RetroPipoca: Os Vingadores – The Avengers (2012)


De uns tempos para cá eu meio que fui aos poucos perdendo o costume de ir ao cinema. A não ser que seja para assistir a uma super produção trilhonária muito bem cotada pela crítica, eu se quer ando cogitando a hipótese de levantar o traseiro do sofá para me dirigir ao Kinoplex THX nos finais de semana. Motivos? Muitos, a começar pela cada vez maior e mais irritante falta de originalidade dos filmes que vão aparecendo, e da necessidade absurda de se produzirem remakes mal feitos e continuações apressadas de franquias que nem se quer tiveram ainda seus últimos, digamos, episódios devidamente sepultados. Felizmente, minha derradeira visita ao cinema me mostrou que essa pressa desesperada desta vez tinha um objetivo, e ele valeu cada centavo do meu ingresso.

Atenção, caro amigo retroaventueiro: o texto a seguir pode conter alguns SPOILERS! Se você não assistiu ao filme, tome cuidado ao ler, pois algumas surpresas poderão ser reveladas.

Recapitulando 1: um dia fizeram uma cagada sem tamanho e sem cura com um de meus mais queridos personagens das histórias em quadrinhos, o Incrivel Hulk. Resultado: um dos piores filmes baseados em heróis de quadrinhos que já se viu. E olha que Spiderman, um ano antes, já havia mostrado à corja incompetente de diretores, produtores e roteiristas que infesta Hollywood, que criar um filme de herói sem lotá-lo de cenas forçadas de sensacionalismo barato, com uma história que tenha nexo e que não desrespeite os fãs com erros amadores, e que de certa forma até adapte o herói em questão a uma realidade mais plausível do que a dos quadrinhos, era algo que dava certo, e muito.

Foi quando algum abençoado e lúcido executivo da Marvel Enterprises resolveu então, colocar todos os próximos lançamentos que levassem o nome MARVEL em seus créditos, sob a supervisão de sua subsidiária californiana Marvel Studios, e assim, Eric Bana foi banido do papel de gigante verde marombado para dar lugar a Edward Norton em um filme memorável por dois motivos: ver Hulk em um filme verdadeiramente à altura do seu nome, e presenciar após os créditos, a aparição de Robert Downey Jr adentrando o boteco no momento em que General Ross tentava afogar suas mágoas em um copo de cachaça para citar pela segunda vez naquele ano, um nome que causaria a partir de então, uma onda de angustia e ansiedade tão grande que seria sentida por anos em todos aqueles fãs que ali se encontravam: Os Vingadores.

A primeira citação a este nome havia acontecido a alguns meses atrás, onde o próprio Nick Fury (Samuel L. Jackson), aparece após os créditos de outro filme espetacular, Iron Man, para literalmente convidar Tony Stark a participar de seu novo projetinho, coisa que obviamente, culminaria em um filme cheio de heróis, explosões e muito deslumbre visual.

Recapitulando 2: mas onde foi mesmo que você, caro amigo retroaventureiros, ouviu falar de Vingadores, heim? Se você, assim como eu, gostava de ler HQs dentro do ônibus nos seus tempos áureos de juventude, deve então ter lido muito a respeito da turminha super poderosa do Capitão América e seus embates contra as mais diversas e perigosas entidades cósmicas e multi dimensionais. Mas pode ser também que você tenha visto esse pessoal naquele beat’n up maneiro que foi lançado para Arcades na década de 90 e que logo depois, recebeu versões para os principais consoles caseiros do momento: Capitain America and The Avengers.

Pois é, os Vingadores já pintaram nos nossos consoles em algumas oportunidades, e esta é certamente a mais memorável delas: um jogo de pancadaria muito legal desenvolvido pela finada Data East com algumas etapas de shot’n up onde devemos azedar com os planos do Caveira Vermelha. E é claro também que um novo game deverá pintar, agora que o filme dos heróis mais poderosos da terra já é um sucesso de público e crítica. E deverá ganhar um monte de continuações, levando em conta que, nestes tempos em que qualquer porcaria vai até pelo menos o “Eu sou um filme medíocre 4”, The Avengers é surpreendentemente bom.

Qualquer receita de sucesso precisa de ingredientes certos. The Avengers já tinha o Homem de Ferro e o Hulk… Obviamente faltavam mais alguns temperos para que a sopa ficasse pronta, e assim, em tempo recorde, Thor e Capitão America ganharam seus filmes nas telonas. Ambos sofríveis e extremamente superficiais, um verdadeiro desperdício de elenco, mas que serviram para um único e importante propósito: mostrar ao mundo a origem e a cara dos outros integrantes do time. Assim foi possível que The Avengers se concentrasse só em sua trama, não precisando recorrer aquele monte de cenas chatas do tipo “oi, eu sou o herói Tal e meu super poder é Tal” que só servem mesmo pra encher linguiça ou preencher o vazio que existe na mente daquele pessoal que não conhece bulufas sobre os heróis e só estão ali esquentando a cadeira do cinema por causa da popularidade do filme.

