
Tempinho atrás, garimpei um 3Do numa gruta em baixo da cama da mãe de um amigo. Depois de reformado, foi depositado em cima de uma pequena pilha de caixas de consoles antigos que eu guardo com muito carinho à espera do dia em que eles possam figurar em uma estante marrenta daquelas de fazer inveja, tipo a do Cosmonal. É algo que está ainda longe de acontecer, mas ainda assim, aqueles que adentram meus domínios e percebem aquela montoeira de aparelhos devidamente encaixotados, limpos e protegidos logo me perguntam se sou colecionador de videogames antigos. A resposta é curta: “Se é loco??”
“Se é loco??!!” foi também o que saiu automaticamente do fundo da minha goela ao saber o preço de um SNES que um dos meus ajudantes aqui (cof, cof, TH, cof…) estava disposto a pagar lá no Facada Livre… E foi justamente este o fato que me levou a fazer uma reflexão de última hora, daquelas que aparecem subitamente e se tornam tão claras que a gente fica se sentindo idiota por não ter percebido antes.
Pois é, de uns tempos para cá, videogames antigos resolveram sair da categoria quinquilharia para se tornarem raridades colecionáveis!
É estranho eu dizer isso? É redundante uma vez que velharias bem conservadas geralmente se tornam peças de coleção independentemente de seu gênero? Bem, caros amigos, eu não acho.
Até pouco tempo atrás, videogames antigos eram apenas videogames antigos, ou eram guardados por seus donos pelo valor nostálgico que estes possuíam, ou eram vendidos a troco de pinga em lojas de esquina espalhadas pelo Brasil todo. Colecionadores eram um povo diminuto, algo do tipo Povo da Areia de Tatooine, difíceis de se encontrar e lotados de velharias comerciais ou não. Raramente apareciam em uma ou outra revista semi-especializada da época mostrando seus pertences em fotos feias e borradas, mas ricas o suficiente para deixar aquele monte de garotos sedentos por jogos novos com aquele pensamento de “Ah se fosse tudo meu!!”. Quem nunca pensou isso HEIM?
Eu mesmo tive meus momentos de desejo naquela época, e todo mundo que frequentava bancas e game-locadoras certamente teve também, e o fenômeno atual estaria muito bem explicado se eu abraçasse a ideia de que simplesmente essa garotada toda cresceu e resolveu transformar em realidade aquele antes impossível sonho infantil de se tornarem colecionadores, saíram por aí comprando tudo que era bugiganga eletrônica relativa a videogames, e assim se deu o apocalipse das lojinhas de esquina do Brasil. Mas não, caros amigos retroaventureiros, eu não acho que esta seja a justificativa para a febre de colecionismo que acontece atualmente.
Jogos e consoles antigos sendo vendidos a preços absurdos, muitas vezes superando o preço dos poderosos consoles HD atuais e seus games em Blu-Ray multi milionários. A minha questão é: por que isso aconteceu e acontece? Por que mais e mais pessoas alimentam esse mercado tão crescente quanto superfaturado? Minha tese tenta responder este fenômeno, um pensamento amalucado que gira em torno da chegada destes poderosos monstros tecnológicos, e do dia em que foi ditada a regra de que a alta definição agora era parte integral dos jogos eletrônicos. Algo muito longe da velha questão da preferência, e talvez, bem próximo do medo de que aquele passado glorioso se perca.
