personagem perde o movimento roll, que como o nome diz, é uma cambalhota essencial para se desviar e escapar de ataques. Sinceramente,  existem alguns titans que eu não imagino como seria possível vencer sem a cambalhota.

Não seria injusto dizer que em Titan Souls passamos mais tempo morrendo do que jogando, e talvez seja este o motivo de terem me dito que este pequeno game poderia fazer parte do tal gênero HAHA que citei lá em cima… Mas agora já tendo vencido o game, e ainda que eu tenha colecionado 3 centenas de óbitos, não acho que ele seja punitivo o suficiente para fazer parte desta ainda singela seleção de jogos absurdamente difíceis.

Agora, você jogador, pode levar isso pelo lado positivo ou negativo, basta jogar para decidir, e isso eu garanto, vale muito a pena. Titan Souls é um game curto, porém sólido, de excelente trilha sonora e gráficos muito bonitos e coloridos, cheio de desafios capazes de tirar você do sério num momento, e te fazer pular de alegria no outro. Pois é, ainda não inventaram nada melhor que a dificuldade para fazer uma conquista valer a pena, e este singelo joguete independente é mais uma prova disso. Conquiste Titan Souls, e depois, me diga se não é verdade.

Fim

Galeria de imagens: Titan Souls

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Sobre Sabat

Editor Chefe do RetroPlayers, Redator e Editor nos Livros e Revistas WarpZone, Podcaster e editor de áudio, Saudosista, e Analista de Informática porque algo tem que dar dinheiro né!

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  • Gle Sasao

    valeu o review, acho que foi o mais esclarecedor que li sobre este jogo.
    realmente, sou preconceituoso com estes jogos atuais que imitem a geração 8 bits… pq me faz pensar que são preguiçosos e falta de capricho, mesmo sendo indies.
    mesmo assim, sempre é bom ter uma visão diferente do jogo, e neste review me deu esta visão. obrigado!

    • Opa Gle, cara, o Steam ta cheio de jogos desse tipo, feitos em pixel art e sprites, e olha só: eu ADORO!! Já joguei vários, um mais surpreendente que o outro. Não é como se imitassem a geração 8 bits: é como se continuassem a de 16 a todo vapor. Poderia te indicar vários ^^ mas acho que vc deve conhecer a maioria XD

    • Thiago B

      Cara, estou contigo nessa questão dos oito bits, recentemente joguei o Shovel Knight, um puta jogo que se tivesse gráficos como o do mega ou do snes seria muito mais legal do que já é.

  • Matheus Henrique Soares Lima

    Devo admitir, estou com medo destes jogos, mas a minha vontade de joga-los cresce a cada dia, talvez a coragem venha em julho, onde estarei de ferias e poderei dedicar todo o meu tempo a um jogo. Qual será? The elder scrolls v ou Dark Souls?

    • Dark Souls com certeza. Skyrim é dificuldade nula e penalidade zero, não se enquadra no tipo de jogo que eu citei de jeito nenhum (sem contar que é o jogo mias bugado da história dos jogos eletrônicos kkkkk)

    • Thiago B

      Dark souls sem a menor dúvida. Em relação ao Skyrim o Sabat pontuou muito bem.

  • Visionnaire

    Gostei da proposta do jogo, eu não conheço e pretendo adquiri-lo o quanto antes. Jogos difíceis são bacanas desde que você morra por suas limitações, reflexos, curiosidade e afins, nada de dificuldade focada em controles ruins ou mesmo limitações de hardware. Parece que esse game tem essa questão de te fazer morrer pelo simples fato de ter acordado o Titan. Podia ter deixado ele dormindo, mas foi procurar confusão e deu no que deu.
    Muito bom o artigo Sabat!

  • Pô, parece bem interessante o jogo!
    Ouvi vc falando dele num Hitcast e já fiquei curioso, o review só atiçou ainda mais a curiosidade.
    Só não gostei da sua choradeira quanto ao tempo de jogo, 6 horas tá de ótimo tamanho, pô! Se passa muito disso começa a encher o saco.
    Tudo bem que eu tenho mais de 60 horas de Rogue Legacy, mas eu sou retardado mesmo e quero conseguir o maldito “troféu fdp”, como carinhosamente apelidei… ahuhuahuahuahuahuahuahuahua. O jogo mesmo eu já terminei faz tempo.
    Parece uma boa opção pra encarar no Vita! Vou esperar ficar gratuito na PS Plus! hehehe