Histórias Gamísticas do Sabat: Os Caçadores do Super Nintendo perdido


A verdade é que eu tenho muitas histórias antigas pra contar, mas quem disse que eu encontro tempo para elas? E pra piorar, ainda me aparecem alguma novas que merecem tanto serem descritas aqui que eu acabo não tendo outra escolha a não ser a de furar a fila e passá-las na frente das outras na maior cara de pau! E é isso que está acontecendo neste exato momento, caros amigos retroaventureiros! Contarei-lhes uma breve história que começou a muito tempo atrás, e que até chegar ao seu desfecho, que se deu a poucos dias, passou por muitas coincidências do destino, muitos apuros, muita correria, e muita ajuda desse pessoal retrogamer que hoje em dia eu tenho uma alegria enorme em poder chamar de amigos.

Ato 1 – Mágoas

Aqueles que me conhecem pessoalmente sabem que eu sou noivo de uma garota que me atura já a 11 longos anos. Diz o ditado que a mulher perfeita é aquela que gosta de você, e essa frase tem muito sentido quando pensamos que quando a garota gosta realmente da gente, não precisamos nos preocupar com fatores como o Ricardão por exemplo, além de termos companhia íntima a hora que quisermos, comida quentinha, cafuné na orelha… Mas e se ela for uma bela loira de olhos claros e gostar de videogame? Pois é, tirei a sorte grande, realmente eu tenho a mulher perfeita em casa.

E com muitos anos de convivência, é natural que eu conheça muitas histórias e fatos acontecidos com a parceira, e realmente conheço vários e vários, alguns alegres e felizes, outros nem tanto… Mas uma história que sempre vi sair da boca dela, pelo menos sempre que era possível tocar no assunto, era sobre um Super Nintendo que ela possuía quando pequena, presente do pai que já a muito tempo, está separado da mãe e desde então, se tornou completamente ausente.

Mas deixando essa parte da história de lado, diz a lenda que a dona Cassia, mãe de minha noiva e minha atual sogra (ela faz um bife a milanesa magnífico), vendeu o tal SNES a total contragosto da dona para uma tia de consideração, fato que ocorreu anos antes de eu a conhecer. Coisa de pais né, achar que os filhos não tem valor sentimental pelas tralhas que ganham, achar que podem vender a qualquer momento os aparatos dos filhos por que julgam que eles não precisam deles… Bem, ela vendeu, e depois disso, sempre que minha noiva entra em alguma discussão com a mãe dela ela solta um “O MEU SUPER NINTENDO QUE VOCÊ VENDEU EU NUNCA MAIS VI NEM A COR!!!”.

Pois é, ficou marcado, tipo aquela mágoa que a gente não consegue superar, e eu ajudei muito a piorar essa situação com um outro acontecimento ao qual eu me arrependo demais, tanto que, de certa forma, foi algo crucial para que eu mudasse meus pensamentos quanto ao valor dos jogos e consoles antigos. ,

Aconteceu não a muito tempo, na época em que eu jogava o meu Game Cube, aquele fogãozinho roxo tão excelente quanto mau aproveitado, que chegou ao mercado não com o objetivo de vencer qualquer disputa mercadológica com outras fabricantes, tanto por que era impossível desbancar a Sony em seu atual estado, mas sim de resgatar o respeito que o nome Nintendo havia perdido com a má aceitação de seu ultimo console, o N64. Milhões de jogadores espalhados pelo mundo poderiam ter desfrutado dos grandes jogos deste console, mas por um motivo ou outro, a grande maioria deixou passar batido uma leva de games espetaculares.

E pelo menos aqui no meu Brasil Varonil, um destes motivos de má aceitação foi tão aparente quanto a minha careca crescente: até quase o fim da vida deste console, não existiam jogos piratas para ele, e a única maneira de jogá-lo era através de originais. Pirataria? Baixar o joguinho da internet? Nem pensar! Assim, enquanto todo mundo que tinha PS2 permanecia no costume iniciado com o PSx de ter trocentos jogos piratas em casa, eu mantinha meu Cube na ativa por meio de trocas e rolos que eu fazia quase sempre pelo fórum Uol Jogos, que não frequento mais a muito tempo.

