Crônicas Gamísticas do Sabat: Na real, a realidade é realmente um saco!


Consumidores, uma categoria que engloba todo o ser vivo provido de poder aquisitivo, ou desprovido, desde que possa angariar em seu benefício o poder aquisitivo alheio, tipo o seu filho quando cisma que quer o relógio caríssimo do Ben10. Consumidor é aquele que compra, ou que faz alguém comprar por ele, e quase tudo em nosso mundo está a venda, quase tudo tem um preço, e nem tudo isso é ilimitado. E a máxima do consumismo é o que move o nosso mundinho azul: compramos o que é produzido para que alguém ganhe dinheiro produzindo para gastar esse dinheiro em outras coisas que foram produzidas por outras pessoas e assim a vida segue. Nos games é a mesma coisa: alguém produz o jogo, alguém compra o jogo, e o produtor ganha dinheiro para produzir mais jogos, e assim a indústria gamística segue firme e forte em busca dos números mais absurdamente altos que a história dos games eletrônicos já viu… Não, não é bem assim que eu enxergo a realidade da coisa.

Realidade, uma palavra que lembra muita coisa: nossa família, serviço, faculdade, corrupção, violência, gente chata no Facebook achando que vai mudar o Brasil fazendo imagens bestas com deputados, nosso time perdendo o clássico, contas deslizando por debaixo da porta no fim do mês… E em tempos em que a realidade me surpreende por ainda não me obrigar a pagar conta de AR, eu nunca estive tão propenso a detestar essa entidade tão absurdamente chata e sem graça.

Claro, a realidade de cada um é diferente, alguns tem a vida mais fácil, outros apenas não chegaram ainda na esquina onde ela começa a ficar difícil, outros já nascem em meio a tantos problemas que deveriam fazer com que todos que tem um prato de arroz com feijão para comer por dia se sentissem privilegiados por isso. Eu faço parte desse pessoal que se sente privilegiado por ter o básico, sou do pessoal que vive aquela vida chata de trabalho diário em prol de fazer algo no fim de semana que me faça esquecer dessa rotina cansativa, e dentre os itens que compõem este algo, obviamente que estão os videogames, aqueles pedaços de mundos mágicos que nos transportam imediatamente para longe da realidade, uma válvula de escape que eu desde pequeno, acostumei a usar para esquecer o mundo a minha volta.

Os videogames sempre se mantiveram longe da realidade, tão longe que quando algum joguete mais realístico surgia, era um alvoroço enorme ao redor da obra que trazia movimentos jamais vistos ao mundo do entretenimento eletrônico. Que o diga FlashBack, Out of this World, e os milhões de jogadores espalhados pelo mundo que olhavam para a tela da TV e diziam em seus respectivos idiomas “Nossa! Parece real!”. É até cômico pensar nisso nos dias de hoje, mas outrora foi assim, e por mais que a tecnologia evoluísse, o “Real” para nós sempre tinha um significado muito distante da verdadeira realidade. Mas hoje os tempos são outros, e infelizmente para mim, eu nunca vi a realidade tão próxima da minha válvula de escape.

Foi um crescimento gradativo que se deu geração após geração, e que decolou com a chegada da alta resolução aos games. Me lembra muito aquele boom do 3D na época do N64 e do PS1, onde qualquer coisa quadrada vendia horrores e era adorada pelo público em geral, enchendo os bolsos dos desenvolvedores para que eles pudessem investir na produção de mais quadradezas genéricas. Genéricas sim, quantos clones de Resident Evil nós vimos naquela época? E de Mario 64 então? E de Metal Gear? RPG então, bastava ter um punhado de CGs aqui e acolá, e dezenas de genéricos de Final Fantasy IIV surgiam a torto e a direito, eu mesmo comprei e joguei vários deles! Sim, as grandes fórmulas de sucesso de cada época são sempre copiadas a exaustão, pois é natural que todo o fabricante de games queira ter o seu blockbuster, o seu jogo “tão bom quanto” mas que não é o original, e isso quase sempre acabava causando ótimas vendas a quem desenvolve estes games. Assim o mercado sobrevive até hoje, ou pelo menos, tenta sobreviver, pois os tempos mudam.

