RetroPipoca: O Homem de Aço (Man of Steel – 2013)


Quando vamos ao cinema assistir a um filme de herói, o que esperamos no mínimo é sair de lá convencidos de que realmente vimos o “tal herói” retratado nas telonas. Quando isso acontece, a qualidade geral do filme acaba quase sempre não importando na hora de colher os lucros da estrondosa bilheteria mundial, mais ou menos como acontece hoje com Robert Downey jr, conhecido por ai como Iron Man: o 3º filme do herói de ferro foi o pior deles sem dúvida, mas a bilheteria… Explicação simples: o povão paga não para ver o filme, mas para ver o ator interpretar o herói do momento em mais uma película lotada de efeitos especiais, explosões, e no caso desta última, quase nenhuma lógica ou consistência no roteiro. Alguém ligou para isso? Poucos, é verdade, mas sim: aqueles que respeitam as origens do herói, aqueles que sabem a importância do “vilão” do filme que foi jogada no lixo, e principalmente, aqueles que aprenderam a dar valor a um bom roteiro ao presenciarem os trabalhos de Christopher Jonathan James Nolan e seu Cavaleiro das Trevas.

Nolan se tornou um dos principais diretores de Hollywood ao pegar uma série de filmes terríveis de um herói totalmente desacreditado nas telonas para transformá-la naquilo que provavelmente é hoje o manual de “como se fazer um filme decente” nesse segmento.

Entenda decente: um herói com todas as suas características intactas na medida do possível, um roteiro que não ofenda este herói e nem a inteligência do público ao mesmo tempo que o prenda frente a película, e um ator que nos convença de que ele é o herói em questão… Volta Edward Norton, o HULK precisa de vc!

Após três filmes fazendo maravilhas com o morcegão, Nolan decidiu que era hora de resgatar a dignidade cinematográfica de outro herói a muito tempo em baixa, um cara da época em que fazer a terra girar ao contrário para voltar no tempo era algo SUPER legal de se ver, um herói do tempo em que usar cueca vermelha por cima da roupa era SUPER massa, um herói que imortalizou o SUPER Cristopher Reeve (que Deus o tenha) como sendo  a sua cara pela eternidade, e que, após séries televisivas de qualidade duvidosa e um novo filme péssimo que tentava trazer de volta a velha cara de antigamente do SUPER herói, praticamente implorava pela ajuda de alguém que pudesse reerguer o seu nome do limbo em que se encontrava.

O Superman precisava de ajuda, e a ajuda veio.

Anunciado por meio de um curtíssimo taser trailer a alguns anos atrás, O Homem de Aço apareceu como a nova aposta do diretor   Zack Snyder (300 e Watchman) e com o roteiro assinado por Nolan. Mais do que apenas tentar repetir o sucesso estrondoso de seus últimos trabalhos, a dupla tinha um desafio a mais pela frente, por sinal, o mesmo que Nolan enfrentou quando assumiu a bomba que era tentar fazer um filme com o morcegão de Gothan City após a tonelada de aberrações cinematográficas que foram criadas no decorrer dos anos: achar uma cara nova e definitiva para o herói. Com o Batman o negócio foi um pouco mais fácil, pois o herói nunca teve uma cara. O rosto mais marcante que tínhamos vinha dos socs e pows e caproows da série televisiva dos anos 60 com Adam West no comando das ações, que foi seguida de uma lista de heróis genéricos em filmes que iam do regular ao medíocre sem escala. Já com o tal do Clark Kent, o negócio era um pouco mais complicado, pois já existia um rosto imortalizado nos cinemas, um verdadeiro sinônimo de Superman, merecedor de um respeito tamanho que acabou de certa forma sendo a causa do fracasso do último filme que fizeram com o herói quando este quis ser fiel demais às obras do passado.

Talvez isso tenha servido de aprendizado, pois Man os Steel não repete nenhum dos erros do fraco Superman Returns (2006), e nos mostra um super homem que é bem a cara de Nolan, ou seja, mais humano e poderoso do que nunca sem desrespeitar as origens do personagem. Bem, se deu certo uma vez, por que não daria duas?

A escolha de Snyder para o papel de Super foi o ator semi-desconhecido Henry Cavill, que antes de se tornar o Homem de Aço, podia ser encontrado como Theseu no fiasco Imortais (2011). Visualmente uma escolha acertada, uma vez que o rapaz possui cara de bom moço, olhos azuis, cabelo jogadinho de lado e músculos a torto e a direito, ou seja, tudo que é necessário para caracterizar o Super mesclado a um nível de atuação que não compromete. Aliás, nada compromete a película, tudo é no mínimo digerível.

A começar pelo roteiro que como não poderia deixar de ser, trata de mostrar a origem alienígena do herói, o que aconteceu com seu planeta natal, e quem será o vilão do filme. Já neste ponto começamos a notar a mão de Nolan na narrativa do filme: a necessidade de mostrar o que acontece com Kripton, a importância de Kal-el para a sobrevivência da raça, e o principal: por quê diabos ele é SUPER na Terra. Cada poder do herói, da visão de calor ao poder de voo é explicado de uma maneira simples, verdadeira, e que a maioria já nem deve mais se lembrar qual é: o Sol Amarelo. Ou pelo menos deveria ter ficado só nisso, pois a atmosfera da Terra também tem seus efeitos anabolizantes no herói alienígena, o que causa um pouco de dúvida na cabeça dos fãs mais céticos que podem não concordar com esta nova visão acrescentada pelo diretor, mas que indubitavelmente funciona. Clark tem seus “problemas sociais”, que o transformam em um tipo de rejeitado pela sociedade, explicados por meio da diferença de composição na atmosfera dos planetas, um fator que é crucial para o desenvolvimento da trama do filme. Desde criança o pequeno Clark precisava esconder que era diferente, se controlar para não parecer ser o que ele realmente era, o que nos leva ao veterano Kevin Costner no papel de Jonathan Kent, o pai protetor convicto de que a humanidade não estava preparada para saber que existe vida lá fora.