Uma vez, me surgiu a oportunidade de realizar uma troca muito proveitosa: passaria um jogo meu e pegaria dois! Não lembro qual dos meus dois jogos eu estava dando, mas o que importa é que no final, eu teria três, sendo que dois deles seriam Skyes of Arcadia e Zelda Collector’s Edition, este primeiro um grande clássico do Dreamcast portado e atualizado para o Cube, e o outro, uma coletânea impecável de jogos da franquia Zelda, coisa que se hoje em dia eu ainda tivesse, guardaria como peça rara de decoração na estante da sala pra todo mundo ver. Mas meu pensamento ainda era quadradão, eu não retinha comigo qualquer valor nostálgico pelas peças que me desfazia, pois se eu tivesse, não teria dado este game no rolo que me pintou poucos dias depois: um carinha me ofereceu um SNES em troca de qualquer um dos meus 3 jogos. Querem saber qual a importância histórica de meu terceiro jogo? NENHUMA, por que eu nem me lembro qual era! Mas ao invés de dá-lo na troca, meu pensamento foi mais ou menos “vou passar o Zelda Collector’s Edition por que eu nunca vou jogar mesmo…”, e assim eu me desfiz de uma coletânea que hoje é peça raríssima quando poderia ter passado pra frente um jogo de fama momentânea qualquer.

Vivendo e aprendendo, certo? Errado, a cagada master ainda estava por vir.

O dono do SNES era um garoto sedento de novos jogos para seu Game Cube que morava na mesma região de SP que eu, e assim fui junto de minha noiva fazer a troca pessoalmente na casa dele já pensando no quanto o aparelho teria que estar intacto para que eu quisesse trocar. O garoto me havia adiantado que o aparelho estava novo, mas eu não estava preparado para tanto: SNES Playtronic edição  Donkey Kong Country com 2 controles TUDO INTACTO, o aparelho estava PERFEITAMENTE LINDO, tão novo que quando a Pim (essa é a minha noiva) o viu, seus olhos brilharam mais do que ao ganhar qualquer coisa que eu já tivesse dado a ela. Todos os cabos, todos os manuais, tudo dentro de seus saquinhos plásticos originais e amarrados com os ferrinhos de praxe, isopor branco como espuma, e caixa sem o menor amassado ou risco… Hoje todo mundo sonha com um desses, mas de tão cego que eu era, acreditam que eu ainda fiz o moleque ligar o aparelho pra eu ver se estava funcionando? Se fosse hoje eu teria saído correndo com a caixa em baixo do braço!

Bem, funcionou tudo lindo, entreguei o Zelda para seu novo dono, coloquei a caixa no banco de trás do carro e voltei pra casa, onde minha noiva logo tomou posse do console e jogou DKC pelo resto do dia. E isso nos leva diretamente a minha segunda cagada na mesma história: não fiquei nem 15 dias com esse Super Nintendo, pois uma nova troca apareceu, e eu o troquei por um dos piores games que eu já tive o desprazer de jogar, Enter the Matrix.

Quanto ao game? Uma merda que eu joguei e vendi o mais rápido que pude, antes mesmo do povo descobrir que era tão porcaria. E vendi caro ainda! O problema mesmo foi o estalo que eu tive ao presenciar a Pim procurando a caixa do Super Nintendo no meu quarto. Naquele momento as palavras engasgaram em minha garganta, a frase que eu tinha que dizer não saía por que me passavam pela cabeça todas as vezes que eu a vi jogando naqueles poucos dias como se fosse uma criança no chão do meu quarto, com as pernas cruzadas e os cotovelos apoiados nos joelhos enquanto os olhos não desgrudavam da TV, e ela sorria pra mim toda vez que terminava uma fase e a exclamação aparecia no nome da mesma indicando que ela estava completa. Percebi que quando eu dissesse que havia vendido o aparelho, aquele sorriso iria sumir… E foi o que aconteceu.

Foi neste dia que eu tomei consciência de todas as burradas que eu havia feito em minha vida: a venda de meu Phantom System completo a preço de banana na ânsia de comprar um aparelho mais novo e moderno, meu Nintendo64 completo e na caixa que eu nem se quer lembro para quem eu vendi, a troca do Zelda Collector’s Edition, o enorme descaso com meu finado e perdido Play Station, que eu só soube a pouco tempo que era um modelo raríssimo que possuía qualidade de som profissional para a época (aquele com o plugue peculiar de 3 entradas), e agora, havia me desfeito de um SNES que merecia de mim o mesmo valor que minha noiva estava dando. A mãe dela tinha lhe retirado o aparelho, e agora, havia sido a minha vez de repetir o feito.

