Crônicas Gamísticas – Livros e Videogames: o segredo para ter várias vidas

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“Aquele que conhece a arte de viver consigo próprio ignora o aborrecimento.” — Desiderius Erasmus


Hoje, se me questionassem que desperdicei parte de minha vida confinado em quatro paredes ao invés de aproveitá-la de qualquer outra forma — uma vez que estive sustentando dois hábitos: jogar e ler —, decerto responderia que o maior pecado da vida não é a propensão a hábitos solitários, mas a incapacidade de enxergar além de uma barreira mental.

É claro que a vida não se resume somente a jogos e livros, e seria um misantropo se considerasse o contrário. A questão é que para cada pessoa existe uma categoria de prioridades inerentes ao bem-estar, sejam elas quais forem.

Pois é, eu sei que já estou fugindo um pouquinho do conteúdo habitual do site, mas a pergunta que estou ouvindo agora é: “Cara, onde diabos entram os jogos antigos aqui?”. Afinal, disso não dá para fugir aqui — e nem quero —; mas dentro do universo tangível pensei em arriscar uma analogia humilde, ao menos com base na minha própria experiência com essas coisas. Em que medida videogames e livros se complementam ou se correspondem? Qual sua importância em nossas vidas como forma sábia de escapismo?


“Quem tem bastante no seu interior, pouco precisa de fora.” — Goethe


Sendo um garoto criado em um apartamento em uma “cidadezinha” como São Paulo, posso dizer que não tive muitas oportunidades de atividades ao céu aberto. Então já imaginam: brincadeiras como jogar futebol, empinar pipa e andar de bicicleta não faziam parte do meu dia-a-dia. Por outro lado, fui criado em um ambiente rico em cultura e atividades em um espaço bem limitado fisicamente. Digamos que leitura e jogos (fossem de mesa ou videogames) estavam entre minhas principais distrações quando criança.

Com a morte do meu pai seguida de problemas financeiros, tive que me mudar para uma cidade do interior, mas esses hábitos continuaram a me acompanhar com veemência. Claro que no começo tive muitos problemas para me adaptar, principalmente enfrentando a disparidade do mundo de crianças que foram criadas em ambientes fisicamente mais liberais do que o meu, não sendo raro sofrer preconceito e ser excluído do convívio social com outras crianças. A forma de compensar era chegar em casa e fugir para mundos imaginários, onde eu podia ser o personagem que eu quisesse, no mundo que eu quisesse.

Em pouco tempo, tive a sorte de conhecer um dos caras mais legais que passaram pela minha vida; ele me apresentou ao famigerado RPG de Mesa, e nem preciso dizer que foi uma das descobertas mais fantásticas da minha juventude. Até esse momento, o mais próximo que havia chegado de fantasias do gênero tinha sido quando li uma adaptação de O Rei Arthur e Os Cavaleiros da Távola Redonda e HQs do Conan, ou em jogos como Phantasy Star e The Legend of Zelda. Ah sim, juntamente ele me introduziu ao gênero musical refinado que tanto amo: o Heavy Metal — afinal, ser RPGista e headbanger era tão obrigatório quanto queijo e bacon. Além de morar em um dos lugares mais nobres da cidade, a casa desse meu jovem amigo afoturnado era um paraíso nerd, do qual tive acesso a um acervo de discos (sim, discos, MP3 ainda engatinhava) e HQs de dar inveja a qualquer adolescente da época. Bom, eu não tinha dinheiro mesmo, e vamos dizer que ele era tipo aquele amigo rico e legal o bastante para te emprestar tudo o que você não podia ter.

Aaahh memórias… Quantas partidas intermináveis de AD&D com meu bárbaro sósia do Conan, quantas brigas de taverna e aventuras por calabouços repletos de armadilhas, monstros e tesouros, e às vezes até rolavam umas donzelas gostosonas. Nessa época entrei de cabeça nesses mundos fantásticos, e quando não estava jogando RPG de Mesa, estava jogando Magic (que no meu caso foi só uma febre rápida), assistindo filmes ou lendo. Sair de casa? Só se fosse para pegar jogos de SNES e PS1 — já que era a única coisa que eu pegava mesmo, se é que me entendem. Enfim, já deu para perceber que tentar fugir da realidade era a minha principal ocupação na juventude.