E não existem meios de ligar a trama de The Avengers a qualquer linha temporal que exista nos quadrinhos: a história é apenas baseada na primeira aventura do grupo de heróis, que enfrentam Loki após este ter colocado o Huk pra arrebentar com seu meio-irmão Thor, uma lutinha de nada que poderia causar alguns poucos danos à crosta terrestre. Começamos pelo fato de que nesta história original, não existe Capitão America, nem Viúva Negra e nem Gavião Arqueiro, muito menos Nick Fury e S.H.I.E.L.D.!  A mistureba é complexa: o Capitão nunca foi membro inicial, Viúva Negra só foi recrutada como Vingadora na franquia Secret Avengers, que estreou em 2010 (coisa bem atual, mas ela era mesmo agente da Shield), Gavião Arqueiro só foi recrutado (e pelo próprio Capitão) muito tempo depois, e a S.H.I.E.L.D. só passou a monitorar as idas e vindas do grupo após este vir a ser plenamente reconhecido como aliados pelo governo americano. Mas isso são coisas que os milhões de pessoas que foram assistir a película deveriam saber? Eu julgo que não, e provavelmente apenas uma pequena fração deste público deve mesmo conhecer estes fatos. Então basta que o respeito aos poderes e características de cada herói sejam mantidos e a trama criada para o filme nem precisa ser lá muito boa para estar perfeita: Loki invade as instalações da S.H.I.E.L.D. e rouba um cubo de energia com um nome pra lá de escroto (que para nós conhecedores, nada mais é que o Cubo Cósmico, objeto de poder criado por uma facção para-militar humana, roubado pelo Caveira Vermelha, e encontrado e utilizado pelo mega vilão Thanos em uma de suas sagas) que havia sido achado no fundo do mar enquanto a organização procurava o corpo congelado do Capitão América (Explicações sobre isso estão no filme do Capitão… lembra quando eu disse que os outros filmes serviram para isso?), e com ele, o Semi-Deus pretende abrir um buraco interdimensional para que uma legião alienígena possa invadir e tocar o terror em nosso universo. Em contra partida, a S.H.I.E.L.D. tenta finalizar o Projeto Vingadores, que tentará unir os seres mais poderosos do planeta na tentativa de impedir que o caldo engrosse demais.

A partir deste momento, os heróis vão aparecendo um a um e vão se encaixando a uma história que mais serve como plano de fundo para a pancadaria que se anuncia do que qualquer outra coisa. Não existem grandes surpresas, nem revelações, nem reviravoltas, a história apenas segue em frente, vez ou outra com um toque de genialidade como na cena em que a bela Scarlett Johansson, no papel de Viuva Negra, descobre as reais intenções de Loki quando este encontra-se encarcerado na base aérea invisível da S.H.I.E.L.D., e vez ou outra com aquele amadorismo sensacionalista que teima em não desgrudar das mentes do povo engravatado hollywoodiano, como na terrível cena em que a própria moça, logo no início do filme e mesmo estando em uma situação digamos “mais do que extremamente adversa”, dá cabo de um monte de soldados armados após atender a um telefonema da chefia.

Como já era de se esperar, Robert Downey Jr. rouba a cena como Iron Man em mais uma atuação espetacular (vai ser uma cagada tremendamente grande se esse cara sair do papel de Iron Man, como eu li em boatos por ai) e que obviamente, foi muito privilegiada pelo papel desempenhado pelo seu personagem. Também pudera, ele é provavelmente o mais popular dos heróis atualmente marcantes do cinema, mais até do que o sombrio Batman de Christian Bale, e nada mais certo do que dar a ele então, uma importância subliminarmente desbalanceada a seu favor para que a coisa ande bem. Thor e Capitão vieram de filmes que claramente só serviram para criar a ponte de acesso ao universo Avengers (e a final de contas, como é que o Thor chegou à Terra sem a Ponte do Arco-íres?? Mistério…), e nota-se claramente uma necessidade grande de equiparar o nível importância do Capitão no filme ao nível que ele possuía nos Vingadores dos quadrinhos. Assim, na falta de super poderes do mesmo nível dos outros personagens principais, sua participação acabou por herdar muita carga emocional, de modo a transformá-lo em um líder nas ações táticas e de comando, em um exemplo de patriota a ser seguido, e até que o Cris Evans, ajudado por sua cara de bom moço, desempenhou bem esse papel.