Fiquei sentido com isso por muito tempo, posso até dizer que aquela tal mudança súbita na maneira como eu passei a olhar aquelas coisas do passado, as coisas que eu ainda deveria ter se meu pensamento não fosse tão simplório, foi o estopim para que eu começasse a me identificar como retro jogador, o que culminou mais tarde na criação do Retroplayers. Mas quis o destino que eu tivesse a chance de reparar pelo menos um destes erros, e eu agarrei essa chance com unhas, dentes, e um alicate de pressão que era pra ela não escapar de jeito nenhum!

Ato 2 – Coincidências

Alguns dizem que o Destino é um caminho, e ele que já está traçado desde sempre. Outros dizem que nós mesmos o traçamos… Pra mim, Destino é o inimigo do Quarteto Fantástico, mas pode ser também aquele cara famoso por nos mostrar a matéria prima e deixar que escolhamos o que fazer com ela. Você volta da padaria com uma sacola cheia de pães quentinhos quando percebe que em sua direção está vindo aquela garota linda ao qual você era apaixonado anos atrás na escola, e o melhor: ela está mais gostosa ainda… E ai? Será que ela casou? Será que ela está namorando? Será que ela se quer lembra de você? Mas ela passa por você e nem lhe percebe. Sua chance se foi meu filho, bau bau, vá comer seus pães! O destino colocou a matéria prima na sua frente, e você decidiu ignorá-la e deixar que ela fosse embora. Quem sabe o que ela poderia ter lhe respondido se você a parasse naquele momento? E quem sabe o que teria acontecido depois?

O negócio é pensar rápido, analisar em milésimos de segundo se existe algo a perder, e abraçar a chance que lhe aparece, e no meu caso, essa chance veio dentro de uma sacola de papel velha e surrada, tão suja que deixava rastros de poeira escura em todo lugar que encostava.

Meu cunhado, aquele de 12 anos de idade que fica mais tempo aqui na minha casa do que na dele, e que ficou famoso por deletar meu save de 40 horas no Xenoblade (isso ainda dói) já havia me dito a alguns dias que um SNES misterioso havia aparecido na casa da tia dele e havia virado atração turística. Até ai tudo bem, nada alarmante a não ser o fato de ser muito legal saber que um SNES ainda tinha lenha pra queimar, só que uma dúvida rondava a casa: de onde havia vindo o aparelho? Isso meu cunhado não soube responder a princípio, mas alguns dias se passaram e uma resposta possivelmente surpreendente apareceu. Claro, ela veio junto da sacola surrada, onde dentro, repousava o tal SNES. As palavras do garoto foram as seguintes: “Sabat, a minha tia disse que esse SNES ela ACHA que comprou da Cidinha, mas ela não tem certeza. Ai eu pedi e ela me deu (sim, sou cara de pau!).”

Cidinha… Eu já havia ouvido este nome em algum lugar, e a lembrança de minha noiva recitando este nome sempre que acontecia alguma daquelas brigas com a mãe dela me caiu na cabeça como um tijolo! Sim, poderia ser, e se fosse mesmo verdade, se eu pudesse confirmar, eu estava frente a frente com o SNES que minha sogra havia vendido a bem mais que uma década atrás. Então, bastou apenas dizer a ideia que me ocorreu para que meu cunhado a aceitasse prontamente, e então, começamos uma verdadeira odisseia para reformar aquele aparelho sem que minha noiva soubesse, pois o veredicto foi que ele seria dado a ela de presente, um presente 2 em 1!

Ato 3 – Aprendizado

Começávamos os reparos sempre no inicio da tarde, e guardávamos tudo antes das 18, pois depois deste horário era perigoso a Pim chegar e pegar a gente com a mão na massa. O estado do aparelho era completamente lastimável, digno de dó, todo amarelado e pichado de canetão piloto azul (aquele que não sai nem com ácido) por baixo e por cima, tão sujo a princípio eu nem havia percebido o amarelado! Limpar tudo levou dias, foi necessário fabricar uma CHAVE NINTENDO DE CANETA BIC* para que fosse possível abrir o console e lavar a carcaça, e ao término do serviço, o aparelho estava apresentável mas… os jogos teimavam em funcionar. A gente tinha que tirar e encaixar várias vezes os cartuchos até que os jogos resolvessem aparecer na tela, e o menor encostão no console era suficiente para travar tudo e ferrar a jogatina.

