RetroPipoca: Detona Ralph (Wreck-it Ralph) – 2012


Creio que nenhum outro filme deste ano recém terminado foi tão aguardado pelos amantes de jogos eletrônicos como a novíssima produção dos estúdios Disney que finalmente aterrizará nos cinemas brasileiros neste próximo dia 3. Desde que fora anunciado a mais de um ano atrás em um trailer abarrotado das mais diversas referências a jogos e personagens de videogames, Wreck-it Ralph passou a ser o filme que finalmente transportaria nosso amado universo virtual para dentro das telonas digitais tridimensionais dos cinemas de forma definitiva, uma película que até o jogador mais desconfiado para com filmes baseados em jogos dizia de boca cheia “esse não tem como errar”, seria o filme da redenção, aquele que finalmente quebraria o fatídico estigma desta categoria de adaptações justamente por ele não ser uma adaptação, e sim uma aventura completamente original baseada no universo dos videogames.

E como retroaventureiro fiel que sou, lá estava eu com minha esposa na pré-estreia do filme, que aconteceu aqui em São Paulo na semana anterior a da estreia propriamente dita para conferir se todo aquele exorbitante hype que girava ao redor do título seria justificado, e de quebra, ver se minhas expectativas de assistir a uma obra cinematográfica que fizesse jus ao universo dos videogames seriam finalmente alcançadas naquela sala digital 3D THX. O próximo passo era então tirar o óculos mágico do saquinho plástico, colocá-lo na fuça, e adentrar no mundo tridimensional de Wreck-it Ralph.

A Disney já possuía um story board desse negócio mesmo antes da Pixar surgir e dominar o mundo das animações 3D com seu filmes maravilhosos (que hoje em dia não estão tão maravilhosos assim), e desde o início da década de 90, o até então conhecido pelo nome de High Score Project (e mais tarde, Joe Jump) perambulava pelos escritórios da gigante americana procurando por alguém que pudesse levá-lo a sério a ponto de tirá-lo do papel, até que quase duas décadas depois, e já atendendo então pelo nome de Wreck-it Ralph, o diretor Rich Moore, mais conhecido pelo seu trabalho frente as franquias Simpsons e Futurama, estava então incumbido de finalmente dar vida à obra. Apesar da falta de experiência na direção de filmes de verdade, com longa duração e histórias mais elaboradas, o retrospecto do fulano contava até com alguns Emmys ganhos pela direção exemplar em episódios destas duas hilárias franquias, o que reforçava a ideia de que Wreck-it Ralph poderia no mínimo, contar com piadas bem boladas e situações cômicas familiares a quem é fã da dupla Homer e Bender, ou seja, quase todo mundo. Bem, talvez estes fatores todos tenham aumentado demais as minhas expectativas, ou talvez eu esteja apenas sendo realista quando digo que o filme, de certo modo, não as supriu.

Wreck-it Ralph, abrasileirado convincentemente para Detona Ralph (confesso que eu estava com medo do filme receber algum nome da linha “Um Personagem Muito Louco”) começa muito bem, mostrando um fliperama se modificando com o passar dos anos, um monte de arcades famosos aparecendo e sumindo enquanto as pessoas entram e saem daquele estabelecimento tão raro hoje em dia. A reunião de vilões mostrada no trailer explica logo de cara o que acontece com Ralph: ele cansou de ser vilão, de ser o cara ignorado e temido por todos, e resolve provar então que é capaz de ser também um herói mesmo que para isso, ele tenha que invadir os outros jogos do fliperama, uma prática um tanto quanto perigosa, e com um péssimo retrospecto na casa de jogos em questão.

Para que o filme se tornasse convincente aos amantes dos jogos eletrônicos, a Disney pagou uma fortuna em direitos de uso de personagens de várias franquias de videogames, a grande maioria delas bem antigas e familiares a nós, retroaventureiros barbados e pais de família, ficando para os pimpolhos apenas o sentimento de estarem vendo pela primeira vez um monte de personagens que eles não tem a menor ideia de quem são, de quem foram, ou de sua importância para a criação e evolução do universo dos videogames.