A alta resolução trouxe um mundaréu de novas possibilidades poligonais, todas elas relativas a gráficos, e o resultado disso foi o aumento absurdo do teor realístico que encontramos nos games de hoje em dia, como se mais do que nunca, o objetivo principal dos desenvolvedores tivesse passado a ser nada mais que imitar a realidade, ou até mesmo, aumentá-la. Expressões faciais que cada vez mais tendem a demonstrar emoções de maneira perfeita, como alegria, dor, desespero, mundos inteiros fisicamente perfeitos, climaticamente perfeitos, tudo tão perfeito que fica até difícil interagir de maneira satisfatória com tamanha grandeza de detalhes, e a indústria quer mais, quer mais uma geração seguindo a mesma linha, mais realística ainda.

A premissa deles é a mesma de sempre: “é o que o público quer”. Eu não vejo assim… O que eu vejo é uma absurda competição interna de quem faz mais bonito, quem faz mais real, quem faz o soldado inimigo morrer virando os olhos e vomitando sangue de maneira mais convincente. Ai colocam um selo de 18+ nos jogos por que eles são violentos… não, eles não são violentos, eles são reais demais, um menor não poderia jogar assim como não poderia segurar uma metralhadora nas mãos… É a realidade, e essa realidade é perigosa. Não, isso não é o que o público quer, não pelo menos a princípio: isso é o que os desenvolvedores apresentam ao público, e é só então que este público passa a desejar aquilo. Hoje querem BLU-RAY, mas a indústria poderia ter optado pelo HD-DVD e hoje a alta resolução teria uma mídia padrão diferente… É bem por ai. Nada contra, a evolução é necessária, eu concordo com isso… bem, até o momento em que eu percebo que as coisas estão saindo de controle.

Como eu já disse antes, quase tudo em nosso mundo tem um preço, e em particular, o da tecnologia é bem alto. Pode chegar a níveis astronômicos, cinematográficos, ou até mais, e a indústria de jogos eletrônicos passou a fazer parte definitivamente deste negócio de risco. Por quê de risco? Porque as cifras envolvidas são altas o suficientes para não permitirem erros, e erros constituem algo que a indústria gamística não costuma tolerar. Causam feridas enormes, de recuperação muito lenta, e as vezes, até fatais. E novamente como eu já disse antes, todo o desenvolvedor de games quer ter o seu similar, quer ter o seu blockbuster genérico, só que o preço da tecnologia usada hoje é bem diferente do preço da utilizada em gerações passadas. Imitar antes era mais barato, era viável, o risco era menor, a engine era simples, já estava pronta, não era necessário um número exorbitante em vendas para que um jogo fosse considerado bom financeiramente para a empresa, e isso definitivamente não acontece mais. Hoje a tecnologia cinematográfica empregada na produção de um game o torna perigoso, o retorno financeiro tem que ser certo ou cabeças rolam, e ultimamente vem rolando cabeças a mil.