*CHAVE NINTENDO DE CANETA BIC: Desde que me conheço por gente, a Nintendo utiliza em seus produtos um diabo de um parafuso que nenhuma ferramenta no mundo consegue retirar senão as próprias chaves fabricadas pela própria empresa. São os chamados Parafusos Nintendo, projetados unicamente para o propósito de nos ferrar na hora de abrir alguma bugiganga da marca. O jeito então, na hora de abrir o console para fazer aquela limpeza, tirar a tampa de caneta que caiu no vão do cartucho, remover o corpo daquele bixo morto, ou Deus sabe mais o quê que seja necessário arrancar a tampa do bendito, é liberar o engenheiro que existe dentro de você: pegue uma caneta Bic, retire a carga e deposite-a na orelha. Aqueça no fogão a ponta do cilindro acrílico que envolvia a carga, e depois que ele estiver relativamente mole, pressione-o sobre o parafuso e espere alguns segundos para que a gambiarra seque e endureça. Agora gire lentamente o cilindro: pronto, sua Chave Nintendo de Acrílico está pronta e já retirou o 1º parafuso! Não entendeu? É simples: o acrílico seca e fica com a exata forma da cabeça do peculiar parafuso, restando agora apenas encaixá-la cuidadosamente nos demais e ir retirando um a um. Isso sim é sabedoria popular! E já pode tirar a carga da caneta da orelha (se você a colocou lá, considere-se bem burro! kkkkkk).

Resolvi mais uma vez abrir o console para ver se o encaixe do cartucho poderia estar com folga ou quebrado, mas não, o material estava intacto! Poderia ser mesmo então apenas um mau contato monstruoso? A resposta é SIM caros amigos!
Fiz uma busca na internet com os termos limpeza de contatos eletrônicos, e cheguei a um milagroso SPRAY LIMPA CONTATO* muito utilizado na manutenção de placas de computador, e que de acordo com a fonte, podia ser encontrado em lojas de material elétrico. Saí imediatamente atrás do produto, e o encontrei na primeira loja que entrei! Resultado: uma boa baforada do spray no slot do console, e outra no cartucho, e eu podia levantar o conjunto todo segurando só pela fita e chacoalhar que o jogo não travava mais!

*SPRAY LIMPA CONTATO: Se eu pudesse, eu mudaria o nome dessa belezura para Spray Concerta Videogame! É uma maravilha de produto de ação rápida que limpa e desoxida contatos eletrônicos, e basta uma aplicada para que você não precise NUNCA MAIS dar aquelas assopradas cheias de baba nos cartuchos para que eles funcionem, a mesma baba que veio oxidando suas fitas e aparelhos por todos estes longos anos. Já parou para pensar nisso? Se seus aparelhos hoje estão oxidados, com aquela crosta azul onde deveria estar bronze, credite isso a sua baba! Recomendo muito a compra, é barato e resolve! Limpei todos os meus videogames e todos eles apresentaram melhoria total no contato, até o N64, que eu acreditava estar quebrado.

Videogame limpo e funcionando perfeitamente, o primeiro estágio da nossa missão estava finalmente terminado, agora começava o segundo: deixar aquilo tudo com cara de presente, e a palavra AMARELO não combinava muito com isso quando o assunto era Super Nintendo. Sim, o negócio estava bem amarelado, e como se não bastasse isso, dava pra se notar nitidamente que os locais onde repousavam os traços de canetão piloto acabaram conservando a cor original do aparelho, e o resultado ficou próximo de uma zebra amarela e cinza. É, tava feio…

Assim resolvemos testar todas as mandingas e poções mágicas presentes na internet que prometem trazer a cor original de seu Super Nintendo de volta e… esqueça, é tudo balela. Água oxigenada, Easy Off, Álcool isopropílico… Sabem o que isso tudo faz? Eles limpam as coisas, que é a função para o qual tais produtos foram concebidos. Alguns limpam sujeira mais pesada, outros deixam as morenas loiras, e nada mais.