Resumo da minha adolescência

Minha mãe e provavelmente as pessoas que me conheceram não me achavam um jovem muito dentro dos padrões. Foram muitas as almas que tentaram me mudar ao longo dessa vida, mas querem saber se me arrependo de algo? Pelo contrário, tenho muitas memórias boas dessa época. Viajei mais do que muitos imaginam, me aventurei por terras mais distantes e quiméricas do que muitos sequer conseguiram criar em suas mentes. Ora, eu era apenas um jovem taciturno.

Com a idade, as responsabilidades e a experiência de morar sozinho, naturalmente fui deixando de lado as atividades mais sociais (as poucas que eu tinha); e logo os livros e videogames viraram companheiros mais frequentes. Mas a maturidade funciona de uma forma curiosa em algumas pessoas, e no meu caso, conforme os anos passavam a balança que pesava para o lado dos videogames foi pendendo para o lado dos livros. Hoje posso dizer que enquanto as páginas da vida andam cada vez mais escassas, as de papel são cada vez mais abundantes. Seria uma profanação ou uma metáfora muito ruim?


“A imaginação muitas vezes conduz-nos a mundos a que nunca fomos, mas sem ela não iremos a nenhum lugar.” — Carl Sagan


Os videogames entraram em nossas vidas com a simples função de proporcionarem diversão rápida e descomprometida. Com o tempo, foram abandonando a casualidade de simples passatempos e alcançando a maturidade de criar histórias fantásticas, tramas complexas e personagens marcantes. Mas o que seriam desses elementos se não fossem pelos mundos criados por sonhadores e visionários que passaram por esse mundo? Mentes formidáveis que deixaram palavras para inspirar e libertar gerações, criando mundos imaginários e situações extraordinárias, e muitas vezes fazendo uma analogia com a própria natureza da humanidade. Os videogames devem muito aos livros; eles podem complementá-los, mas jamais vão substituí-los.

Se arriscarmos uma correspondência, provavelmente muitos jogos antigos (ou com cara de antigos) são análogos no que dizem respeito a alguns estímulos alcançáveis somente pela leitura. O motivo principal é simples: gráficos limitados obrigam-nos a exercitar a imaginação e a criatividade de modo muito mais intenso do que jogos que cospem gráficos mirabolantes, prontinhos para serem degustados sem o menor esforço. Não obstante, com outros ingredientes como uma história bem bolada, uma narrativa cativante e personagens fortes, ainda temos a receita para uma aventura de alta qualidade, mas a harmonia desses elementos com a simplicidade visual pode ser muito mais aditiva. Claro, isso não é uma regra, e muitos jogos não precisam necessariamente dessa fórmula para serem divertidos; mas você conseguiria imaginar um RPG decente na mesma situação? Um jogo com substância é um jogo que alcançou a maturidade.


“Não há melhor fragata que um livro para nos levar a terras distantes.” — Emily Dickinson


Não podemos esquecer que os primeiros jogos que ousaram a sair da simples diversão casual para focarem em propostas mais sérias surgiram nos PCs. Poderíamos traçar uma linha desde jogos como Zork, ou seja, simples aventuras em texto sobre uma tela preta, e já temos uma base para entender as possibilidades dos jogos eletrônicos em simular experiências de imaginação parecidas com os livros. De gráficos nulos esses jogos evoluíram para expoentes como King’s Quest, Maniac Mansion, Snatcher, Monkey Island, Myst e tantos outros. Em outras frentes os micros atacaram com jogos influentes em temática e jogabilidade, é só pegarmos exemplos como Ultima, Alone in the Dark, Fallout, Elder Scrolls e Half-Life, e temos uma pequena amostra não só de excelentes jogos, mas jogos com histórias envolventes.