Se tornou rotineira a notícia de que estúdios estão fechando as portas, sendo adquiridos por outros, partindo para o mercado de jogos sociais, que milhares de profissionais da área perdem o emprego aqui e ali, executivos abandoam a empresa, presidentes pedem demissão, e assim vai. A da vez foi a que me fez acordar para essa triste realidade: a demissão voluntária do presidente da gigante dos RPGs Square Enix, Yoichi Wada, que jogou a toalha após as vendas iniciais consideradas baixas de alguns jogos da empresa, como os AAA Tomb Rider e Sleeping Dogs, mega bem falados por toda a imprensa, ovacionados por jogadores que esperavam ansiosamente desde a última E3 para tê-los em seus consoles. E quanto eles venderam mundialmente até agora? Pouco mais 3 milhões de unidades um, e 2 milhões o outro, números que em gerações passadas seriam considerados excelentes, até exorbitantes, mas que hoje, devido ao absurdo custo de produção, causaram um prejuízo de mais de 100 milhões de Obamas à produtora, e os obrigou a rever toda a estratégia de sucesso que a empresa por décadas, vinha adotando para seus jogos. Se fosse uma empresa menor, ela estaria com sérios problemas, poderia até fechar as portas, mas é a Square Enix, dona de Final Fantasy, como poderia? Bem, pode… a franquia principal da gigante nipônica vem sendo atropelada em preferência por franquias de RPGs ocidentais. Nem Dragon Quest, nome que tinha o poder de vender até ar em saquinho dizendo que era magia de vento, consegue vender o mínimo aceitável hoje, tanto é que o próximo game desta franquia será social para smartphones… Não se surpreendam se mais coisas antes impensáveis vierem a acontecer, o mercado é propício!

O mais curioso é o número de consoles vendidos de PS3 + X360, que somados, quase chegam à casa dos 150 milhões de aparelhos… Quando alguém lança um jogo considerado no mínimo bom pela crítica especializada para plataformas com uma base instalada tão grande, eles esperam vendas significativas, mas eu tenho que concordar: como podem os jogos venderem tão pouco? Se destes 150 milhões de consoles, apenas metade estiver em uso, ainda assim é muita gente pra tão pouca vendagem. A resposta para isso pode ser muito simples: mesmice se tornando óbvia. Ambos os games apesar de tudo, são genéricos, feitos para tentarem vender tanto quanto um Grand Theft Auto (o tal do gênero Sand Box), e Uncharted (que redefiniu o estilo aventura nesta geração corrente), mas que não conseguiram por motivos diversos. Talvez o público não queira mais jogar games lotados de EVENTOS EM TEMPO REAL RESUMIDOS A APERTOS DE BOTÕES… poxa, era legal pra caramba apertar botões na hora certa em Parappa the Rapper, foi fantástico fazer esses comandos em Resident Evil 4 e God of War 1 e 2, e chega né! Chegou ao ponto em que qualquer coisa é preciso apertar um botão na hora certa, e os jogos são forrados disso hoje em dia por que esta é únicas maneira que os produtores encontraram para nos fazer interagir com algo em meio ao mundaréu de animações que contam a história dos games, que geralmente não passam de 13 ou 14 horas diretas. E para piorar, os jogadores estão tão mau acostumados com os grandes e caríssimos blockbusters do patamar de Call of Duty, Gears of War, Bioshock e o já citado Uncharted, que qualquer coisa que esteja aquém destes em qualquer aspecto, é deixado de lado, e dentro destas obrigatoriedades, estão fatores como “falta de cérebro”.

Sim, um dos grandes motivos das baixas vendas de alguns títulos, é o mesmo que não causava tanto estrago no passado, quando grandes pérolas como Okami, Shadow of the Colossus ou Indigo Prophecy vendiam relativamente pouco mas mesmo assim, era o suficiente: todo grande jogo que obriga o jogador a pensar, vende pouco. O novo Tomb Rider te obriga a pensar o mínimo, e eu vi na internet muita gente reclamando que o jogo possuía quebra cabeças demais e difíceis! Como pode? Os games hoje já são fáceis ao extremo, mostram mastigado na tela tudo que é necessário para que a pessoa o termine, não penaliza a menor falha, não privilegia em nada o jogador que quiser realmente jogar a fundo com nada… é jogar por algumas horas com um pouco de insistência, terminar a aventura, e nunca mais jogá-lo a não ser que ele tenha um modo on-line competitivo.