Hoje sabemos que as tecnologias empregadas na computação gráfica estão em um nível tão alto que praticamente impedem que um filme desse segmento feito por um bom estúdio fique visualmente mau executado ou até mesmo feio, então dizer que Wreck-it Ralph é absolutamente brilhante em sua aparência é chover no molhado. E não é justo também querer crucificar a dublagem nacional meia boca do filme, pois aqueles que criaram originalmente a película, utilizaram nela vozes de atores consagrados em Hollywood e profissionais da área, e se no Brasil os executivos por trás da cagada entendem que pseudo estrelas que não sabem nem falar direito podem fazer o trabalho de um profissional de dublagem, então ok, troféu joinha neles. Só que, para um filme que ficou tanto tempo no papel sendo modificado aqui e acolá ano após ano até ser aprovado, e que criou tanta expectativa em meio a massa mundial de jogadores de videogame que aguardavam ansiosamente por ele, apenas um ótimo visual e uma dublagem “passável” não são suficientes: é preciso muito mais do que isso, e é então que passados aqueles 20 minutos iniciais lotados de referencias gamísticas quase sempre imperceptíveis aos mais novos, começamos a perceber que o filme pode não ser tudo aquilo que esperávamos.

A animação explora muito bem a relação dos jogos com os humanos que os jogam, foi muito inteligente presenciar a maneira como as máquinas de arcade “quebram” aos olhos dos humanos, ver o que ocasionou isso lá dentro do mundo virtual, e entender o perigo que isso representa para os personagens, e é nisso que a história de Wreck-it Ralph se concentra a partir de então até o seu encerramento, após pouco mais de 100 min de filme, tempo mais que suficiente para que pudessem ser apresentadas toneladas de situações marcantes, inteligentes e engraçadas dos mais variados tipos, ainda mais quando para ajudar na parte da imaginação, os responsáveis pelo Story Board podem contar com um universo inteiro de jogos eletrônicos à sua disposição… poderiam, mas não o fizeram. Você sentirá vontade de rir em algum momento ou outro, se sentirá surpreso com algo que possa acontecer fora do clichê trivial dos filmes em animação computadorizada, mas perto do que todos esperavam, fica a sensação de que faltou aquele algo mais, aquela piada bem colocada, aquele item ou personagem que deveria ser usado para o bem andar da trama ao invés de apenas servir de fundo no cenário, pois é somente para isso que todos eles servem, e nada mais. O filme tende a se tornar massante para os adultos quando estes percebem que todas as referências gamísticas adquiridas pela Disney só estão ali para deixar o ambiente mais convincente ao invés de fazerem parte efetiva da história, que é bem simples por sinal, e isso acontece ao mesmo tempo em que os pequenos não entendem bulufas de tais referências ou mal reconhecem os personagens em questão, o que aos olhos deles, transforma Wreck-it Ralph em apenas mais um filme de animação.

Veja bem (e relaxe, isso não é um spoiller): se Ralph está vasculhando um armário em busca de algo e acha uma BOMBA do Bomberman, o legal é o personagem guardá-la para usá-la em alguma situação em que ele possa fazer algo com ela como destruir uma parede intransponível simplesmente por que É ISSO QUE ELA FAZ, e eu diria pro meu filho “Sabatinho, o Ralph vai destruir alguma parede com essa bomba!! Sabe porquê? Por que é uma bomba do Bomberman!!!” e o moleque iria ficar esperando algo legal acontecer com a bomba e quando acontecesse, ele iria dizer “Olha pai! Olha pai! Ele usou mesmo, que legal!”, mas o que acontece no filme é que toneladas de boas oportunidades para se criar este tipo de situação são simplesmente ignoradas. Os itens e personagens estão todos lá, mas é apenas isso, nada interage com a história, nada é utilizado, nada do que foi “alugado” pela Disney é aproveitado. Chego ao ponto de no final das contas, reconhecer que se nenhuma franquia gamística tivesse sido colocada no filme e só existissem lá personagens originais, o resultado seria o mesmo… com a diferença que eu só não teria criado tanta expectativa.