Os consoles demoraram um pouquinho mais para atingir a maturidade dos computadores, mas logo conseguiram não só alcançá-los, como em muitos casos superá-los. Delinear um antagonismo entre essas máquinas era tarefa fácil quando os jogadores de cada lado tinham diferenças gritantes, mas hoje isso é quase inexistente. Vários jogos tiveram papel fundamental nessa revolução: The Legend of Zelda e Ys levaram jogadores para mundos inexplorados de pura aventura e fantasia, enquanto Dragon Quest e Final Fantasy uniram o romance e a técnica com esmero. Metroid e Castlevania foram de jogos que dependiam somente da mecânica e apostaram em tramas mais complexas. Resident Evil e Silent Hill provaram que jogos de horror podiam ser tão bons e assustadores quanto seus ancestrais de PCs. No final da frutífera década de 90, Metal Gear Solid e Shenmue levaram os jogos de consoles a novos patamares cinematográficos.

Partindo de tantas inspirações, muitas mentes puderam ver suas ideias ganhando vida, e com tantas criações fantásticas que pudemos testemunhar, tivemos argumentos suficientes para rebater as velhas críticas em torno dos videogames. Ainda assim, muitos esqueceram ou desprezaram um fato: de que os videogames devem ser aliados dos livros. A demanda crescente pelo apelo sensorial tem a sua parte da culpa, porém há outras variáveis em jogo. O fato é que as pessoas leem cada vez menos livros, mas sempre há um antídoto para este veneno.


“Um único sonho é mais poderoso do que mil realidades.” — J. R. R. Tolkien


Você sabia que a história de The Legend of Zelda foi criada graças à paixão de Takashi Tezuka por O Senhor do Anéis? E aliás, se não pela fosse pela imensa capacidade imaginativa e fantástica de J. R. R. Tolkien, o que seriam dos RPGs? De suas obras tivemos Dungeons & Dragons e então Ultima, Wizardry e suas proles. Jogos de terror e suspense são realmente difíceis de imaginar sem a inspiração das obras assustadoras de Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft, Bram Stoker (se considerarmos Castlevania) e outros mestres do horror. Se não fosse pelo clássico de ficção científica Duna de Frank Herbert — que também inspirou Star Wars — talvez não teríamos Dune II, o pai do estilo de estratégia em tempo real que conhecemos hoje, como os populares Warcraft, Command & Conquer e StarCraft. O venerado Half-Life teve várias de suas ideias tiradas do conto O Nevoeiro de Stephen King, e aliás, não tem como negar que Half-Life 2 foi fundo no visionário 1984 de George Orwell. Mundos distópicos e temáticas cyberpunks que foram mostrados em precursores como Snatcher, Shadowrun e System Shock não seriam possíveis sem as influências de Philip K. Dick e William Gibson, respectivamente, com livros como Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (que gerou Blade Runner) e Neuromancer (que gerou Matrix). Ufa… dava para escrever um artigo só sobre isso, mas já deu para passar um pouco das influências que os livros tiveram na história dos videogames.

Ainda hoje, os livros continuam exercendo forte influência nos jogos. Alguns exemplos modernos de sucesso como as séries Tom Clancy, Halo, BioShock, The Witcher e Assassin’s Creed foram inspirações e adaptações de grandes sucessos da literatura. Muitos deles tiveram até livros publicados inspirados nos jogos; ou seja, livros que viraram jogos que viraram livros — acreditem, isso já é mais comum do que imaginam. A literatura transforma e é transformada, suas possiblidades são imensuráveis.


“Falta de tempo é desculpa daqueles que perdem tempo por falta de métodos.” — Albert Einstein


Você tem vontade de ler mas está sem tempo? Olha o que o cara aí em cima disse, hein. Acho improvável que alguém passe tanto tempo ocupado que não possa parar 10 minutos por dia para isso. Se aquela horinha de relaxar é sagrada para jogar um pouco de videogame, sem problemas, é só reservar alguns minutos dela para ler. Garanto que é um esforço que vale a pena, e os benefícios são muitos. Com o tempo, aqueles minutos podem tranformar-se em horas de leitura.

