
O ano estava para partir, um outro novinho em folha logo entraria em seu lugar, e uma das coisas que me vieram a mente perante aquela situação era que isso só contribuiria para que o pecado de nunca ter jogado o primeiro game desta clássica franquia, ao qual sou fanático, se tornasse um pouquinho mais pesado. Creio que tantos anos depois, e tendo ignorado tantas oportunidades de ter sanado esta dívida que eu tinha para com a minha carreira de retrojogador, eu agora carregava toneladas de remorso em meus ombros, e cá entre nós, caros amigos retroaventureiros, estava sendo duro lidar com isso. Mas eis que naqueles últimos dias de 2010 algo aconteceu, e esse algo me abriu uma nova chance de embarcar na aventura que eu deveria ter tido a muito, muito tempo atrás. Este é o relato da redenção.
A verdade é que eu queria ter terminado esse jogo antes de virar o ano, mas os temidos relatos de que a aventura era difícil ao extremo se confirmaram logo que eu comecei a desbravar aquele mundo. Diziam os retroaventureiros que se localizar pelo amplo mapa era tarefa quase masoquista, que algumas dungeons eram tão escondidas que era impossível achá-las sem alguma ajuda externa especializada (entenda-se faqs ou detonados), e o mesmo era dito sobre cavernas e buracos espalhados a esmo pelo Overworld, sem contar que boatos citavam algumas dessas dungeons como desumanamente difíceis.
Assim, quando Link me perguntou se eu iria enfrentar seu derradeiro mundo na base da raça, só com a cara e a coragem, eu disse péra lá, coragem quem tem é você, e eu como não tenho Tri-Force nenhuma, quero o poder do Manual do Jogo! Óbvio que ele concordou, nada mais justo, pois eu estava me comprometendo a não usar no game nenhum tipo de falcatrua para terminá-lo, como Save States a cada inimigo derrotado, ou ajudas internéticas Googleianas como mapas e localizações de itens. Assim, adentramos aquela caverna úmida inicial, pedimos ao ancião uma espada extra pra mim, e partimos para a briga!
A missão? Claro que eu sei a missão: coletar os 8 pedaços da Triforce da Sabedoria que a princesa tratou de esconder no fundão de calabouços pra lá de perigosos (coisa que até agora eu me pergunto como foi que ela conseguiu), refazer o bendito triângulo e usá-lo para chutar o traseiro de Ganon, nada demais e nada muito complexo, como era de praxe para a época. Assim saimos da caverna e… Para onde vamos?
Este é o grande dilema de quem se aventura pelo Overworld de The Legend of Zelda pela primeira vez. Em todos os outros títulos desta franquia que joguei, sempre existia alguma direção inicial, alguém te mandando ir a algum lugar, alguma visão do além que te mostrava o caminho, mas aqui não! Aqui o velho te diz “É PERIGOSO IR SOZINHO!”, mas ir sozinho pra onde, meu senhor barbado? Mesmo que voltemos pra dentro da caverna, ele não fala mais nada, então nos resta sair e procurar um caminho para algum lugar que possa esconder um pedaço da triforce.
Assim vagamos pelo mapa, subindo e descendo telas, e morrendo a torto e a direito. Pois é, mortes abundantes são inevitáveis de início, pois a jogabilidade à moda antiga requer adaptação! E ao morrer, somos apresentados à tela de SAVE do jogo, onde ainda podemos escolher entre continuar ou começar de novo do zero a aventura, bora no CONTINUAR e… sempre voltamos do início. Não importa o quão perdido e longe você está no mapa, morreu, volta para a tela da caverna inicial, só não perdemos os itens conquistados e mais algumas peculiaridades que eu contarei com o passar do tempo.
A primeira coisa que achei foi uma caverna na tela acima do local inicial, onde o dono do recinto vendia alguns itens, dentre eles, um escudo e um punhado de flechas. Mas 160 ruppies por um escudo? Eu já havia rodado algumas telas no mapa e matado algumas criaturas e sabem quantos ruppies eu tinha? Três. Maldita inflação… “Deixa pra lá esse escudo” eu disse para o Link, “vamos morrer, quer dizer, andar mais um pouco pelo mapa!”.
Maldita mania minha de começar tudo pela direita. Lá vai eu querer atravessar o campo todo até dar de cara com um oceano intransponível e sem maiores pistas sobre o paradeiro do primeiro pedaço da TriForce. Subimos, descemos, demos de cara um monte de orcs, e na enésima morte desisti da direita, e resolvi levar os aventureiros para a esquerda. Assim atravessamos um rio, andamos por vários mapas infestados de orcs, saí em uma encruzilhada macumbada que se repetia infinitamente a não ser que voltássemos de onde viemos, e finalmente, encontramos a nossa primeira dungeon: uma construção marrom ameaçadora em um vale cercado por montanhas verdes e com várias estátuas estáticas ao seu redor… bem, estáticas pelo menos até a hora que eu encostei sem querer na primeira delas: ela piscou, criou vida e saiu desembestada atrás do Link. A saída foi voltar rapidamente para a tela anterior, pois quando fazemos isso, inimigos derrotados somem por algum tempo, e inimigos vivos voltam ao seu local de origem. Assim a estátua voltou para o seu pedestal e lá ficou quietinha enquanto passávamos sorrateiramente em direção a entrada da dungeon.