O seu SNES está amarelo? Conforme-se, pois o único jeito de resgatar a cor natural dele é lixando, e isso acabará com a textura da carcaça. Solução cabível: encontre um SNES quebrado com a carcaça boa e troque! Simples? Não, de jeito nenhum, achar um SNES quebrado disponível é tão difícil quanto achar um funcionando, ainda mais com um feriadão se aproximando para fechar o comércio por 4 dias, e trazendo junto dele, o 4º Encontro da Comunidade Mega Drive.

Ato 4 – Fusão

Deixar o SNES o mais apresentável possível era objetivo primário, e se eu não podia fazer milagre quanto à cor da carcaça, pelo menos uma caixa eu deveria tentar arrumar né! Assim comecei a contactar o pessoal retrogamer da internet em busca de uma embalagem para o aparelho, e esta parte da tarefa se resolveu até que surpreendentemente rápido!
Meu amigo e colaborador do Retroplayers, o @TH, me disse ter uma caixa de SNES que serviria para o propósito, e ele me traria a dita cuja no dia em que havíamos marcado de ir para o 4º Encontro da Comunidade Mega Drive, que aconteceria no sábado próximo.

Melhor ainda me saiu aquela semana quando contei a minha saga para o @Celso “Defenestrador” Affini, um dos cabeças por trás da Comunidade Mega Drive. Se o cara é o maior hater da Nintendo que eu conheço, seu caráter é excelente na mesma proporção, um grande amigo que eu encontrei nessas andanças virtuais que nós blogueiros estamos acostumados a fazer. E não é que o furioso seguista tinha uma caixa inteirinha e em excelente estado, com isopor e tudo, e estava prestes usá-la como oferenda em uma fogueira noturna onde @MestreChronos recitaria pragas e maldições ancientes contra a ex-eterna grande rival da SEGA? Ainda bem que ele achou mais proveitoso me ceder o material em prol do cumprimento da minha nobre missão. Hã? O que ele tacou na fogueira aquela noite no lugar da caixa? Ué… Eu é que vou saber?

E chegava então o dia do 4º Encontro da Comu do Mega, realizado em Jundiaí a algumas semanas atrás. Como prometido, o TH veio até a minha casa naquele dia juntamente do @Edwazah, o mais novo fã de The Legend of Zelda que eu conheço, e trouxe a caixa que ficou dentro do porta malas do carro para que não houvesse nenhuma chance da minha patroa vê-la antes do tempo.

E no evento foi o momento de rever os amigos, jogar videogame, participar de mini-eventos, esquecer um pouco daquela tarefa exaustiva que estava consumindo boa parte do meu tempo… e pegar a caixa com o Celso para lembrar de tudo de novo! Só que um imprevisto conhecido pelo nome de “carro lotado” impediu que ele levasse a caixa para o evento, e o jeito foi eu me aventurar junto do TH até a casa dele no caminho de volta para retirar pessoalmente a bendita. Só que o mapa que o desgraçado desenhou em nada lembrava um mapa de trânsito… Parecia mais com uma árvore seca velha do que qualquer outra coisa, e a gente foi parar no galho mais longe e errado possível…

Solução: caminho de volta até a casa do TH + Google Maps = Casa do Celso! E o trabalhão valeu a pena: a caixa estava intacta, linda e completa, e eu me sentia um afortunado em salvá-la de um triste fim nas mãos do terrível Defenestrador. Assim, decidi ficar com a caixa do Celso no lugar da do TH, que deixei lá pra ele e… Puts, acho que descobri o que foi que ele queimou na fogueira

Naquela noite, montei o aparelho na caixa depois que a Pim hibernou. Ficou muito bom o conjunto, uma fusão perfeita de materiais que fomos ajuntando aqui e ali. Eu estava satisfeito.

Agora eu precisava entregar, e fazer a minha noiva reencontrar aquele sorriso de criança que só um videogame bem nostálgico (ou um ursinho de pelúcia bem caro) conseguiria fazer aflorar no rosto da minha garota. Estava tudo correndo bem.