Para muita gente, não é uma tarefa fácil fugir da barreira mental que nos impomos diariamente; isso pode ser causado por muitas coisas: comodismo, desânimo e o uso tão comum de subterfúgios são as principais. São coisas que vão surgindo aos poucos, têm caráter tímido e vão agindo lentamente, assim vamos sempre empurrando-as como se não fossem nocivas, e quando nos damos conta já estamos completamente dominados. A notícia ruim? Ficamos presos ao universo trivial, enfadados pela falta de estímulos, acondicionados a uma visão limitada do que nos cerca. A notícia boa? Isso tudo tem cura: os livros e os videogames podem ser ferramentas para nos libertar se utilizadas com sabedoria. Mas os bons e velhos livros, ah… esses sim são a pura libertação.

Quer uma dica? Olha só esse infográfico aí embaixo. O mais difícil é saber por onde começar!

Digo que é comum encontrar pessoas preocupadas com o que ainda não puderam fazer na vida: não ter um emprego melhor, o último celular, a roupa da moda, o carro do ano, o último videogame, sair à noite, viajar; seja lá o que for. Bom, a minha maior preocupação é o que ainda não pude ler na vida, ao mesmo tempo que fico feliz em saber quantos livros bons ainda me esperam. Eu também não tenho tempo… para ficar aborrecido com o resto.

Os videogames e os livros sempre foram a minha forma de escapismo, e sempre serão. Quando aliados com sabedoria, você nunca estará sozinho, esmorecido e ultrapassado — retrogamer sim, retrógrado não! Se na vida você passou mais tempo tentando passar para a próxima fase ou para o próxima página: parabéns, há grandes chances de você ser uma pessoa muito mais interessante.

Eu vivi várias vidas. E você?

Sobre Sir Kao

Veterano da Terceira Guerra Mundial de Consoles, enlouqueceu e passou a viver recluso em um abrigo subterrâneo, de onde faz análises de RPGs remotos utilizados em treinamentos militares.
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  • Rubinho

    Eu nunca li uma linha quando criança, nem quando adolescente. Hoje sou um leitor diário, principalmente de romances. Minha formação em matéria de jogos eletrônicos foi nos arcades. Video game, em casa, joguei muito na fase áurea do nintendinho, super nintendo e playstation. Hoje não tenho mais console. Perdi muito do interesse. Gosto mesmo de jogo velho. Sempre existiu, e existe ainda, alguém sempre disposto a lhe dizer o que é bom, com base na moda atual. A guiar seus gostos, seguindo as tendencias momentaneamente vigentes. Eu presto atenção em tudo que é novo, e escolho o que me parece interessante para dedicar o meu tempo. O que não posso apreciar é a futilidade do conteúdo mostrado ao publico de hoje.
    Bom texto, parabéns.

    • Sir Kao

      Opa Rubinho. Sempre acho bacana quando vejo alguém que começou a ler na vida adulta e adquiriu mais que um hábito: um prazer. Nunca é tarde para descobrir os mundos que só os livros nos levam.

      Quanto aos jogos recentes, realmente, existe muito coisa de baixa qualidade com excesso de apelo visual. O melhor é não se render ao marketing agressivo e apostar em boas propostas. Hoje existem vários jogos indies quem valem a pena nesse sentido.

      Obrigado perlo comentário!

  • Ivo

    Primeiramente queria parabenizar por esse incrível texto Kao.

    Parabéns, foi sem dúvida um dos melhores textos de games que li nos últimos tempos. Achei fantástica sua passagem por sua história, livros, games, ligações de livros e games, passagem da histórias delas na própria história dos games, sua visão de ler livros e PRINCIPALMENTE a última parte sobre tempo e que como nos preocupamos com certas coisas e não outras.

    Tenho muitas similaridades com você em questão de leitura e videogames. São grandes paixões minhas desde criança…. HQ´s, revistas de videogames, revistas informativas, mangás me envolveram por muito tempo na minha casa.