Este é um ponto muito interessante não só no filme, algo que sempre é abordado mas nunca se chega a conclusão alguma: o que aconteceria com a sociedade se fosse confirmada a existência de vida alienígena inteligente em algum planeta longínquo por aí? O que aconteceria com nossos valores, com nossas crenças, com nossa maneira de enxergar o mundinho em que vivemos? A impressão que tive inicialmente ao assistir O Homem de Aço foi a de que este ponto seria muito explorado, pois a bela atuação de Costner nos faz acreditar que o mundo realmente não está preparado para um DEUS ALIENÍGENA entre nós. A pergunta é: nós o seguiríamos, ou teríamos medo dele? Clark foge desta resposta por boa parte do filme, se tornando um desconhecido que vaga pelo mundo ajudando alguém aqui, fazendo um “milagre” ali, mas nunca deixando de ser o “rejeitado” de sempre. Isso até que outros alienígenas chegam ao nosso planeta tratando de por um fim a qualquer parte reflexiva do enredo. A boa premissa é deixada de lado, e a resposta à pergunta universal volta a ficar sem resposta.

As 1 hora e pouco restantes de filme são regadas a muita pancadaria, efeitos especiais de primeira e muito Jor-El tentando se passar por um holograma. Interpretado por Russel Crowe, o Super Pai até aparece bem durante o filme, mas deve ter sido um dos papéis mais fáceis da carreira do ator, e o mesmo podemos dizer de Diane Lane como Martha Kent: aparece pouco e dá para o gasto. Já a nossa eterna Encantada, Amy Adams (que está para estrear Encantada 2) convence como Lois Lane, apesar de mostrar uma repórter que pela primeira vez no cinema, se preocupa mais com as consequências do que com a primeira página do jornal. Seu olho de lince não deixa passar nada, nem um microscópico Clark Kent a quilômetros de distancia andando em uma geleira.

Sim, o filme possui certamente aquelas ceninhas clichês bem forçadas e muitas passagens mal explicadas. A primeira fica por conta do sensacionalismo barato: a repórter andando numa beirada de gelo que ninguém em sã consciência andaria nem que soubesse voar, o herói que salva da morte o pessoal gente boa no último segundo possível, e coisas do tipo. Certamente daria pra fazer o filme sem isso, mas Hollywood CLAMA por este tipo de coisa, fazer o quê? A segunda acontece quando percebemos que por várias vezes, o filme parece ter sofrido cortes. De repente algo vai acontecer ou será explicado e… já se passaram vários minutos, ou horas, e tudo já aconteceu sabe-se lá como, conforme-se. Isso acontece muito,  e a impressão que eu tinha a cada vez que eu percebia o ocorrido era de que o filme estava ficando muito extenso e os produtores foram obrigados a cortar algumas destas cenas explicativas, o que acabou tirando a lógica ou a razão de algumas ações. Eu não me surpreenderia se pintasse por aí em breve uma “versão do diretor” do filme nas lojas…

O Homem de Aço é um ótimo filme. Consegue restaurar com louvor a imagem do herói nos cinemas sem desrespeitar suas origens, apresentando uma história que poderia ser melhor trabalhada mas que, de maneira alguma, deixa de ser muito boa. A nova cara do Super foi sem dúvida aprovada, o seu traje sem cueca por cima da calça agora possui uma lógica para existir (aquilo não é um S… bem, na Terra é um S…), e poucas dúvidas ficam no ar após o término da sessão. Minha maior crítica ao filme fica mesmo por conta da última ação do Herói e o que ele acaba fazendo para em fim, derrotar o vilão, algo pesado e que ao meu modo de ver, não foi tratado com o devido cuidado, e causaria no mínimo sérios danos emocionais ao herói e a quem estivesse ali presenciando tudo de frente. Eu acho que haveriam outras formas… O que o Super acaba fazendo é mais a cara de Jack Bauer ou Jhon McClane, gente calejada e sem remorso. No mais, aguardo a possível Directors Cut ou o anúncio da óbvia continuação, talvez com um DarkSide aparecendo para escravizar a Terra e naturalmente, falando inglês… aliás, por quê diabos o universo inteiro tem que falar inglês? Que coisa!

Agradecimentos ao meu amigo Ataliba, que me lembrou que o diretor do filme não era o Nolan, e sim o Zack Snyder!! E olha que eu sou fã dos 2…

Fim


Sobre Sabat

Dono, Chefe, Gerente, Cara da Xérox e Tia do Café do RetroPlayers! Meu negócio? Falar sobre games. Como? Escrevendo meus trabalhos, gravando minha voz horrível, ou filmando minhas humildes proezas! Onde? Aqui, ali, ou onde quer que me chamem!
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