Ato 5 – Imprevistos

Domingo, início da tarde, eu e minha senhora estávamos vendo móveis pela internet para nosso apê que está prestes a nos ser entregue (viva!!) quando o TH entra no MSN e nós dois começamos a bater papo. A frase que seguiu é algo que ele mesmo não vai gostar de lembrar e nem eu, mas que eu me sinto na obrigação de contar, pois sem ela, a história perderia muito do que me levou a tomar outros caminhos e decisões.

A Lei de Murphy diz que se algo tiver a mínima chance consciente de dar errado, dará errado, e não adianta planejar nada se esta probabilidade mínima de fracasso não for completamente sanada e extinguida. Eu senti isso na pele quando julguei que o meu grande amigo não tocaria no assunto naquela tarde enquanto minha noiva olhava  atentamente para o PC… Murphy seu desgraçado de uma figa!

Sim, o TH tocou no assunto e a Pim viu. Tentei fechar rapidamente a janela da conversa, mas eu não fui ninja o suficiente e ela pôde ver meus movimentos… Eu não podia acreditar que a minha grande surpresa estava indo para o vinagre. Escutei ela perguntar: “Você vai me dar um Super Nintendo??” e quando olhei o seu rosto, um sorriso tão grande que quase dividia a cara dela em dois havia aparecido, e foi nesse sorriso que eu me segurei para não chorar de frustração.
Contraste medonho: minha noiva rindo e dando pulinhos de alegria, eu e o TH quase chorando. Sim, o cara se culpa até hoje pelo deslize que eu deixei ele dar por que não avisei logo de cara que a Pim estava junto comigo… A culpa é mais minha do que sua meu amigo!

Decidi então não planejar mais para não correr o risco de sofrer mais imprevistos. A minha ideia original era entregar o presente na Segunda ou Terça lá no encontro Mega Drive para que esta fosse então uma ocasião inesquecível, fosse pela emoção da entrega, ou pela vergonha que a Pim iria passar. Mas apesar do trunfo que eu ainda tinha de ela não saber da procedência do console (coisa que certamente causaria uma bela de uma surpresa), eu decidi que precisaria compensar a falta do elemento “desconheço o que se passa”, e para isso, resolvi aproveitar a Segunda Feira para ir até a Loja do Tiuzão, uma caverna ali no Bairro do Limão onde reside um senhor que faz vendas, rolos e trocas de mercadorias retrogamer que certa vez a @Ritalinando me apresentou.

Aproveitei que a Pim tinha compromissos estéticos para aquele dia de manhã, peguei meu cunhado, e debaixo de uma chuva monstruosa, nos dirigimos até a caverna com o nosso SNES amarelo hepatite, 3 controles e um punhado de jogos piratas. O bom de fazer negócio no overword é que o preço das transações nem de perto é alto como o do comércio do centro da cidade, e passa longe de ser tão burocrático quanto: bastou eu fazer umas propostas e em alguns minutos, o Tiuzão voltou do fundo da caverna com uma dúzia de consoles SNES quebrados para que eu escolhesse um. E foi difícil, estavam tão sujos que mau dava para ter certeza do estado em que se encontravam, e o mesmo digo para o chumaço de controlpads que ele me trouxe. No final das contas, saí de lá com uma carcaça e 3 controlpads em bom estado de conservação e cores intactas, um monte de jogos, um cabo de SNES e uma fonte originais, e menos 60 pratas na carteira. Negóção!

Ato 6 – Redenção

Dúvida: ir ou não ir no último dia de Encontro da Comunidade Mega drive? Aquela 2ª Feira terminou tarde, e foi exaustiva demais. Chegamos na minha casa a tardezinha, e independente de ir ou não para Jundiaí no dia seguinte, uma coisa eu queria fazer: terminar o serviço, tanto por que se eu resolvo ir, no mínimo o aparelho teria que estar pronto!

Assim eu e meu cunhado começamos novamente uma maratona desesperada para lavar aquele monte de carcaças sujas para depois trocá-las pelas outras amareladas que virariam lixo, e quando terminamos, era tarde da noite. Claro, estávamos na cozinha fazendo isso, ao alcance dos olhos de qualquer um que quisesse presenciar a manutenção, inclusive, a futura dona. Mas ela não apareceu… provavelmente por saber que nós nos sentiríamos melhor se ela não visse nada mesmo sabendo do que se tratava. O resultado final superou todas as minhas expectativas: o SNES ficou lindo, como novo, só faltou manuais e saquinhos plásticos!