    Essa “preocupação” que citou no final me seguiu por muitos anos, até que certo momento me encontrei em tal situação que ler era a melhor forma de deixar essas “preocupações” de lado… e quando percebi…. estava me perguntando onde tinha parado esse questão de leitura? E lá estamos lutando para vencer essa “barreira mental” misturado com as “preocupações” que citou.

    E não sei se você chegou a ver a notícia… mas vai ser lançado um livro sobre “guerra de consoles dos anos 90´s”. Tá aê uma leitura que adoro! História dos games!

    Novamente parabéns pelo texto Kao. Fico feliz toda vez que vejo um texto que começa descompromissado, atingi a gente, faz a gente imaginar e lembrar de certas coisas e quando terminamos… ficamos perplexos com a profundidade dele e ainda mais quando falamos de leitura.

    Espero que ele atinga mais pessoas assim como eu´s.
    Grande Abraço.
    Ivo.

    • Sir Kao

      Grande Ivo! Poxa eu fico feliz mesmo que tenha lido e gostado bastante do meu texto, ainda mais com elogio desses, uau! Na verdade eu estava com receio de lançar algo assim, bem diferente do que costumo fazer.

      Muito legal que você também tenha esses gostos desde criança. Sabe, a leitura realmente me ajudou em vários momentos complicados da minha vida. Ainda hoje é um refúgio muito importante para mim.

      Eu vou procurar esse livro, também gosto muito de ler sobre a história dos jogos, acho que tem tanta coisa boa que podemos aprender com ela para complementar a paixão por videogames. Valeu pela indicação!

      Mais uma vez agradeço Ivo. Eu queria muito que — assim como foi com você —, esse texto se aproximasse dos leitores e deixasse uma mensagem para “matutar” no final. Quem sabe eu consiga isso. =)

      Abração!

  • Ótimo texto Kao.Observe que os autores que você citou são basicamente autores da cultura ocidental.Mesmo os japoneses,que pertencem ao “país dos videogames”,mesmo eles,usam e abusam da cultura ocidental para dar argumento,roteiro e motivo a diversos games.E quando os japoneses fazem games tipicamente japoneses,existe uma forte tendência de serem consumidos apenas lá.Isso explica a enorme quantidade de games lançados todos os anos por lá que nunca foram traduzidos para o inglês.
    Não consigo imaginar os games,novelas,TV,rádio,jornal e as artes em geral sem a presença marcante dos livros na mente desses artistas.
    Gosto muito da frase do Keynes e do Bill Gates sobre o tema:

    “As ideias dos economistas e dos filósofos políticos,seja quando estão certos ou errados,são mais poderosas do que geralmente se imagina.Na verdade o mundo é governado por poucas coisas mais.Os homens de ação,que acreditam estarem eles próprios totalmente livres de qualquer influência intelectual,são geralmente escravos de algum economista morto.”
    John Maynard Keynes

    “É claro que meus filhos terão computadores, mas antes terão livros.”
    Bill Gates

    • Sir Kao

      Opa Ulisses, muito obrigado! Você tem toda razão. Os japoneses inspiraram-se muito na cultura e literatura ocidental para criarem o plano de fundo de tantos jogos. No geral, é praticamente impossível não encontrar uma referência que já existia no papel há muitos anos atrás. Por isso a grande importância dos livros em todas as áreas.

      Ótimas citações! “Clap clap clap!”. Esses caras só provam o quanto a sabedoria e a execução (com boas intenções) foram importantes na nossa história. Acho que dentro dessa ideia vale a pena mencionar o clássico Fundação de Isaac Asimov, onde basicamente a salvação da humanidade depende de pessoas que dominaram alguma área do conhecimento intelectual. 😉

  • Lucas Bastos

    Sir Kao, seu texto ficou esplendido, talvez um dos melhores que já li neste blog. Concordo com você em relação a tudo que foi dito, e percebo que particularmente estou entrando na fase de me dedicar mais a leitura do que aos games, no entanto, acho que ainda tenho muitos e muitos games a finalizar e a explorar o melhor que eles podem oferecer, não apenas pela diversão, mas particularmente pelo bom trabalho que é feito em grande parte deles, na disponibilização de boas histórias com ótimas dinâmicas de completa imersão em universos paralelos que propiciam experiências fantásticas que jamais poderão ser experimentadas no plano real.

