
Mas que negócio é esse? Um Beat’n Up 8bits saindo do forno para homenagear os grandes heróis dos jogos da maior plataforma de games do passado, o Nes? Ou será o contrário: um Beat’n Up onde a carnificina come solta e os alvos principais dos sopapos e pontapés são esses mesmos grandes e inesquecíveis heróis dos games? Bem, que se dane, cadê meu porrete??
“Um tributo aos Dias de Glória do Nintendo Entertainment System”, foi o que aquele trio de desenvolvedores gringos pensou em realizar a 10 anos atrás e só terminaram no dia 11 passado, quando finalmente, Abobo’s Big Adventure veio ao mundo.
Sim, demorou pacas, mas a culpa não é dos caras… A época não era tão propícia para desenvolvedores independentes como é hoje, e em nome do pão nosso de cada dia, muitos projetos desse pessoal indie acabavam ficando encostados por anos até que o tempo ou a situação financeira permitissem uma retomada. Aconteceu isso com Abobo’s Big Adventure. O web game começou a ser desenvolvido em 2002, foi encostado, voltou em 2006, teve seu conceito inteiramente mudado, e de lá pra cá, foi sendo desenvolvido da maneira que o tempo permitia, mas com toda a dedicação que uma homenagem ao NES deve ter.
E basta ver o carregamento do jogo para perceber essa dedicação: Abobo tira e assopra constantemente o cartucho do Nes que teima em não funcionar e enquanto isso o Loading vai se completando até que finalmente, o vilão marombado espeta o cartucho e o Nes funciona, nos mostrando em seguida a fantástica apresentação do game, que começa ao som do lendário tema de abertura de Mega Man 2.
Não só essa música como o jogo inteiro me surpreendeu. Fiquei sabendo da existência de Abobo’s Big Adventure a pouquíssimo tempo por meio de um empolgante trailer de lançamento que circulou pela net a alguns meses atrás, mas como muitos outros jogos, achei legal mas não o tratei como algo muito relevante por dois motivos: era só um trailer de um game que eu duvidava que fosse realmente lançado, e o personagem principal não me convencia.
Não era pra menos, até parecia legal ver Abobo, o clássico chefe de fase bombado da série de games Double Dragon, protagonizando um game de pancadaria lotado de referências a grandes clássicos do NES, mas não me passava pela cabeça o motivo de terem escolhido esse personagem em si para o papel, pois a final de contas, quem diabos é, foi o fez de especial na vida o Abobo para merecer um game de pancadaria solo? Me parecia nada mais que uma brincadeira mesmo, uma brincadeira bem legal por sinal, mas depois que fiquei sabendo que o título havia sido lançado para jogatina livre e gratuita, fui correndo testar. O resultado foi o melhor possível: horas e horas de diversão, risos, e muitas surpresas.
Abobo’s Big Adventure tem início quando o filho do figura é sequestrado em uma cena que satiriza o rapto da guria indecisa de Double Dragon, e isso é motivo suficiente para que o pai desesperado parta à procura do filho espancando a tudo e a todos que cruzarem seu caminho com técnicas tão mortais que os irmãos Billy e Jimmy correriam só de ver. Abobo está poderoso, quase um Super Sayajin. Só faltou mesmo a cabeleira amarela, pois no resto ele já rivaliza com o Goku em termos de destruição.
Com uma jogabilidade simples, precisa e intuitiva, controlamos o brutamontes por diversos cenários de jogos clássicos do sistema 8bit da Nintendo, todos eles povoados por uma multidão de personagens igualmente conhecidos e que serão os alvos em potencial da fúria incontrolável do papai Abobo. São dois botões para ataque: soco e chute, respectivamente nos botões A e S do teclado, o especial é acionado quando se aperta ambos ao mesmo tempo com a barra de RAGE cheia, e a movimentação fica por conta das setas. O game não tem suporte a gamepad, mas existe um link na tela de menu que ensina o jogador a configurar um controle USB utilizando um programa de mapeamento de botões, coisa super simples, que eu uso sempre e que vale muito a pena.
E quem acha que o game se resume a Beat’n Up puro se engana, e este é justamente o grande trunfo de Abobo’s Big Adventure: a jogabilidade está sempre mudando, acompanhando a mistureba de fases que montam as etapas do game. Existe uma fase aquática do jogo Super Mario Bros que começa logo após o teórico herói dar descarga nele próprio para sair de uma prisão, tem uma em que ele sai voando pelos cenários de Balloon Fight atrás de um bicho aquático (que por sinal é a etapa mais chata do jogo), outra tematizada em The Legend of Zelda que é nada mais que uma dungeon completa, com triforce e tudo mais, e por ai vai. A jogabilidade é sempre a característica dos jogos que originaram tais etapas com a adição de alguns comandos como os RAGES, que são variados ataques de fúria que devastam a tela na hora do aperto. Esses Rages são um show a parte: a cada bofetada distribuída a barra enche um pouco, e quando ela está completamente cheia, o comando aparece na tela em letras psicodélicas garrafais como se o jogo estivesse implorando para que você o use. E pode usar a vontade, o negócio é chacina garantida e gargalhada na certa.
Não é um game difícil, ainda mais para retroaventureiros tão acostumados aos games do NES quanto eu. O poderio ofensivo de Abobo garante que nenhum inimigo vá dar muito trabalho na hora da briga, e uma grande surpresa aguarda pelos jogadores para enchê-los de vidas na penúltima etapa do game, a mais difícil e demorada de todas. As fases vencidas não precisam serem refeitas quando nossas vidas se acabam: é só acessar a seleção de fases no menu inicial do game e continuar de onde paramos, e vamos certamente recomeçar várias vezes atrás de centenas de Achievements espalhados por elas, um mais maluco que o outro.
E não ha como contar todos os personagens, citações, inimigos e afins que aparecem no game! É algo tão extraordinário que nos faz jogar a aventura toda novamente só para continuar procurando as inúmeras aparições e participações que o game possui. Como homenagem, o Team Abobo foi longe como eu nunca poderia imaginar, muito além dos videogames. Conhecem o trashzão Mega Shark, ou o clássico da Sessão da tarde dos anos 80/90 The Last Starfighter? Estão lá, estes e muitos outros, é só procurar.

A maioria das fases estão com a jogabilidade perfeitamente adaptada ao brutamontes, mas não todas. Em algumas os comandos não foram muito bem elaboradas, mas não chegam a atrapalhar a ponto de odiar a etapa, tanto por que o trabalho final ficou muito melhor do que o esperado. Se você conhece o personagem, ou não lembra mas conhece Double Dragon, ou nem sabe que diabos é isso mas jogou bastante Nintendinho na vida, dê uma chance a Abobo’s Big Adventure. Apesar de fácil e relativamente curto, é uma homenagem digna e, sem dúvida, super divertida a esse inesquecível sistema de jogos.
Fim