Essa péssima utilização das franquias de videogame não seria problema se a trama geral do filme fosse, digamos, menos doce! Vimos no trailer pontos interessantes sendo levados em consideração, como a triste realidade dos jogos que foram “desligados” e que ninguém joga mais, um tema que se bem explorado, ajudaria muito a amenizar a superficialidade do roteiro, e proporcionaria uma carga emocional e dramática muito mais convincente. Poderia até mesmo fazer com que pessoas que nunca experimentaram estes velhos games, fossem atrás deles para ver como eram. Em vez disso, temos uma corrida de kart altamente diabética e predominantemente rosa, que é pano de fundo para mais da metade do filme, e é cheia de personagens super fofos que, se por um lado conseguem prender a atenção dos novinhos, por outro deixam até os mais fanáticos jogadores de Super Mario Kart com vergonha de estarem assistindo uma coisa tão… fofa!

O filme tem algumas ideias bacanas e tiradas inteligentes que arrancam um sorriso aqui e acolá, mas de maneira alguma são suficientes para que, somadas ao roteiro “ok”,  consigam fazer Wreck-it Ralph alcançar o patamar de qualidade das grandes animações americanas da história do cinema, como Finding Nemo, The Incredibles, ou o ótimo e recente How to Train Your Dragon. Talvez em um provável segundo filme pode ser que a coisa melhore e as franquias sejam realmente usadas para compor a história, mas seria bom também que um diretor mais visionário fosse posto no lugar do Rick Moore, pois este falhou em uma missão que ele deveria tirar de letra: deixar o filme inteligentemente engraçado e atraente para os jogadores que se dirigiram até os cinemas. Edgar Wright seria uma bela pedida, pois é dele aquele que continua sendo o melhor filme com referências a videogames que existe, Scott Pilgrim vs The World.

Wreck-it Ralph não possui pós-créditos, mas os próprios créditos finais são provavelmente a coisa mais legal da película toda, assista e comprove! Eu não entendo esse pessoal que fica desesperado pra sair da sala quando o filme acaba… Parece um ataque múltiplo de claustrofobia, e dessa vez, ele impediu muita gente de ver o quão legal aquilo foi! Basicamente o que eu queria ter visto durante o filme estava tudo resumido ali, mostrando que era possível.

A última cena destes créditos faz menção a um bug que acontece em um jogo de um personagem muito famoso e que impede que os jogadores consigam atingir a pontuação máxima no mesmo, e ganha um doce quem souber que bug é esse! O chato foi depois disso, tirar os óculos 3D e perceber que só havia eu e minha esposa ainda dentro da sala, e um punhado de faxineiros com cara de poucos amigos esperando a gente se retirar para começarem a limpeza rumo a próxima sessão. No final das contas, vale a pena assistir Wreck-it Ralph, mas não espere surpreender-se com nada. Se você tiver filhos pequenos, eles provavelmente vão adorar as corridas de kart e as enrascadas da desbocada Vanellope enquanto você fica procurando referências a mais games antigos, e isso é suficiente para fazer valer a grana dos ingressos da sessão numa quarta feira. Não é um filme que consegue de uma vez por todas limpar o nome da categoria, mostrando que filmes baseados em jogos podem ser realmente bons, mas pelo menos, ele não a suja mais ainda.

Fim


Sobre Sabat

Dono, Chefe, Gerente, Cara da Xérox e Tia do Café do RetroPlayers! Meu negócio? Falar sobre games. Como? Escrevendo meus trabalhos, gravando minha voz horrível, ou filmando minhas humildes proezas! Onde? Aqui, ali, ou onde quer que me chamem!
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