    Fico feliz por saber que existem pessoas com perfil bem semelhante ao meu, e que além de tudo consegue passar com maestria a experiência adquirida na leitura/jogatina.

    Mais uma vez, parabéns pelo artigo.

    • Sir Kao

      Oi Lucas. Poxa agradeço muito! Ah sim, os videogames muitas vezes não ficam devendo tanto aos livros em questão de história e ambientação. Existem vários casos que podem sim ser considerados extensões da literatura, já que conseguem transmitir a mesma dinâmica como pano de fundo. Acho que o mais importante é conseguir se sentir transportado, à parte de toda a ação e gráficos que fazem de tudo para nos render. Caramba, às vezes parece um assalto: “Parado aí cara! Me dê a toda a profundidade e tome gráficos e ação frenética!”.

      Bacana Lucas, Se você sentiu isso, então consegui atingir meu objetivo! Não tem nada mais gratificante quando um leitor se identifica com as experiências e a mensagem que o seu texto tenta passar.

      Muito obrigado! =)

  • Heider Carlos

    Gostei do texto. Comigo aconteceu o contrário. Quando criança era um leitor assíduo, lendo pelo menos 4 livros por semana (2 da biblioteca da minha escola, 2 da biblioteca municipal). Li várias coleções completas (Vagalume, Sítio do Pica-Pau Amarelo, etc).

    Hoje em dia o hábito se dividiu. Na época eu não tinha acesso a muitos jogos, desenhos, hqs, séries e filmes. A internet popularizou as coisas de um jeito maluco, né. Bem, hoje em dia eu leio bem menos do que antes. Mas ainda gosto de ler.

    A minha maior paixão sempre foram livros de fantasia. Eu inclusive tenho esta edição de Senhor dos Anéis da primeira imagem, mas nunca descobri quem era o pintor da capa :/ Aprendi a diversificar mais, e leio livros de assuntos mais variados. Da lista que você postou li uma parte boa dos livros.

    RPGs (de livros) também são um vício antigo. Em parte devo aos RPGs minha namorada. Hoje em dia moramos em cidades diferentes, e não jogamos mais. Eu mestro uma partida de D&D 5E (que consegue ter o clima legal de AD&D e regras simples e eficientes).

    Os RPGs digitais sempre são comparados a livros, mas para mim o estilo que chega mais perto são os adventures point & click. Tem um chamado The Night of the Rabbit que é sensacional para quem gosta de livros como O Leão, o Guarda-Roupas e a Feiticeira. Acho que por não precisarem de se preocupar em focar no combate dá pra ter personagens e ambientes bem mais variados para interagir.

    O melhor livro de fantasia que li nos últimos anos foi O Nome do Vento, do Patrick Rothfuss. Deixe na sua lista, garanto que não vai se arrepender.

    • Sir Kao

      Oi Heider, que bom que gostou. Rapaz, minha casa tinha vários livros da série Vaga-lume, eram livros excelentes, puro ouro pra crianças. Outra que eu gostava muito era a Reencontro, que tinha adaptações de títulos clássicos da literatura mundial. Será que ainda fazem livros assim?

      Olha, também leio um pouco de tudo, mas estou com você na preferência por fantasia. Eu tenho essa edição também, é muito bonita, né? O pintor é o Geoff Taylor, ele faz a arte de vários livros de fantasia. Outros que gosto muito são o Alan Lee e o John Howe, é de fazer babar o desenho dos caras!

      Muito bacana que você ainda joga RPG de Mesa. Eu acabei deixando essa página lááá na minha juventude, então já fiquei pra trás quanto aos jogos novos. Mas guardo muitas lembranças boas viu.