Uma vez dentro, começamos a investigar sala após sala, e não demorou para que morrêssemos pois a dificuldade é alta lá, bem mais do que nos mapas externos, e em meio ao desespero de achar que teríamos que voltar o mapa todo até o atual leito de morte, descobrimos que ao se morrer dentro das dungeons, o CONTINUE nos leva para a primeira sala da mesma, e com as mesmas regras do Overworld: sem perder nenhum item conquistado, e com alguns inimigos já derrotados… Um alívio enorme, tanto por que ao derrotar uns soldados com cara de porco arremessadores de boomerang’s, acabamos pegando um pra gente, e não gostaria nada que ele sumisse do inventário! Mas ainda assim, a dificuldade é insana: alguns locais possuem espaços limitados por pilares e paredes grossas, e são infestados de inimigos que não morrem com um ou dois golpes. Mas somos perseverantes, e seguindo em frente, achamos uma bússola! Automaticamente começou a piscar uma localização lá em cima da tela, logo abaixo daquele NÍVEL 3 ali… Nível 3??
A primeira coisa que me veio à mente: bem, podemos estar no nível 3 desta dungeon, algum tipo de andar, ou profundidade… Nada melhor que seguir em frente para confirmar! E foi aí que achamos um novo item ao derrotar um inimigo: um relógio! Ao pegá-lo, todo mundo para de se mover, e assim, resta apenas fazer a chacina e limpar o recinto, que de vez em quando até guarda segredos como chaves ou ruppies que aparecem após termos feito a faxina, sem contar os itens como Bombas, que são importantíssimas, poderosas, e podem cair de qualquer bicho morto. Mas não tardou para que desistíssemos, pois algumas salas eram praticamente impossíveis de se passar, pelo menos com nossa força atual, e o tal do NIVEL 3 se revelava mesmo ser o nível da Dungeon, ou seja, havíamos pulado duas delas. O jeito foi voltar e procurar mais.
Mas nada melhor do que colocar a cabeça no lugar e pensar um pouco para que possamos chegar a algumas conclusões óbvias, não é mesmo? A dungeom de Nível 3 estava a uma distância relativamente curta da tela de início do jogo, logo, a de Nível 1 tem que estar bem mais próxima e acessível do que esta. E uma vez que já tínhamos ido para a direita até acabar o mapa, e para a esquerda acabamos achando uma dungeon duplamente errada, que tal então subirmos alguns mapas? Batata! Foi assim que, algumas telas acima da inicial, atravessamos uma ponte e chegamos finalmente a Dungeon de Nível 1.
Começamos a explorar o local e a diferença de dificuldade era evidente: inimigos mais fracos, mapa menos labiríntico, e com poucas salas desbravadas já tínhamos pego a Bússola e o Mapa da dungeon. Agora lá em cima, logo abaixo do NIVEL 1 (agora sim!), aparecia o diagrama completo do recinto juntamente da sala onde se encontrava o nosso primeiro pedaço de TriForce, mas como bons aventureiros desbravadores que somos, fomos visitar todos os cantinhos do calabouço e eis que achamos uma escada! Ao descê-la, encontramos o ARCO, que foi para o inventário, mas não podia se quer ser equipado adivinhem por que: AS BENDITAS FLECHAS DO VENDEDOR, que custavam 80 ruppies… Até esse ponto a gente só tinha 30, e ainda queríamos aquele escudão de 130…
Chororô a parte, acabamos avançando e foi nesta etapa que o Boomerang se mostrou muito eficaz, pois além de destruir inimigos pequenos, ele atordoava os grandes e ainda podia ser arremessado na diagonal! Uma mão na roda para se vencer inimigos difíceis de acertar, como aqueles benditos morcegos chatos. Antes do fim, achamos um senhor barbado perdido dentro do local, e ele ficou tão feliz quando lhe mostramos o caminho de volta que nos presenteou com uma frase que dizia “O SEGREDO É A PENÍNSULA A LESTE”! Seria isto uma dica do paradeiro da próxima Dungeon? Bom, só saberíamos após terminar essa, e então chegamos à sala anterior á última, onde nos deparamos com um dragão verde cuspidor de bolas de energia.
Boomerang nele… Não funcionou, o jeito é partir pra ignorância mesmo, e algumas espadadas bem desferidas depois, o bichão cedeu, deixando para trás um grande coração que aumentou nossa energia vital. Estava liberado o caminho para a próxima sala, onde repousava o nosso primeiro pedaço de Triforce, e ao pegá-lo, o brilho ofuscou a tela, nossa energia foi restaurada, e fomos transportados por mágica até a entrada do calabouço.
Na mochila, o pedaço da Triforce conquistada; na mente, as frases do velho ancião. O que nos aguarda na Península Leste? Em breve vocês saberão, caros amigos retroaventureiros!

Fim
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