Chris Hemsworth, nosso glorioso Thor, me parece ter duas feições apenas: antes do soco do Hulk (alegre), depois do soco do Hulk (sério). O filme acabou me provando que não é necessário mais do que isso para ser o Deus Nórdico do Trovão, mas não sei se verei esse cara futuramente em um papel que seja mais dramático do que representar um brutamontes com um martelo na mão. Ele serviu para o propósito: ser o irmão raivoso do inimigo principal do filme, jogar relâmpagos em cima dos outros, fazer a mulherada suspirar dentro dos cinemas, e trocar carícias com o Hulk. Ah, o Hulk… nosso gigante verde predileto estava mais sem controle do que nunca e… isso não estava meio errado não?

Edward Norton estava fora do elenco, e os boatos de que ele próprio havia trabalhado na caracterização do personagem no filme anterior do gigante verde se confirmaram na falta de caracterização que o mesmo sofreu em The Avengers. Norton provavelmente é um grande fã do personagem, e quem o conhece, sabe que o Hulk primeiro diz “VAI EM BORA! ME DEIXA EM PAZ! SOME DAQUI HOMENZINHO” antes de partir pra ignorância. Mas o Hulk que vimos ser interpretado (ou não) por Mark Ruffalo, excelente ator mas que caiu de pára-quedas no filme e por isso não me convenceu no papel de Dr. Banner, se levanta querendo trucidar a Viúva Negra com os dentes quando o normal do monstro seria se levantar dizendo algo do tipo “HULK AJUDA MULHER DE CABELO VERMELHO!” tirando depois, a viga que a prendia pelas pernas. Esse era o Hulk de Norton, definitivamente não é o Hulk de Ruffalo, e isso talvez deixe claro o motivo da saída de Norton do elenco: a Marvel não queria pitacos, e julgou que um Hulk selvagenzão (fato que se contradiz muito nos momentos finais do filme) seria mais atraente ao público.

Ver o Gavião Arqueiro sem aquela máscara escrota e sem peças roxas no vestuário foi um grande alívio! Jeremy Renner mandou bem ao distribuir flechadas, e foi muito bem sacado o jeito que arrumaram para fazer com que a importância do personagem para com a história fosse um pouco mais relevante. Ficou claro que ao invés de complicar o roteiro criando situações mirabolantes cheias de ações forçadas, os produtores preferiram utilizar soluções simples e inteligentes para fazerem com que os heróis parecessem o mais plausíveis possível… Claro que não me refiro à parte em que a Viuva Negra pula na jet-moto-alienígena em pleno vôo no fim do filme… Fica claro também que The Avengers não está de modo algum livre dos clichês hollywoodianos de sempre, como a desgraça do exército norte americano que sempre resolve tomar a decisão errada de soltar um míssil nuclear no meio da bagunça achando que isso vai resolver o problema, ou o herói que sempre se sacrifica no final por um “bem maior” que acaba saindo barato pra caramba por que o dito cujo sempre se safa milagrosamente no último segundo, mas a ação é tão bem feita que a gente aceita tudo isso numa boa e ainda ficamos torcendo para que o Hulk pegue de novo o Loki pelo pé e saia mais uma vez batendo ele no chão como se fosse um saco cheio de qualquer coisa que não faça muito peso.

Depois de assistir a tantos filmes de heróis, péssimos, ruins, bons, ótimos, fica a clara noção de que o filme que realmente presta neste segmento é aquele que nos faz acreditar que estamos vendo realmente os nossos heróis ali na tela. Não adianta olharmos para o produto final e percebermos que, por mais que a vestimenta seja idêntica, o conteúdo não respeita em um mínimo aceitável a obra original, e esse é o erro que muitos filmes de herói cometeram e ainda cometem. Cenas artificiais onde cabos puxam fulanos pra cá e pra lá em pulos tão irreais quanto feios, ações que vão contra os poderes conhecidos de determinado herói, e principalmente o mal aproveitamento da quantidade exagerada deles são fatores que você não verá ao assistir The Avengers, que é um filme que pega a realidade super sensacionalista repleta de impossibilidades inimagináveis do universo Marvel e tenta, da melhor maneira possível, adaptá-la para um novo e enorme público, tornando-a digerível e impressionante sem sair de um limite científico relativamente mais avançado que o real.

Um grande filme, que foi além de minhas expectativas, e que me deixou muito ansioso para saber de informações sobre a continuação que obviamente vai sair, a não ser que 2012 ainda tenha alguma carta apocalíptica na manga para mostrar. E fico na torcida para que o andróide Vision esteja cotado para participar do próximo punhado de heróis… Eu jogava com ele no arcade!

Fim


Sobre Sabat

Dono, Chefe, Gerente, Cara da Xérox e Tia do Café do RetroPlayers! Meu negócio? Falar sobre games. Como? Escrevendo meus trabalhos, gravando minha voz horrível, ou filmando minhas humildes proezas! Onde? Aqui, ali, ou onde quer que me chamem!
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