      Opa, eu vou colocar todas essas dicas na minha lista sim. Inclusive, o Rothfuss já tinham me indicado antes e eu já estava de olho. É sempre bom conhecer autores novos e ver o quanto esse estilo ainda consegue se renovar. =)

      • Heider Carlos

        Eu não gosto muito destas adaptações de clássicos. Alguns anos atrás fui reler Sherlock no original, e me impressionei que ele era viciado em cocaína e ópio. Muitos livros que li foram meio que censurado, e eu terei que procurar tudo de novo…

        MUITO OBRIGADO pelo nome do Geoff Taylor. Eu realmente procurei muito a respeito, mas nunca tinha achado. Adoro o Alan Lee. Tenho alguns livros dele (físicos). O mais belo é o Faeries, com o Brian Froud. Mas tenho também o Castles (foi baratinho e é imperdível para quem gosta castelos de livros de fantasia) e Goblins of the Labyrinth. O John Howe eu também adoro, inclusive amei o documentário sobre a vida dele. Acho que foi o primeiro video que baixei em full hd.

        • Sir Kao

          Olha, hoje eu também não leria essas adaptações, mas não desmereço o valor que elas têm para crianças, já que são uma forma fácil e didática de ler clássicos. Quantas crianças leram Camões? Shakespeare? Dante? Voltaire? São livros difíceis até para adultos; e todos foram adaptados. No meu caso, ler essas adaptações quando criança me incentivou a ler várias obras completas quando mais velho. 😉

          Muito legal achar mais um fã desses caras! Pode ser fácil tranformar literatura em arte, o difícil é transformar essa arte de modo que todos se identifiquem com o que leram. Acho que eles conseguem fazer isso muito bem né?

  • Meu santo… cada texto que vc posta, parece que vc melhorou insanamente. Onde vc anda upando, hein?
    Curti demais a relação entre livros e games, é tão óbvia que eu fico incomodado de nunca ter percebido. Mas a culpa é da falta de hábito de ler, que é algo horrível, tenho noção e plena consciência disso. Sim, tenho problema com livros e vc pode me esnobar (falta de termo melhor) por isso, mas é exatamente o mesmo motivo que me faz preferir ligar a TV pra jogar do que pra assistir algo: eu sempre preciso de interatividade. Eu canso de ficar só lendo ou só assistindo, por mais que a história seja incrível ou os efeitos especiais sejam sensacionais (este, claro, no caso da TV). Eu sinto a necessidade de estar participando, nem que seja apertando botão pra ler a próxima fala ou algo assim. Não sei explicar isso, de verdade. Acho que é costume por ter ficado a maior parte do tempo no videogame como escapismo e nada mais. OK, alguns devaneios, mas não conte a ninguém, combinado? Apesar que a frase “Aquele que conhece a arte de viver consigo próprio ignora o aborrecimento.” do Desiderius Erasmus meio que justifica o que estou confessando aqui… rs
    HEY! Não sou RPGista e metaleiro (embora eu tenha um amigo que jura de pés juntos que existe um metaleiro adormecido dentro de mim, por eu gostar do gênero sempre que ouço)… que fique claro que o Bacon é o RPG… ou seria o queijo? Oh, droga, eu gosto dos dois! E agora?
    Aliás, me identifiquei com muita coisa que vc contou, especialmente comparando com a minha infância. A parte da adolescência eu acabei indo pro lado social (com moderação, pq eu adorava jogar futebol mas odiava pipa e qualquer outra coisa que a molecada fazia).
    Pra mim o destaque do texto: “Os videogames devem muitos aos livros; eles podem complementá-los, mas jamais vão substituí-los.”
    Não poderia dizer uma realidade melhor. Mundos virtuais criados a partir de interpretação de histórias em livros ficam muito mais interessantes que escrita de algo que vc já visualizou. Sei lá, é o que eu penso sobre.
    Também gostei de todos jogos citados sobre a “frutífera década de 90”: perfeito! Dá pra notar influências. E hoje muitos dos novos jogos são influenciados por estes, que foram influenciados por livros. Sensacional.
    E história superar gráficos me faz gostar mais de FF6 com todo background que possui dos personagens do que do 7, que também tem a história interessante e tal, mas enfim…
    Chega de tagarelar!
    Parabéns pelo texto, Sir Kao! Arrebentou!