Quando coloquei tudo aquilo dentro do isopor branquinho, tudo amarradinho, com o cartucho Super Mario AllStars (que eu ganhei da @Ritalinando num dia em que eu ressuscitei uns computadores dela) devidamente colocado no espacinho destinado a ele e finalmente fechei a caixa com a lingueta de papelão, eu segurei o pacote com os braços como se fosse um filho, e me senti como se nunca tivesse me desfeito daquele SNES que eu um dia tive… por uns 15 dias mas tive!

Nessa altura do campeonato o São Paulo já não tinha mais chances de merda nenhuma no Brasileirão, e a Pim estava no meu quarto sentada no PC, talvez mais ansiosa para receber o seu presente do que nós estávamos para dar o dito cujo. Eu estava realmente cansado, mas com uma gostosa sensação de ter finalmente ajeitado as coisas, de dever cumprido. Por fim, a fadiga me fez desistir de ir até Jundiaí, então dei a caixa na mão do meu cunhado e disse pra ele “pode entregar, foi você que conseguiu ele de volta”. Eu sou um cara legal ou não sou? O pequeno vagabundo deletou meu save de 40 horas do Xenoblade e eu ainda deixo para ele as honras da entrega do presente.

Fomos até meu quarto, a caixa nas mãos do meu cunhado, minha noiva olhou e abriu novamente aquele sorrizão enorme, e ele entregou o pacote dizendo: “Pim, a gente não tem certeza absoluta, mas a gente trabalhou tanto nesse videogame por que a gente acha que ele é o SEU Super Nintendo que a mãe vendeu” (sim, ele disse com todo esse monte de “a gente”). Os olhos dela brilharam, ela abraçou a caixa como se fosse o tal ursinho de pelúcia daqueles bem caros, abriu devagarzinho, e então passou o restante do dia jogando Donkey Kong Country.

Ato 7 – In a Galaxy far, far away

No dia seguinte eu já havia recebido todas as recompensas possíveis, mas a maior delas foi ver minha garota jogando novamente igual uma criança na frente da TV. O repertório de jogos conta até agora com Goof Troop, Donkey Kong Country, Super Mario AllStars, e Super Mario World 2, mas quero aumentar essa cota com mais algumas macacadas, bigodadas, e quem sabe, umas derrapadas em um Top Gear, o jogo que ela mais gostava de todos os de SNES que existem. Quem sabe eu consigo um? E claro, o aparelho é um presente meu e meu cunhado para ela, mas como a gente está pra casar em comunhão de bens, o SNES obviamente será um pouquinho meu também né, mas ela não precisa saber disso ^^ .

Se era realmente o videogame dela ou não? Não sabemos, nem tem como saber, mas nossos estudos póstumos revelaram que existem boas chances também de ser o aparelho de um primo dela, um rapaz muito legal que infelizmente faleceu vítima de um câncer quando eu ainda estava no início do namoro com ela, mas nem por isso o aparelho seria menos querido: ela jogava sempre com este primo, moravam no mesmo quintal, e para ela seria uma honra tomar conta do SNES do velho Augusto, que está ouvindo agora o bom e velho Rock ‘n Roll ao lado do primeiro hippie da história, Jesus Cristo.

Acho que depois dessa fiquei uns 100kg mais leve, sendo uns 97 destes, relativos só ao peso que eu levava nas costas desde que me desfiz daquele Playtronic série DKC… Já esses outros 3 kilinhos que faltam eu recupero no Burguer King.

.

Mais do que nunca, quero agradecer a todos os amigos que tornaram possível para mim viver e contar essa longa e enrolada história, todos vocês foram importantes em cada um de seus atos, quer tenham gostado de participar ou não… Viu TH?!?! kkkk
Um abraço especial para todos.

Fim


Sobre Sabat

Dono, Chefe, Gerente, Cara da Xérox e Tia do Café do RetroPlayers! Meu negócio? Falar sobre games. Como? Escrevendo meus trabalhos, gravando minha voz horrível, ou filmando minhas humildes proezas! Onde? Aqui, ali, ou onde quer que me chamem!
Adicionar a favoritos link permanente.