Não que isso seja uma coisa ruim… Nada disso: a alta definição veio pra ficar, e indepentende do gosto de cada um, é algo soberbo! Ver os vastos e belos mundos em 3D que são criados agora com tamanha tecnologia é algo inimaginável para aquela garotada das épocas passadas. Explorá-los compõe uma experiência completamente nova, tão diferente do que se via antigamente que a garotada de hoje mal acredita que o passado era tão… tão… 2D! Mas até meados da geração passada, as coisas não eram bem assim como se encontram hoje. Era até comum se deparar com o pessoal jogando aqueles manjados cds e dvds da categoria “1000 jogos de tal Videogame Antigo” em seus consoles até então super atuais, como o PS2. E existiam também aquelas coletâneas oficiais com 6 ou 7 jogos do tipo arcade collection ou tal herói/franquia collection, como as de Mega Man que eu tenho e guardo com muito carinho! Ainda existe esse tipo de lançamento? Não sei, possivelmente devem existir sim nos consoles atuais de alta definição algo parecido a isso, como acontece com o Wii Virtual Console, que não vem ao caso de jeito nenhum por não se tratar infelizmente de um aparelho de alta definição (na verdade este é outro assunto que abordarei em breve), mas mesmo que eles existam, uma diferença crucial os separa definitivamente de tudo que jogávamos, desde nossos Ataris até os consoles da geração passada e seus acervos de coletâneas de jogos antigos: a maldita TV de tubo.
Até então, a tecnologia era a mesma: um tubo de fósforo 4:3 colorido geralmente de 21 a 29 polegadas. Servia para ligar qualquer console, por mais velho e antiquado que fosse, e isso era um elo entre estes aparelhos. É como se eu olhasse para meu Mega Drive em plena geração 128 bits e dissesse “pô, até que ele não tá tão velho assim”, e nós fazíamos isso, pois aquele elo entre os consoles nos dava essa impressão! A mesma tecnologia de imagem que se usava para ligar o velho e surrado Atari 2600 era a mesma que se usava para ligar o PS2 ou qualquer outro console mais novo: o tubão de raios catódicos. Acredito que devido a isso, era comum o mundo ter a sensação de que as coisas não estavam assim tão velhas e surradas, pois até então era só tirar o console antigo de seu local de repouso e ligá-lo na TV da sala para ter uma jogatina idêntica a que se via antes, isso sem contar a categoria “coletâneas”, que eu já citei, e que ajudava demais na efetivação deste efeito.
Mas eis que o fatídico dia em que as TVs de tubo finalmente ficaram ultrapassadas chegou, e junto dele, se iniciava uma nova era de imagens tão perfeitas como se fossem reais, onde era possível agora se perceber detalhes antes impossíveis nas poucas linhas de resolução que as agora velhas e desengonçadas TVs de tubo possuíam, e o elo finalmente se partiu.
A partir dali, os novos videogames caseiros ultrapassaram todas as barreiras que os mantinham atrás do que era considerado realmente avançado tecnologicamente, e os Arcades foram os primeiros a sentir a bofetada, que foi precedida de um fenômeno catastrófico que os reduziu a salas esporádicas espalhadas pelos países de primeiro mundo, um assunto que eu já falei a um tempão atrás. Logo depois, veio o fenômeno da sensação de rejeição: somente em uma outra vez na história dos jogos eletrônicos uma geração toda de videogames foi tratada tão veementemente como ultrapassada como aconteceu com os consoles que acabavam de sair de cena, e foi quando o mundo deixou o Atari 2600 de lado para conhecer o NES. A diferença era tão gritante entre estes dois aparelhos que, mediante a opinião popular, a Atari até desistiu de continuar comercializando o modelo posterior, o 7200 (que aqui no Brasil sofreu uma mutação nintendista pelas mãos da Gradiente e se transformou no Phantom System). No causo atual, a diferença gráfica que agora estava sendo apresentada aos jogadores era tão escandalosa que causava aquela mesma sensação quando os dois aparelhos de gerações tão próximas eram colocados lado a lado, isso sem falar no fator on-line, que vinha forte como o grande diferencial de interatividade.
Se aqueles consoles recém-superados estavam agora tão velhos, o que dizer então dos realmente velhos?