    • Sir Kao

      Olha o Cadu aí! Você vê, andei fazendo umas side quests malucas e deu nisso. =P

      Sabe, eu sempre tive um costume bobo mas não largo dele: sempre que alguém que conheço fala que precisa ler, no dia seguinte eu empresto um livro. Daí já imagina né, um monte de livros meus sumiram, hahahaha… Muitos nem lembro pra quem emprestei. Mas de vez em quando um devolve e fala que leu e gostou. Cara! Dá uma sensação tão boa, sei lá, é algo como achar um item raro num jogo. Aliás, não sei a sensação do outros, mas para cada livro que eu termino, é como se eu tivesse vencido 50 jogos.

      Mas eu te entendo completamente. Os videogames têm aquela mágica de nos tragarem imediatamente quando queremos nos divertir, e isso não acontece sempre nos livros e filmes. Nos videogames vários sentidos são estimulados ao mesmo tempo, não precisamos de muito esforço, além do que podemos tomar decisões. É o que você disse mesmo sobre sentirmos que estamos participando.

      Toda vez que vejo que alguém de ler meus textos inteiros já fico muito feliz, e se ainda por cima ele gostou das mensagens que eu tentei passar… nem tenho palavras. Cadu, nem se preocupe, você é um leitor nato!

      Valeu! Apareça sempre por aqui… Ah, você já é de casa né? Então faça-me o favor e apareça mais ainda! =)

      P.S.: Pra finalizar, aí vai uma das melhores coisas da vida.

  • Gle Sasao

    favoritar, favoritar, favoritar… Já deixei este post no KEEP do meu android. Muita dica boa, realmente não tem como desfrutar de todos os temas comentados, mas as referencias para os games, não sabia da metade do comentado.

    • Sir Kao

      Pois é Gle, a gente acaba ficando surpreso com o tanto de referências da literatura nos jogos que gostamos. Isso é legal porque pode funcionar de forma contrária também: eu mesmo já acabei lendo livros por gostar de algum jogo. =)

  • Luís Fajardo

    Grande texto, desde a tenra idade também fui um devorador de clássicos da literatura mundial, HQ’s Marvel/DC (Conan+Buscema RULES!!!!), boas e velhas bandas de Heavy Metal… portanto a chegada nos games foi um processo natural nesse meio que amamos tanto! Eu particularmente espero muito que os jovens não percam o hábito da leitura, como você mesmo citou, a falta de tempo não é desculpa, caso contrário ninguém terminaria Dragon Ages, Assassin’s Creeds, Final Fantasys, etc. Mas reconheço que a velocidade das atuais mídias influencia nesse distanciamento. Eu, por exemplo, só LEIO reviews e não gosto desta abundante prática de falar de games usando vídeos com comentários, mas sei que sou minoria nesse quesito e que a maior parte das pessoas que entram em um site rolam a página de uma vez para clicar no vídeo que houver… Enfim, parabéns pelas palavras e bom gosto!!

    • Sir Kao

      Opa, outro fã do Conan clássico! =)

      Concordo com tudo. Inclusive há um livro que gosto muito e vou deixar de dica: Fahrenheit 451 do Ray Bradbury. Ele retrata um futuro hipotético em que as pessoas não leem mais livros, e preferem passar seus dias em frente de paredes-televisores, alienados e anti-intelectuais. Nesse futuro, os livros são considerados uma arma contra a sociedade, e o papel dos bombeiros passa a ser o de queimar todos os livros que puderem encontrar. Se tiver interesse, o livro é de 1953, mas já fazia uma crítica que parece casa vez mais atual.

      Enfim, fico muito triste quando vejo a relutância… ou pior, o desprezo de tantas pessoas com os livros, sejam jovens ou adultos. Fico ainda mais triste em ver que os “livros” mais vendidos atualmente são tão pobres, que conseguem ter a capacidade de desinformar e emburrecer; tão prejudiciais quanto as mídias rasas. Não precisamos ir tão longe para vermos o reflexo de tudo isso no nosso país, não é?

      Agradeço pelo comentário e pelos elogios Luís. 😉