E a coisa não pára por ai: novas engines e mecânicas e técnicas e o caramba todo aparecem semana sim, semana não, sempre prometendo gráficos e física mais realistas ainda, o que vai exigir mão de obra mais cara na hora de se desenvolver um jogo, ferramentas mais caras, técnicas de captura mais precisas, e certamente no final, a mesma procura do público, o que aumentará mais ainda o risco de mercado.

A indústria gamística quer ser igual a indústria cinematográfica, mas os chefões ainda não perceberam que não existe a mínima possibilidade disso dar certo, e a tendencia é piorar. É matemático: um filme e um jogo que gastam 140 milhões de Obamas cada para ficarem prontos não podem ter seus lucros comparados, pois por pior que seja o filme, o tanto de gente que ele arrastará para os cinemas dispostas a gastar 10 Obamas para ter uma noite de entretenimento será uma quantidade centenas de vezes maior do que o tanto de gente que pagará 40 Obamas pelo jogo*. E nem estou levando em consideração o fato de que assistir a um filme ruim causa muito menos arrependimento do que comprar um jogo e não gostar!

*Cliquem nas imagens para entender

Jogos nunca serão tão lucrativos quanto filmes, possuírem orçamentos parecidos é loucura.

E uma nova geração de consoles de alta resolução está chegando, onde novamente não seguindo as tendências full power, a Nintendo chega com um aparelho de hardware possante, mas definitivamente aquém do poderio que os consoles a serem apresentados na próxima E3 certamente mostrarão. Produtores as vezes respondem com sarcasmo o fato de que o WiiU não terá suporte a essa e aquela engine, mas qual seriam as respostas deles se eu perguntasse: essa e aquela engine vão baratear a produção e aumentar as vendas de jogos para que a indústria não pereça mais ainda? Para que estúdios parem de fechar as portas? Para que milhares de profissionais possam continuar trabalhando?

O importante é ser potente, e não criativo?

O mercado de games que está em plena ascensão é o de jogos Indie, os jogos desenvolvidos por pequenos estúdios, sem custos exorbitantes e com muita inteligencia, originalidade, e carisma. Muitos jogos conseguem ser tão bons quanto praticamente tudo que existe de principal nos dois consoles HD do mercado, como os maravilhosos Journey, Limbo, Braid, Mark of the Ninja… O mesmo nível de qualidade, mas com custos irrisórios quando comparados… Não é à toa que a Valve lucra horrores com o Steam, pois este terreno é fértil, proporciona aos pequenos estúdios lucrarem mais que o suficiente para se manterem na ativa, estúdios cheios de pessoas com grandes ideias que não servem para o padrão dos caríssimos games das grandes produtoras, mas que não precisam de tanto dinheiro assim para virarem realidade e fazerem tanto sucesso quanto. Nintendo e Sony estão correndo atrás desse mercado fervorosamente em seus novos consoles, talvez já prevendo que ele possa vir a ser muito importante para as boas vendas de hardware no futuro…

Está ai para qualquer um ver, é a realidade mostrando que não, o importante não é ser potente: o importante é ser criativo o suficiente para fugir da realidade, pois quanto mais os videogames se aproximarem dela, mais chatos e enjoativos eles se tornarão, e chegará o dia em que todo o deslumbre visual não será mais suficiente, pois todo o resto será banal a ponto de não fazer diferença jogar ou não. Nós vamos preferir simplesmente viver a nossa chata realidade, duas delas serão demais. É isso que eu penso.

Enquanto isso não acontece, a indústria de games segue a passos largos no caminho do superfaturamento, e eu… eu estou pensando em comprar um portátil, ou melhor, uma válvula de escape em miniatura vitalícia. Bem, na pior das opções, vai durar pelo tempo em que a Nintendo durar.

Fim


Sobre Sabat

Dono, Chefe, Gerente, Cara da Xérox e Tia do Café do RetroPlayers! Meu negócio? Falar sobre games. Como? Escrevendo meus trabalhos, gravando minha voz horrível, ou filmando minhas humildes proezas! Onde? Aqui, ali, ou onde quer que me chamem!
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