Foi como uma luz que se acende de repente e ilumina toda uma sala que antes não se sabia o tamanho: imediatamente passamos a olhar para nossos velhos aparelhos de uma outra maneira, começamos a perceber a verdadeira idade que eles tinham, e quantas gerações já se haviam passado desde que eles vieram ao mundo. O que aconteceu a seguir foi de acordo com a paixão e o teor nostálgico de cada um: muita coisa foi pro lixo, milhares e milhares de consoles, cartuchos, controles e afins sumariamente jogados fora, outras muitas foram doadas para aquele priminho chato ou de menor condição financeira, e outras milhares foram guardadas a sete chaves por seus donos por que agora eles as enxergavam como verdadeiras relíquias, pedaços de suas infâncias que agora virariam peças de coleção, coisa que obviamente não parou por ai.
Milhares de donos de consoles antigos espalhados pelo mundo, motivados por aquele novo sentimento de preservação das suas memórias gamísticas, começaram então a comprar. O início foi tímido, jogos, controles mais novos, acessórios faltantes, e coisas do tipo eram os procurados naquele intuito inicial, mas a coisa aumentou, tomou forma, se transformou em pouco tempo num mercado paralelo que hoje movimenta dinheiro alto, e que cresce mais e mais à medida que as mercadorias vão se tornando escassas.
Um bom jogo antigo, se estiver em sua embalagem original com todos os manuais e panfletos inclusos, pode ser facilmente vendido por quantias que superam em muito os preços de jogos atuais em seus lançamentos, consoles completos então nem se fala! Você tem um SNES completinho na caixa com isopor e tudo? Tem gente disposta a pagar mais de mil reais por ele então meu amigo, e não são poucos não. E esse preço de venda aumenta mais rápido que o da casa própria, então guardar para vender depois pode ser algo proveitoso…
Os colecionadores de games saíram da categoria Povo da Areia de Tatooine para adentrar na categoria Formigueiro, e o volume de compras se tornou tão alto que fontes antes inesgotáveis de jogos antigos, como a Rua Santa Ifigênia em São Paulo, hoje se tornaram não mais que algumas poucas grutas onde respingam goteiras de uma água que se torna cada vez mais preciosa.
Colecionar ficou caro demais, e nem de longe me refiro a ter meia duzia de jogos e alguns consoles como eu mesmo tenho aqui. Quando digo colecionar, me refiro ao significado real do negócio: ter jogos completos, com caixa, manual e panfletos, consoles inteiros em suas respectivas caixas e isopores intactos, de varias idades, cores e sabores diferentes. Definitivamente não é para mim, mas me afeta! Quem disse que eu consigo achar o maledito cartucho Top Gear pra vender em qualquer local que não esteja na internet, onde o preço é absurdo? Coitada da minha noiva pô!!
É fato que todo mundo tem um colecionadorzinho escondido dentro de si só esperando uma brechinha qualquer para aparecer e dizer olá ao mundo… Eu mesmo adoraria ter uma singela coleçãozinha bem pequena de jogos da série Zelda lançados nos consoles principais da Nintendo para deixar bem a mostra em uma estante pra todo mundo ver e babar mesmo considerando isso quase impossível devido ao preço a se pagar por tais peças. Pois é, hoje em dia, o custo é pra ser levado em conta na hora de se deixar aflorar esse nosso lado oculto.
Se eu fosse começar a colecionar hoje de verdade? Bem, eu compraria uma TV de tubo primeiramente, pois foi nela que tudo começou, não é mesmo? É nela que dá pra ligar o seu monte de consoles antigos, é nela que você vai conseguir a resolução ideal para todo e qualquer jogo velho, e é nela que você vai conseguir aquela velha sensação nostálgica que acabou quando o LCD se popularizou. Por outro lado, tudo isso que você leu até agora pode ser nada mais que uma tremenda groselha fruto de minha ressaca de final de ano… Bem, de qualquer maneira, compre logo antes que elas também comecem a ser vendidas a preço de relíquia, afinal, é melhor um na mão do que dois no sutiã, não é mesmo?
Fim